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Mimimi da pantufa

Não é que eu esteja ficando cada vez mais pão-dura. Apenas estou descobrindo, digamos, que há um fundo de verdade naquele clichê de que só um jovem sem coração não é socialista e só um adulto sem cabeça não é capitalista (como se fosse possível a qualquer pessoa “não ser”, isto é, “estar fora” do capitalismo, mas deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem). Toda vez que tenho que pôr a mão no bolso para qualquer coisa, tento medir meu desejo/necessidade em reais – coisa que, aliás, não entendo como eu não fazia antes. Eu era o quê, rica? Possivelmente. Que nem essa matéria que está sendo o terror-do-Feissy este fim de semana, em que os fofos, chatiadíssimos, adotam o costume de, “antes de fazer qualquer compra expressiva (…) avalia[r] se o gasto é prioritário” . Isto posto, não há como não perguntar – antes eles faziam como? Compravam primeiro e conferiam se ˜era prioritário˜ depois? “Ih, rapaz, não é que, pensando bem, esse par de esquis não era prioridade para o momento, já que vivemos no maldito Brasil?”

No meu caso, não é bem avaliar a prioridade de cada coisa o que venho tentando fazer, e sim mensurar algo mais sutil: se o dinheiro gasto corresponde ao quanto eu desejo, almejo, cobiço o objeto adquirido ou serviço prestado. Um almoço na padaria que custe vinte reais, por exemplo. Eu quero esse almoço vinte reais? Repare que muitas vezes o que você quer não é exatamente o objeto ou serviço em si, mas algo que vem embutido nele de forma não necessariamente explícita. Por exemplo, o almoço da padaria em si pode ser até bem ruinzinho – mas prezo muito a hora ou hora e meia de tempo livre que o almoço ruinzinho na padaria tem o dom de me proporcionar, hora ou hora e meia esta que eu não teria se estivesse fazendo minha própria comida em casa. Então, nesse sentido, sim, eu quero uma hora e meia vinte reais, se é que esta sintaxe maluca está fazendo sentido.

Pois esta semana resolvi que queria uma pantufa, e decidi escrever a respeito em primeiro lugar porque adoro a palavra pantufa: é daqueles casos em que a gente até dúvida da arbitrariedade da conexão significante-significado, pois o que pode ser mais adequado ao objeto-pantufa do que uma palavra que evoca estufa e pão? Sim, eu quero meus pés quentinhos de estufa como um pão saindo do forno. Ou, pelo menos, eu achava que queria.

Entrei numa loja que era praticamente o Paraíso das Pantufas, com modelos de diversos tipos, cores e sabores. “Gostei mais desta aqui, moça, quanto é?”

“Cento e trinta e oito reais.”

Vamos recapitular.

Não era uma pantufa fofíssima estofada com penas de gansos eunucos da Croácia.

Não era uma pantufa cravejada de diamantes.

Não era nem mesmo um sapato.

Com a pantufa, eu não pretendia conhecer reis e imperadores, desfilar em tapetes vermelhos, sambar no camarote da Brahma.

Com a pantufa, eu não almejava ˜seduzir o meu homem˜, nem participar daquela entrevista de emprego em que você tenta desesperadamente convencer o entrevistador de que você é a maníaca do taierzinho quando seu negócio mesmo é um pijama.

Com a pantufa, eu esperava apenas sentir menos frio no pé ao andar pelo banheiro e pela cozinha.

Daí, então, a pergunta de um milhão de dólares:

Eu quero uma pantufa cento e trinta e oito reais?

Desnecessário dizer que saí do paraíso pantufal cento e trinta e oito reais menos pobre – ou, por outro lado, cento e trinta e oito reais mais classe média do que antes. Minha escolha pautou-se em algo que a publicidade nunca dirá:

Par de pantufas – cento e trinta e oito reais. Desencanar da pantufa e andar de meia pela casa – não tem preço.

Bandeira

Naquela pessimamente construída passagem entre as estações Paulista e Consolação do metrô, em meio a centenas de corintianos, ela teve o olhar fisgado por um deles – mais especificamente, por sua bandeira, que, enrolada no corpo, por muito pouco não se arrastava pelo chão. Como o chão era o de uma esteira rolante, ela se achou na obrigação de avisar:

- Levanta um pouco a sua bandeira, moço, periga a esteira agarrar ela.

