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Cozinhando para ele

Meu namorado é a minha exata imagem de uns três anos atrás: magro e totalmente desinteressado pela cozinha. Um dia fui assim, mas eis que agora a culinária não me parece mais uma atividade restrita a talentos do naipe de um Harry Potter; além disso, hoje sou uma mulher, digamos, voluptuosa. A voluptuosidade até que não me cai mal, mas acumulei algumas dobrinhas de Michelin que decididamente não contribuem em nada para a subida de escadarias e determinadas práticas sexuais. Mas digressiono.

Como eu ia dizendo, meu namorado é um magro gostoso e os termos “refogar” e “fouet” querem dizer tanto para ele quanto “dialética sem síntese” e “intersubjetividade traumática” - todos eles, reparem bem, conceitos com os quais trabalho cotidianamente. Mas digressiono de novo. Quando digo magro, não é só que ele tem o mesmo peso que eu mesmo sendo muitos centímetros mais alto. É que ele é uma pessoa normal para quem comer é apenas mais uma atividade vital, assim como respirar ou dormir. Para mim, não. Comer está apenas um pouco abaixo de música e sexo: se eu fosse uma pessoa mística e panteísta, daquelas que acha que Deus pode estar em todas as partes, eu saberia exatamente em quais partes Deus está. Deus é o gumbo do Commander’s Palace, a melodia de A Kiss To Build A Dream On e o corpo do meu amor.

Chega de digressionar.

O fato é que já cozinhei para ele algumas vezes, até agora com sucesso bastante limitado - em parte porque ele não liga muito, em parte muito maior porque ainda falta um longo caminho até eu me tornar uma Harry Potter da cozinha. Um prato que funcionou foi o peixe ao molho de ervas da nossa ceia de Ano Novo - o peixe era fresco, as ervas eram frescas, não tinha o que dar errado e de fato não deu. Ficou bom demais e eu tive aquele arrepio totalmente década de 50 ao vê-lo regozijando-se com a comida que fiz para ele.

Mas muito mais sucesso eu fiz num dia em que ele levantou-se muito rápido do sofá e ficou meio tonto. A gente não tinha almoçado direito e fiquei preocupada - achei que ele precisava comer alguma coisa salgada. Fui para a cozinha e em dez minutos voltei com um pratinho cheio de torradas. Sobre elas, coalhada com sal, azeite e orégano; sobre a coalhada, uma fatia de peito de peru; sobre o peito de peru, parmesão ralado.

Ele pôs a primeira na boca e quase chorou.

- Linda, o que é isso? Onde é que você aprendeu a fazer um negócio desses?

Então ele comeu outra, e mais outra, e foi assim que passei a fazer as torradinhas para ele todos os dias. Não vou dizer que não fiquei feliz com isso, mas foi mais ou menos a mesma sensação que se tem ao dar um brinquedo 3D de laser intergaláctico para uma criança e ela gostar mesmo é da caixa de papelão. Você fica até feliz por ter agradado, mas não consegue conter o suspiro: se eu soubesse que era só isso!…

No entanto, ainda não desisti dos brinquedos de laser. Estou querendo fazer um prato de verdade para ele, mas não tenho ideia do quê. Hoje, por exemplo, fiz um macarrão de improviso que ficou delicioso, na melhor tradição torradinha - isto é, transpondo tudo o que havia na geladeira diretamente para a panela. No caso, presunto (não o frio, a carne mesmo, tipo um tender), cebola, cogumelos e sour cream. E parmesão ralado, claro.

Então me dei conta de que esse macarrão não apenas havia sido feito na melhor tradição torradinha, como ele era a própria torradinha na versão macarrão.

Me emocionei. Porque vejam, é mentira que aqueles eram os únicos ingredientes disponíveis na geladeira. Também havia ervilha, alho, abobrinha, tomate, ovos - todos eles alimentos perfeitamente macarronáveis. E eu fui fazer justo o macarrão-torrada.

Tudo bem, a torrada legítima não tinha cogumelos. Mas o meu amor adora cogumelos.

O almoço que fiz para mim, na verdade fiz para ele. Para nós.

Não sei se esse vai ser o prato que vai agradá-lo a ponto de nos transportar, mais uma vez, diretamente para a década de 50. Só sei que vou continuar cozinhando para ele, sempre em busca do prato perfeito.

Sem nunca esquecer as torradinhas.

