Meu namorado é a minha exata imagem de uns três anos atrás: magro e totalmente desinteressado pela cozinha. Um dia fui assim, mas eis que agora a culinária não me parece mais uma atividade restrita a talentos do naipe de um Harry Potter; além disso, hoje sou uma mulher, digamos, voluptuosa. A voluptuosidade até que não me cai mal, mas acumulei algumas dobrinhas de Michelin que decididamente não contribuem em nada para a subida de escadarias e determinadas práticas sexuais. Mas digressiono.
Como eu ia dizendo, meu namorado é um magro gostoso e os termos “refogar” e “fouet” querem dizer tanto para ele quanto “dialética sem síntese” e “intersubjetividade traumática” - todos eles, reparem bem, conceitos com os quais trabalho cotidianamente. Mas digressiono de novo. Quando digo magro, não é só que ele tem o mesmo peso que eu mesmo sendo muitos centímetros mais alto. É que ele é uma pessoa normal para quem comer é apenas mais uma atividade vital, assim como respirar ou dormir. Para mim, não. Comer está apenas um pouco abaixo de música e sexo: se eu fosse uma pessoa mística e panteísta, daquelas que acha que Deus pode estar em todas as partes, eu saberia exatamente em quais partes Deus está. Deus é o gumbo do Commander’s Palace, a melodia de A Kiss To Build A Dream On e o corpo do meu amor.
Chega de digressionar.
O fato é que já cozinhei para ele algumas vezes, até agora com sucesso bastante limitado - em parte porque ele não liga muito, em parte muito maior porque ainda falta um longo caminho até eu me tornar uma Harry Potter da cozinha. Um prato que funcionou foi o peixe ao molho de ervas da nossa ceia de Ano Novo - o peixe era fresco, as ervas eram frescas, não tinha o que dar errado e de fato não deu. Ficou bom demais e eu tive aquele arrepio totalmente década de 50 ao vê-lo regozijando-se com a comida que fiz para ele.
Mas muito mais sucesso eu fiz num dia em que ele levantou-se muito rápido do sofá e ficou meio tonto. A gente não tinha almoçado direito e fiquei preocupada - achei que ele precisava comer alguma coisa salgada. Fui para a cozinha e em dez minutos voltei com um pratinho cheio de torradas. Sobre elas, coalhada com sal, azeite e orégano; sobre a coalhada, uma fatia de peito de peru; sobre o peito de peru, parmesão ralado.
Ele pôs a primeira na boca e quase chorou.
- Linda, o que é isso? Onde é que você aprendeu a fazer um negócio desses?
Então ele comeu outra, e mais outra, e foi assim que passei a fazer as torradinhas para ele todos os dias. Não vou dizer que não fiquei feliz com isso, mas foi mais ou menos a mesma sensação que se tem ao dar um brinquedo 3D de laser intergaláctico para uma criança e ela gostar mesmo é da caixa de papelão. Você fica até feliz por ter agradado, mas não consegue conter o suspiro: se eu soubesse que era só isso!…
No entanto, ainda não desisti dos brinquedos de laser. Estou querendo fazer um prato de verdade para ele, mas não tenho ideia do quê. Hoje, por exemplo, fiz um macarrão de improviso que ficou delicioso, na melhor tradição torradinha - isto é, transpondo tudo o que havia na geladeira diretamente para a panela. No caso, presunto (não o frio, a carne mesmo, tipo um tender), cebola, cogumelos e sour cream. E parmesão ralado, claro.
Então me dei conta de que esse macarrão não apenas havia sido feito na melhor tradição torradinha, como ele era a própria torradinha na versão macarrão.
Me emocionei. Porque vejam, é mentira que aqueles eram os únicos ingredientes disponíveis na geladeira. Também havia ervilha, alho, abobrinha, tomate, ovos - todos eles alimentos perfeitamente macarronáveis. E eu fui fazer justo o macarrão-torrada.
Tudo bem, a torrada legítima não tinha cogumelos. Mas o meu amor adora cogumelos.
O almoço que fiz para mim, na verdade fiz para ele. Para nós.
Não sei se esse vai ser o prato que vai agradá-lo a ponto de nos transportar, mais uma vez, diretamente para a década de 50. Só sei que vou continuar cozinhando para ele, sempre em busca do prato perfeito.
Sem nunca esquecer as torradinhas.
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