O moço agradeceu, reajeitou a bandeira sobre os ombros e afastou o risco de fazer a Isadora Duncan no metrô.

Uma moça que estava por perto achou o gesto corajoso (ah, o conceito de coragem, esta potencial tese de doutorado à espera de um pesquisador):

- Cê é loca de mexer com corintiano que cê nem conhece no metrô lotado?

- Mas era uma questão de segurança. E além do mais…

Ela não disse. Mas ela pensou. E um minuto atrás, no “levanta um pouco a sua bandeira, moço”, ela não havia percebido que, sem pensar, pensara:

Além do mais, o moço era branquinho.

- Além do mais o quê? – disse a moça inconformada com a ousadia da outra.

Mas ela, a outra, fora tomada pelo horror. “Nada não” foi sua resposta. Seguiram em silêncio até a plataforma, onde ela, a outra, fez questão de embarcar em um trem diferente do moço alertado e da moça inconformada. Ali, pôde chorar baixinho, naquela privacidade que só o metrô de São Paulo é capaz de proporcionar.

Altos falantes

Tocava Johnny Rivers no alto-falante do ônibus. Eu não entendo muito bem como funciona isso, mas alguns ônibus em São Paulo têm alto-falante, e em um único ônibus de São Paulo sai Johnny Rivers do alto-falante. Entra um senhor e entabula uma conversa com o motorista (eles já se conhecem). O Johnny Rivers é obra do motorista, que além de zelar pela condução do veículo é responsável também pela educação musical dos passageiros, “já que hoje em dia só toca porcaria a gente faz o que pode pra mostrar música decente pro povão”. O senhor elogia a música e diz que gosta daquele ônibus porque para ele é assim, música boa é música internacional, antiga e lenta. O motorista fica de colocar umas músicas internacionais, antigas e lentas em um pen-drive para ele. O senhor fica todo contente e diz que sua senhora vai apreciar muito a gentileza.

***

- Moça, por favor: quando chega na estação Sé, a porta abre de um lado só?

- Sim, estação Sé é “desembarque pelo lado esquerdo do trem”, só abre do lado esquerdo.

Depois de pensar dois segundos:

- Bem, na verdade depois de abrirem as portas do lado esquerdo abrem as do lado direito também, para as pessoas entrarem, mas sempre tem um mané que sai pelo lado errado, quer dizer, pelo lado direito, atrapalhando os que entram; então tecnicamente todas as portas do trem ficam abertas por alguns segundos, mas o certo mesmo é sair pelo lado esquerdo, quer dizer, é o que o moço do alto-falante manda a gente fazer…

- … (= too much information)

- Mas por que você quer saber?

- Porque estou com medo de me perder.

- Saia pelo lado que você quiser, então. Para combater o medo, não há nada melhor.

Read with Friends

Após o sucesso do Bang with Friends, aplicativo que lhe permite informar aos seus amiguinhos de Feissy que você quer transar com eles, vem aí o revolucionário Read with Friends.

O sucesso do Bang with Friends deve-se à quase eliminação das suas chances de ser rejeitado, pois o aplicativo faz o favor de informar seus desejos libidinosos apenas àqueles que também nutrem desejos libidinosos por você. É exatamente esse modelo que os desenvolvedores do aplicativo replicam agora na recém-inaugurada rede social Read with Friends.

Trata-se de uma comunidade criada para pessoas-que-escrevem-textos, não importa de que tipo. O usuário cria um perfil descrevendo todos os textos em que está trabalhando no momento: capítulo de tese, post de blog, poema erótico, romance de época, resenha de telefone celular, letra de samba. Qualquer texto, enfim, que venha a se beneficiar do olhar libidinoso de um leitor interessado e envolvido.

Ao mesmo tempo, o usuário percorre os perfis dos amigos e vai marcando os textos que tem interesse em ler, não importa o tema: interessou, clicou. Eventualmente, todos vão tendo seus textos clicados por alguém.