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Yuyay

“Eu estava, por um grato acaso, numa mesa cheia daquelas alunas [de Psicologia da PUC], num bar da Vila Madalena. Como havíamos lido Mal estar na civilização aquele semestre, achei que poderia ser um assunto interessante. Que nada. Foi só começar a falar e elas me olharam com profundo desdém. “Vocês não gostam de Freud?”, perguntei, sem entender. “Não”, elas disseram, em coro. “Mas então, do que vocês gostam?” “Fenô”, responderam, sempre unidas. Fenô??? What the hell is fenô?!. “Fenomenologia”, disse uma delas, ajeitando graciosamente os cabelos atrás de uma orelha. E do que trata a fenomenologia? “Tipo assim… Imagina um chinelo”. Um chinelo??? “É, um chinelo jogado num canto. Freud vai olhar pra esse chinelo e perguntar quem é a mãe do chinelo, o pai do chinelo, os avós do chinelo” – e nesse ponto todas faziam cara de fastio diante do laborioso escrutínio freudiano acerca da genealogia do chinelo – “já a fenô, não.” A garota sorriu, arrumou mais uma vez o cabelo e, como um toureiro que dá o golpe de misericórdia no touro moribundo – eu – terminou de explicar: “A fenô olha pro chinelo e tenta entender o chinelo mesmo, tá ligado? O chinelo do jeito que ele é, do jeito que ele tá. O chinelo enquanto chinelo. E só.” Olé!” (Antonio Prata, O Chinelo)

Antonio Prata já disse tudo literariamente, mas como sou blogueira e sempre acho que tenho algo a dizer, hoje vou dizer o que tenho em linguagem semi-acadêmica.

A crítica da Fenomenologia - aquela que os estudantes paulistanos de classe média aprendem nos cursos de Psicologia da USP e da PUC - à Psicanálise vai além da insistência freudiana em investigar as relações familiares dos pacientes. Condenável mesmo, para esta Fenomenologia, é a insistência de Freud em recorrer a modelos mecânicos e hidráulicos diversos para explicar o funcionamento do psiquismo, como se o sistema psíquico fosse uma máquina. A Psicanálise fala, por exemplo, em um desejo que se acumula no inconsciente e precisa ser descarregado. Repare que se esse mesmo pensamento é formulado em termos puramente hermenêuticos, sem fazer referência a quantidades, lugares e sistemas de descarga - “o desejo precisa ser realizado (ainda que inconscientemente)” -, está tudo bem para a Fenomenologia. O problema são mesmo essas maquininhas imaginárias chatas e bobas, que nos afastam do plano do sentido (a realização do desejo) e nos forçam a pensar em termos econômicos (quantidades, acúmulos, descargas), dinâmicas (deslocamentos, condensações, transferências) e tópicos (inconsciente, ego, superego).

Os próprios termos “funcionamento” e “sistema” já entregam as raízes cientificistas do pensamento freudiano: se a Biologia já recorrera à Física para explicar o corpo, agora vinha Freud com a mesma pataquada reducionista. E, com isso, perdia-se justamente o mais fundamental do chinelo: o chinelo-enquanto-chinelo, o chinelo no seu devir chinelo, o chinelo na sua mais pura existência. Mas esta Fenomenologia, que não é nada boba, sabe desculpar o Freud original em alemão, o Freud roots, o Freud moleque, pois este se expressava numa linguagem muito mais cotidiana (e, portanto, menos impregnada de maquinarias) do que seu tradutor para o inglês gostaria de admitir. Ainda assim, essas desculpas não são ilimitadas: não é possível ignorar toda a metapsicologia freudiana; não é possível ignorar o conceito de pulsão.

Ignorar, porém, é justamente o que uma certa corrente da Psicanálise - auto-intitulada winnicottiana - faz: jogam fora a parte chata do Freud, e ficam com a parte legal. A parte legal, para estes psicanalistas, é a dos sentidos; a chata, é a dos afetos, tão difíceis (talvez impossíveis?) de serem colocados em palavras. Tão difíceis, que Freud teve de recorrer às maquininhas para tentar manejá-los como conceitos.

Resumindo até aqui para ninguém dizer que não sou boazinha: para fenomenólogos e para alguns psicanalistas, tudo quanto é elucubração metapsicológica calcada em sistemas hidráulicos e mecânicos é puro engodo cientificista. Devemos mesmo é nos preocupar com as histórias, as narrativas, as produções de sentido.

Mas eis que de repente eu me deparo com o engodo cientificista no mais insuspeito dos lugares: num estudo antropológico de comunidades andinas, que não podem exatamente ser acusadas de adesão aos ideais cartesianos. Para tais comunidades, o coração é sede tanto das emoções quanto das recordações - isto é, as capacidades afetivas e intelectuais não pertencem a domínios distintos.

Agora vejamos como as emoções são compreendidas neste contexto:

Notamos que hay un ‘modelo hidráulico’ de las emociones, es decir, las emociones suben, pesan, aplastan, tapan. Pensamos en una expresión muy fuerte que hemos escuchado: ‘Yuyaynipas tapawan’, ‘mis memorias me tapan’. Bajo el peso de estas memorias, la persona no puede respirar y su corazón le duele.” (Kimberly Theidon, Entre prójimos, p. 65)

De novo, pois, as quantidades: emoções que entopem, transbordam, encontram escoamento - e, se não encontram, oprimem o coração. Emoções que só podem ser expressas através de uma metáfora. E é curioso que, na Viena do século XIX e no Peru do século XXI, as pessoas tenham recorrido à mesma metáfora: o modelo hidráulico.

