Estudei em colégio de padre e, para além dos não-ensinamentos de História do Brasil e Probabilidade e Combinação, aprendi também muitas e muitas Lições de Vida, do tipo Sexo É Feio e Evangélicos São Retardados Mentais. Foi excelente: desenvolve o espírito crítico e fortifica o caráter a necessidade de passar os anos mais aborrecidos da adolescência fazendo um esforço consciente para refutar ensinamentos em áreas tão distintas da experiência humana – que iam, como eu disse, do péssimo comportamento do Senhor Portugal à penosa situação dos evangélicos, todos vítimas de uma inescrupulosa lavagem cerebral, tadinhos deles.
Desses ensinamentos todos, vou falar de um que, até um ou dois meses atrás, estava no mesmo nível de absurdidade de todos os demais:
Os Amigos De Verdade A Gente Conhece Nos Momentos Difíceis
Talvez eu tivesse acatado e compreendido este ensinamento antes se minha adolescência não tivesse transcorrido durante os Anos de Ouro do Pagode (e, aliás, um ano que começa com dois posts na sequência falando de pagode é um ano que precisa melhorar, e rápido). Se você acha que isso não tem efeitos mais duradouros sobre a personalidade de uma pessoa para além do fato de a pessoa ficar irremediavelmente convencida da impossibilidade de ser sensual vestindo calça jeans, pense novamente. Ocorre que o corolário não-lógico do ensinamento sobre os amigos é que, se os amigos de verdade a gente conhece nos momentos difíceis, os falsos conhecemos nos momentos fáceis.
E quais eram os momentos fáceis, na minha adolescência? Fácil: fácil, ali, era a Balada do Pagode. De fim de semana, não havia outro programa possível: minhas amigas todas iam beijar na boca ao som de Belo e Salgadinho.
De minha parte, nem eu ia ao pagode nem, como é fácil supor, beijava na boca. Então, para mim, sobravam os Momentos Difíceis.
E os Momentos Difíceis para mim eram muito fáceis. Porque difícil mesmo, para mim, era ir no Belo e no Salgadinho. Então acabava que eu não ia e meio que virei o pau pra toda obra das dificuldades e chororôs das minhas amigas, porque na alegria delas eu não tinha como estar.
Por isso eu não tinha como crer nos padres, entende? Se os Momentos Difíceis eram a minha única realidade. O que eu queria mesmo era poder ser amiga de alguém nos momentos fáceis de felicidade. Aí sim, pensava eu, haveria a possibilidade de uma amizade verdadeira, de uma verdadeira felicidade.
Não que eu não estivesse certa, na época. Felizmente, logo conheci meus Amigos de Música, e pela primeira vez em minha incipiente vidinha de gente grande descobri o que era dividir alegrias que até então pareciam incompartilháveis. Eu vivo descobrindo música até hoje, claro, mas nisso a adolescência é insuperável – a única vantagem da adolescência, por sinal -: o ritmo em que descobrimos coisas novas. Hoje eu descubro duas ou três novidades por ano. Naquela época, as descobertas se sucediam num ritmo que eu mal podia acreditar de tanta alegria – e, bobinha, achava que seria assim para o resto da vida. Lembro muito bem de uma semana particularmente boa em que descobri – veja bem, na mesma semana – Keith Jarrett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius. Depois não entendem por que eu não estudava naquela época. Vou repetir: na mesma semana, descobri Keith Jarrett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius. E graças a deus – que, na época, era um Deus espírita – eu tive com quem compartilhar essas descobertas, entre caixas e mais caixas de CDs que faziam aquele barulhinho tão típico quando você tenta pegar numa mão uma quantidade maior do que ela suporta – no meu caso, consigo até treze caixinhas de cada vez – e os CDs todos se espalham pelo chão naquele aflitivo farfalhar de acrílico.
Descobri, na frente de amplificadores e entre caixas de som, que a amizade podia ir além dos conselhos amorosos e ensinamentos escolares, e desde então sempre valorizei tremendamente amigos com os quais se pode ser feliz. Se não posso ser feliz com esta pessoa, então esta pessoa não pode ser minha amiga: ao ensinamento dos padres contrapus este, simples assim.
Então agora eis que estou me aproximando dos trinta anos e reavaliando o antigo ensinamento dos padres – o que, confesso, dá um pouco de medo. O que me consola é pensar que, se de repente eu passar a acreditar que Sexo Só Pode Depois Do Casamento, bem, pelo menos já sou casada.
Estou revendo e repensando o ensinamento sobre os amigos porque estou começando a achar que, na real, eu nunca soube ser amiga nos momentos difíceis. Não o ele-me-traiu-fiquei-de-recuperação difícil. Mas o dependência-química-violência-doméstica difícil.
Estou percebendo que sei ser amiga no jazz e no Seinfeld, nos cookies e nas viagens.
Não sei ser amiga na violência e na loucura.
Eu realmente não sei o que fazer, o que dizer. Afinal, não é verdade que somos todos adultos e maiores de idade e fazemos as nossas escolhas de forma livre e consciente?
Não, não é verdade. Não de um ponto de vista psicológico. Mas sim de um ponto de vista jurídico, e é aí que eu me perco, nessa confusão entre a Psicologia e o Direito, e não sei muito bem como me portar. Se eu me relaciono com o amigo vítima e perpetrador de sofrimento e violência como a criança de três anos que ele de fato é, ou se penso nele como o cidadão racional e inteligente capaz das realizações mais lindas. A verdade é que me é muito difícil integrar essas duas imagens, essas duas pessoas. Não entendo, sou burrinha demais para entender que são a mesma pessoa. E a consequência é que fico sem saber o que fazer.
Pelo menos não sofro mais deste mal tão comum, que acomete tantos jovens, que é acreditar que, em algum lugar, em algum reino distante, Alguém Sabe O Que Fazer. A parte um pouco chata é que, se não sofro mais deste mal, é porque não sou mais tão jovem assim. Não importa. Afinal, a única vantagem de ser jovem é poder descobrir Keith Jarett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius numa mesma semana. De resto, a gente passa os dias achando que as pessoas sabem o que fazem – até o momento em que a gente vira uma pessoa e percebe que, como todos os demais, não temos a mais mínima ideia do que fazemos.
De todos os meus não saberes, não saber ser amiga Nos Momentos Difíceis é o que mais tem me incomodado atualmente. Querendo compartilhar seu não-saber específico sobre este assunto, e-mail taí pra isso.