Como já adivinhou o perspicaz leitor, o Read with Friends envia uma notificação aos usuários sempre que houver um interesse de leitura mútuo entre dois autores. Assim como o Bang with Friends elimina o pé na bunda, o Read with Friends põe um fim à mendicância por leitores do capítulo de metodologia da sua tese ou do seu poema épico sobre o Corinthians. Agora, o leitor vem até você – em troca, você só precisa ler um texto em que você mesmo demonstrou interesse.

Cabe ressaltar que a modalidade de leitura priorizada pelo Read with Friends não é a leitura-de-internet nem mesmo a leitura-de-amigo, em que uns leem os textos dos outros e, no cúmulo da articulação, dizem que “acharam daóra”. Ao participar do Read with Friends, os usuários se comprometem a fazer uma leitura pormenorizada do texto alheio, atentando para detalhes de forma como o uso desnecessário da palavra pormenorizada e para detalhes de conteúdo como até que ponto se pode levar uma analogia imbecil adiante.

Assim como o Bang with Friends, o Read with Friends também garante a privacidade dos usuários: afinal, a sociedade não é obrigada a saber que você tem um blog, uma tese ou um poema épico sobre o Corinthians.

A nova rede social ainda está em fase beta: os interessados devem se cadastrar através do sistema de comentários deste blog.

Cuidar de si é matar os pais

Uma amiga disse uma coisa tão bonita. Que não cuidar bem de si é não ter feito o luto pelo fato de que seus pais não cuidam mais de você. Cuidar de si é matar os pais, portanto. Não cuidar de si é, literalmente, o que de mais infantil uma pessoa pode fazer. É ficar bravinho e bater o pé porque papai e mamãe não estão mais aqui para tomar conta.

(Você pode entender o cuidado de si como uma série de ações ou falas complexas e profundas direcionadas a um suposto eu interior, mas estou pensando em atos como comer, dormir, tomar banho, tomar remédio.)

Eu gostaria de poder ir além e dizer que, se você não sabe cuidar de si, não tem como cuidar dos outros como a si mesmo, mas infelizmente não somos cristãos por natureza e algumas das pessoas que mais têm o dom de cuidar (agora sim estou falando de ações e falas complexas e profundas direcionadas a um suposto eu interior) dos outros são as que menos têm a capacidade de dormir (8 horas), tomar banho (usando sabonete, xampu e condicionador), tomar café (com leite e pão e frutas), tomar remédio (o que o médico mandou).

Então eu tento cuidar destas algumas pessoas dizendo coisas complexas e profundas que pretendem atingir aquele suposto eu interior, sendo que tudo o que eu queria mesmo era alimentá-las, banhá-las, dar o remédio na boquinha e embalá-las até que pegassem no sono.

Mas são pessoas adultas. E eu, teoricamente, também. Então eu digo coisas complexas e profundas. Elas continuam cuidando de mim. E eu continuo não cuidando delas.

Instalação em piscina

Contar o que me aconteceu ontem à noite é uma desculpa tão boa quanto qualquer outra para voltar a escrever neste blog.

Ontem, no ônibus, encontrei Danny Brown. Ele é um rapper que, enquanto fazia um show semana passada, teve as calças abaixadas por uma fã, que tentou lhe fazer sexo oral. Sua companheira de palco, depois, disse que ele tinha sido estuprado na frente de todo mundo, e ninguém disse nada. Mas ontem ele estava no ônibus comigo e me contava de seu doutorado. Ele tinha conseguido uma entrevista exclusiva com Clarice Lispector – uma entrevista do além, pois, como todos sabem, Clarice já morreu. O que poucos sabem é que Clarice não é escritora e sim uma renomada artista plástica, e sua obra mais famosa fora o tema da entrevista. Trata-se de uma instalação em uma piscina. Recortes de jornal flutuam sobre a água, com manchetes que, na verdade, são frases de auto-ajuda (“só o amor constrói”). O papel recebeu um tratamento especial para não se desfazer na água e ainda assim conservar seu aspecto de jornal. Muitas, muitas manchetes de auto-ajuda flutuantes. No centro, flutuando também, uma bola vermelha – maior que uma bola de tênis, menor que uma bola de futebol. Clarice disse a Danny Brown que a bola era o sangue menstrual concentrado. E que enquanto os homens passam a vida tentando separar sangue de água, as mulheres aprendem a fazer isso desde a primeira vez que menstruam.

Achei meio clichê. “Ó nós mulheres que conhecemos o mistério da vida porque menstruamos e engravidamos e parimos e blablablá.” Mas ele parecia estar muito satisfeito com seu doutorado. E a verdade é que eu sentia inveja de Danny Brown. Ele tinha uma entrevista com Clarice Lispector diretamente do além. O que tenho eu? Apenas o sangue da menstruação, e um textinho mal-ajambrado.

Eu não

Eu não vi O Poderoso Chefão.

Nem li Shakespeare.

Não sei diferenciar impressionismo de expressionismo.

Nem Marginal Tietê de Marginal Pinheiros.

Nem Star Trek de Star Wars.

Não li Dante.

Não li Homero.

Não li Ovídio.

Não li aqueles cara tudo que o Freud cita.

Os que o Borges cita, menos ainda.

Não vi nem li nenhuma trilogia dessas em que a mocinha é moderna e bem resolvida.

Não sei o que é Garganta Profunda.

Não imagino o que seja ler poesia se não for para fazer trabalho de escola.

Não vi a novela. Nem essa daí. Nem aquela lá.

Não ouvi o último disco do Caetano. Nem o anterior. Nem o anterior a esse.

Não vou ao teatro.

E, o pior de tudo, não sei fritar um bom bife.

Marcadores de superioridade

Era uma vez, em um café superfaturado da cidade de São Paulo (aliás, existem cafés não-superfaturados em São Paulo?), uma fila. Não muito longa, não muito curta: umas cinco pessoas, esperando para fazer um pedido e tirar a ficha no caixa. No terceiro lugar da fila, uma senhora com seus seguramente mais de setenta anos. No segundo, um homem – apenas isto, um homem. No primeiro, uma mulher – apenas isto, uma mulher.

Os cafés superfaturados são superfaturados por um motivo: neles você pode pedir não apenas café, mas também chocolate, caputchino, mocatchino e meia dúzia de outras coisas que podem ser bebidas quentes.

Não é de admirar, portanto, que a mulher tenha ficado um pouco indecisa diante de tantas opções. O que surpreende um pouco, talvez, é que ela tenha passado cerca de três minutos sem fazer o seu pedido, perguntando à atendente, em vez disso, qual era a diferença do moca pro caputchino, quanto de chocolate ia em cada um, se tinha alguma opção lait, dáiet, etc.

Depois de três minutos – que pode parecer muito pouco tempo, mas experimente fechar os olhos e contar pausadamente até cento e oitenta –, o homem atrás dela arriscou:

- Olha, primeiro você tem que decidir o que vai comprar antes de entrar na fila, senão você bloqueia todo mundo.

- Ué, mas eu ainda não me decidi! Estou escolhendo, por acaso não posso escolher?

- Você pode, mas escolha antes de entrar na fila. Não é justo, existem outras pessoas atrás de você. Como esta senhora.

Nisso, a senhora se adianta:

- Posso passar na sua frente? Eu já sei o que vou pedir e já estou com o dinheiro trocado. Um espresso, por favor.

(Adoro quem pede permissão para fazer alguma coisa, já fazendo – é o famoso “posso ver?” das crianças, que é a primeira coisa que elas dizem quando tomam um objeto das mãos umas das outras.)

A mulher continua:

- Se a senhora quer passar na minha frente, ela que passe, mas você está sendo muito deselegante, rapaz!

Então o homem se exaltou. E falou em absurdo e incivilidade e em desrespeito à cidadania. E a mulher respondeu que ele não tinha nenhuma educação. Até que o homem proferiu a frase mágica:

- Queria ver se você fizesse isso nos Estados Unidos, o que que iam te dizer!

Mas, como um Harry Potter que rebate o feitiço do bruxo mau com uma mera sacudidela da varinha, a mulher respondeu:

- Pois eu já fiz muito isso nos Estados Unidos, e sempre fui tratada com educação! E além disso, sou professora de inglês muito bem sucedida graças a Deus, e meus alunos sempre foram muito educados comigo!

Isto posto, a partida ficou em um a um – cada qual pediu seu café (ela) e sanduíche natural (ele) e foi degustá-lo em cantos opostos do estabelecimento.

Ao contrário de quando duas mulheres ricas brigaram no shopping, desta vez, pelo mero fato de ninguém ter saído no tapa, tive vontade de dar um abraço nos dois.

Eles são um retrato de valores aos quais nossa velha e combalida classe média se aferra com imenso fervor. E esses valores nada têm a ver com a discussão sobre o lugar na fila, que isso não tem importância alguma – mas com aquilo que o homem e a mulher consideram um marcador de superioridade de uma pessoa sobre outra.

Em primeiro lugar, a mui celebrada viagem para os Isteits. Há alguns anos, dizer “estive nos Estados Unidos e sei como é” podia ser uma frase de provocar OHs na plateia, dado que viajar era para poucos – mas, hoje, toda a velha classe média (e boa parte da nova também) viaja aos Estados Unidos com frequência. Para a classe média de São Paulo, Miami tornou-se um destino turístico equiparável ao Rio de Janeiro – compare os preços de hotéis e passagens aéreas e me diga se estou errada.

Resta à classe média o conhecimento do inglês como privilégio. Falar inglês fluentemente ainda é sinal de status, num país historicamente monolíngue como o nosso. Mas atualmente o que se vê são empregadas domésticas e serventes de obra economizando para pagar escola de inglês para os filhos. Se os pobres já lotam os aeroportos, em breve também escreverão hashtags em inglês no instagram. #OhMyGod #SoHumilliating #SoInfuriating

O homem e a mulher podem ter concepções opostas do que seja uma fila democrática e justa, mas ambos se igualam em sua idealização dos Estados Unidos (e, por extensão, da língua inglesa) como um modelo de civilidade e boa educação a ser alcançado. Mais que isso, ambos se agarram a marcadores de superioridade que estão extintos ou em processo de extinção.

Seria bom se o homem considerasse que não importa muito a civilidade (ou falta dela) dos estadunidenses – importa, sim, a civilidade que estamos permanentemente construindo para nós, segundo nossos próprios parâmetros. Seria melhor ainda se a mulher se desse conta de que sua profissão (ou seu grau de êxito e competência nela) não tem qualquer relação com o tempo que se leva para fazer um pedido quando há uma fila esperando atrás de você.

Acima de tudo, seria fenomenal se eu entendesse que aquilo que eu gostaria que os outros entendessem jamais será objeto de sua preocupação.

É impossível dizer qualquer coisa não-imbecil quando uma pessoa morre

Ou melhor: é impossível dizer qualquer coisa que não seja clichê. Que não seja sumamente estúpida. Que não seja de um sadismo convenientemente disfarçado. Que não seja de extremo mau-gosto. Eu não estou falando de dizer alguma coisa brilhante. E também não estou falando de ter 13 anos e achar que tudo o que se fala – sobretudo o que os pais falam – é idiota. Eu estou falando de dizer alguma coisa que denote empatia e bom-senso. Eu estou falando que isso é impossível.

É claro que não só eu não me excluo disso como também não excluo a possibilidade de que, para outras pessoas, tudo ou parte do que é dito nessas ocasiões seja belo, sincero e tocante. Mas este blog não é sobre outras pessoas, este blog é (longo e tedioso suspiro) sobre mim.

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Sabe aquele delicado equilíbrio tão difícil de atingir entre o arroz e o feijão no prato? Aquele dom de servir a proporção certa, para que não sobrem grãos solitários no prato nem falte nenhum sabor na boca? Eu nunca tive. Acaba o feijão, inteiro com um pouquinho mais de caldo, daí logo falta arroz, então sirvo mais arroz, e é só pôr mais arroz para perceber que aquele feijãozinho extra já se foi, e assim continuo com mais e mais conchas e colheradas e francamente não sei como consigo terminar a refeição.

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Você já ouviu falar numa coisa que Heidegger chamava de falatório? Não é um conceito, porque diz que Heidegger não tem conceito (eu é que não sei, Heidegger é daqueles autores que, assim como Lacan, estamos eternamente condenados a ler somente através de comentadores), mas me disseram que é assim: falatório é tudo que a gente fala que é meio o que qualquer um falaria e que não diz realmente nada e não leva a lugar nenhum (ou seja: falatório é basicamente tudo, exceto a poesia). E eu acho que Heidegger devia estar num enterro quando pensou isso.

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A proporção xampu-condicionador é igualmente capciosa. Só que essa você só vê quando um dos dois acaba. De criança, o condicionador sempre acabava primeiro, e eu considerava isso uma tremenda falha de caráter – eu era uma criança preguiçosa que não tinha pudores de encher o cabelo de creme e deixá-lo bem oleoso, se necessário fosse, apenas para ter menos trabalho para desembaraçá-lo.

Aí cresci, envelheci e hoje economizo no condicionador. Até que um dia acaba todo o xampu de casa. E o condicionador jorra do pote. Lavo o cabelo só com ele, o que mais eu ia fazer?

Foi nesse dia que descobri o que é um cabelo verdadeiramente oleoso.

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- Deus é bom, [o morto] morreu rápido, Deus não deixou ele sofrer.

- Deus é bom, [o morto] ainda viveu bastante, Deus deixou ele viver um bom tempo depois do diagnóstico.

- [O morto] se entregou, queria ir para os braços de Deus. Então foi melhor assim, ele conseguiu o que queria.

- [O morto] lutou pela vida até o fim, é um exemplo para nós. Então foi melhor assim, ele pôde descansar.

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O meu lugar preferido no mundo é o 55 Bar, em Nova York. Em segundo lugar, a livraria Eterna Cadencia, em Buenos Aires. E, num honrosíssimo terceiro lugar, o SESC Belenzinho. Gente. Esses SESC dá um pau nos SESCs chiques. Vila Mariana, Pompeia, Pinheiros. Esquece. ZL, manos. Aliás. Quem diz que o melhor do Brasil é o brasileiro claramente nunca visitou uma unidade da rede SESC. A melhor coisa do Brasil, de longe, é o SESC. Tá bom, vai: a melhor coisa de São Paulo. Além dos corredores de ônibus da Rebouças e da Nove de Julho, que também são lindos.

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Uma mania de dizer que 1) Deus é bom (essas pessoas não leram o Antigo Testamento?); 2) o morto descansou (como se o morto fosse capaz de descansar, depois bocejar, dar uma espreguiçadinha, levantar e rebolar ao som de uma salsa). Desculpa. Eu faço piada porque fico nervosa. Especialmente quando dizem que foi bom o morto morrer. Bem – foi para isso que inventaram o cristianismo, eu sei. Todo o cristianismo se baseia exclusivamente nesta ideia principal: que morrer é de mentirinha, e no fundo é bom. É inclusive a melhor coisa que pode acontecer a uma pessoa. E é exatamente o que todos dizem num enterro. Foi bom, foi ótimo o morto ter morrido. Dizem isso. E no entanto eu não vejo ninguém abrir uma cerveja. Eu não vejo nenhum cavaco, nenhum pandeiro e nenhum tamborim. Eu vejo pessoas chorando. E pessoas cansadas. E pessoas constrangidas por não estarem chorando como as pessoas cansadas.

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Mentira. Meu lugar preferido no mundo é a minha casa. (Não é só quando uma pessoa morre que é impossível fugir do clichê.)

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Com vinte e um anos de atraso resolvi me indignar com as incontáveis vezes em que contei para mim mesma (ou que contaram para mim, porque o ser humano é assim) que minha mãe morreu mas foi só porque Deus é bom, sabe. Porque ela mesma dizia que não queria ficar velha. Era tão vaidosa! Imagina isso, se Deus não é bom e não mata ela enquanto jovem, ela ficaria velha e inevitavelmente acabaria fazendo uma cirurgia plástica. Isso sim seria uma baita maldade. Suprema humilhação. Logo, foi bom. Porque a gente faz um plano e Deus faz outro. Obviamente muito superior. #AbaixoPitanguy. Etc.

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Mas então eu acabei falando o quê? No enterro?

Falei que o morto descansou. E que Deus é bom. O que mais eu poderia dizer?

Sem fim

Ontem tive a brilhante ideia – e antes que eu continue, é bom lembrar que a expressão “brilhante ideia” refere-se sempre a uma ideia de jerico elevada ao cubo – de assistir a Shoah, o documentário de Claude Lanzmann sobre o Holocausto, sozinha. (Por favor, seja esperto e perceba desde já que, se este parecia ser um post engraçadinho, definitivamente não é.)

Não sei por que tive essa ideia justo ontem, mas acho sinceramente que esse documentário tem a ver com a minha tese. Quer dizer, obviamente não tem nada a ver com a minha tese, que é sobre os conceitos psicanalíticos de realidade e sublimação. Acontece que ainda estou naquela fase em que vejo um cachorro na rua e penso “hmm, esse cachorro tem tudo a ver com a minha tese”.

Uma hora de documentário foi o máximo que aguentei, para começar (ele está disponível na íntegra em quatro clipes no youtube, para quem quiser se aventurar – e eu recomendo, só não seja tonto de fazer isso sozinho). Depois de uma hora de depoimento em cima de depoimento e nenhum violininho lacrimejoso de trilha sonora, nenhum efeito especial, nenhuma imagem horripilante, nada – apenas gente falando, apenas isso -, me vi clicando em linques como “reveja a trajetória de Mara Maravilha” e “descubra como ter uma carreira de sucesso”.

Consegui assistir a mais uns quarenta minutos de documentário, e fui dormir.

***

Eu ia acompanhar a exumação da minha mãe, que aconteceria na antiga casa da minha avó. O corpo seria examinado por médicos para investigar que transformações ocorrem em um corpo humano depois de tanto tempo enterrado.

Eu era mais jovem, mas tinha o mesmo celular que tenho hoje. Sei que era esse celular moderno de agora porque minha primeira reação, assim que entendi o que estava acontecendo, foi escrever uma mensagem para B. em dois segundos: “vem pra casa da minha avó correndo, por favor”.

Mas ela não respondeu.

Então minha mãe apareceu sobre uma maca que ficava entre a pia e a mesa da cozinha (a cozinha da minha avó era muito grande), e minha mãe era um corpo pequenininho de carvão.

(De criança, eu ouvia umas histórias de que é isso que acontece quando uma pessoa é atingida por um raio. Ela encolhe e vira uma pedrinha de carvão.)

((Li um livro lindo esses dias sobre uma pessoa que é atingida por um raio, e no livro não é isso que acontece com ela.)

(((Você que acompanhou o sonho até aqui e é uma pessoa sensível, fique à vontade para ir embora agora, eu juro que não me ofendo. Aos que preferiram ficar, peço desculpas por insistir neste assunto. Mas, se vocês ficaram, vocês precisam entender. Este era um assunto que não existia para mim. Era um assunto do qual eu não falava – e não porque não quisesse falar, mas apenas porque não se pode falar sobre aquilo em que não se pensa – até começar a fazer análise, com mais de vinte anos. Então, mais ou menos naquela época, comecei a pensar. Tempos depois, comecei a falar.)))

((((Um homem conta que abriu a vala onde milhares de pessoas haviam sido enterradas quatro meses antes. E ali ele reconheceu sua esposa e filhas. Os corpos e as roupas estavam intactos, conservados pelo inverno. O homem ajoelhou-se e pediu para que o matassem. Foi-lhe dito que ele continuaria vivo por enquanto, pois ainda tinha forças para trabalhar.))))

(((((Se você checar o filme, verá que não é bem isso. Misturei as histórias de dois homens em uma só. O homem que viu mulher e filhas, viu-as sendo descarregadas mortas de um caminhão, e depositou-as na vala coletiva – isso quando os mortos ainda eram enterrados. Este homem pediu para morrer. Outro homem estava desenterrando corpos quando encontrou sua família – mãe, tias, sobrinhos. Todos conservados pelo frio do inverno.)))))

Era um corpo pequenino e deformado, mas com tronco e membros discerníveis. Uma boneca grande. Com buracos vermelhos no lugar da boca e dos olhos.

E um pé se mexia. De leve.

O médico disse que ela tinha pulsação 6 ou 7, enquanto uma pessoa viva tem pulsação de trilhões.

Mas ela está se mexendo, então ela está viva, então ela foi enterrada viva.

Claro que não, bobinha, o que são 6 ou 7 perto de trilhões?

***

Este post não tem fim. Algumas histórias não conseguem ter.