Na época em que eu estudava Psicologia, a crítica que igualava metapsicologia e cientificismo me soava perfeitamente razoável. Até porque ninguém desconhece as pretensões freudianas de que a Psicanálise fosse, um dia, reconhecida como Ciência - e, para isso, a metapsicologia era uma peça fundamental.

Hoje penso que a metapsicologia vai muito além das pretensões cientificistas de Freud (ou das críticas de cientificismo feitas por fenomenólogos e certos winnicottianos). A metapsicologia, afinal, nada mais é do que… Metáfora. Para dar conta daquilo que não pode ser dito. Do que jamais se integrará perfeitamente a uma narrativa.

Você pode até achar as metáforas freudianas (ou, no caso, andinas) meio banais e desgastadas. Neste caso, por que não criar outras? Por que se revoltar contra metáforas?

Desde que não nos esqueçamos de que se trata apenas disso - metáforas -, não correremos nunca aquele terrível risco: o de desprezar o chinelo-enquanto-chinelo e pirar em quantidades que transbordam de sua sola inconsciente.

É possível pensar metapsicologicamente e interagir com os chinelos do mundo. Fenomenologicamente.

(* yuyay - recordar em quechua)

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Porque vale a pena

Com vocês, a música mais linda do mundo: a nossa música.

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Odeio Congresso

A minha profissão me oferece diversas oportunidades para eu me sentir uma fraude. Sinto-me uma fraude sempre que não consigo terminar as leituras complementares para uma aula (vamos todos fingir de pés juntos que sempre termino as leituras obrigatórias); sempre que meus aluninhos de português têm alguma dúvida gramatical que não sei solucionar; sempre que não consigo encontrar um livro na prateleira da biblioteca, por uma incompreensão atávica das leis de ordenação do alfabeto.

Mas nenhuma situação me faz sentir mais fraude do que um congresso acadêmico.

Existem três tipos de palestrantes num congresso acadêmico.

Há o palestrante perfeito. Aquele que alia à qualidade de sua produção acadêmica o brilho da performance. Esse é o tipo de pessoa que pode falar sobre a reprodução das mariposas ou o comércio de açaí no Leste Europeu, que você sempre vai achar o assunto mais interessante e relevante do mundo. Isso, infeliz e obviamente, corresponde a apenas 5% do total de palestrantes. Repare que não estou dizendo que você precisa ser um gênio na sua área para ser o que estou chamando de palestrante perfeito. Você deve simplesmente ter um bom trabalho, e saber apresentá-lo com o grau de convencimento que só um bom ator (que, paradoxalmente, sabemos que está “apenas interpretando”!) consegue passar. Eu não sei como essas pessoas fazem isso - se soubesse, faria também - eu não sei justamente porque é difícil; porque é coisa para aquelas poucas pessoas que têm mais de um talento na vida.

Há o palestrante que se esforça. Esse definitivamente não tem habilidades cênicas natas, mas tem um bom trabalho sobre um tema que me interessa e eu percebo que ele faz um esforço para comunicar-se comigo. Ele fala frases que fazem sentido e olha nos meus olhos. Se esse cara estivesse falando sobre o comércio das mariposas, eu não daria a mínima para ele - seu talento performático não é suficiente para prender minha atenção por si só. Mas, se ele fala de um tema que me interessa, eu consigo, com um mínimo de atenção e de sincera curiosidade, acompanhar e usufruir de sua apresentação. Nesta categoria se encontra mais uns 5% da população palestral.

Sobre ela eu posso falar com algum conhecimento de causa porque esse é o tipo de palestrante que eu sou (ou, no mínimo, me esforço sinceramente para ser). Não sou nenhuma Meryl Streep, ninguém olha para mim por causa de meu sorriso cativante, meus belos olhos ou minha movimentação dramática. Mas, os que prestarem atenção no que tenho a dizer, esses claramente vão perceber que estou tentando estabelecer uma conexão com eles. E em que consiste essa conexão?

Em basicamente duas coisas. Primeiro, é uma preocupação em distinguir um texto que será lido de um texto que será falado. Então, o palestrante desta categoria transforma frases como “este ensaio buscará acercar-se de” em coisas como “hoje eu vou falar com vocês sobre”. Além disso, esse palestrante, por meio do contato visual, da entonação que aplica à sua leitura e do conjunto da sua postura física, mostra que está ativamente envolvido em trazer o público para perto de si.

Por fim, há os outros palestrantes. Que baixam os olhos para o texto e leem-no exatamente como foram ou serão publicados num jornal acadêmico.

É um momento importante e difícil na vida de uma pessoa quando você pára de querer que o mundo mude em função dos seus próprios gostos e necessidades e percebe que quem tem que mudar é você mesmo. Alguns diriam que isso é amadurecimento emocional (não sou mais o Homem Renascentista, centro do universo e medida de todas as coisas); outros, que é o abandono do idealismo e a submissão a um conservadorismo desanimador (não adianta mais tentar mudar o mundo; melhor me conformar; o sonho acabou).

Qualquer que seja o caso, é este o momento que atravesso agora ao admitir que não adianta esperar que 90% dos palestrantes de um congresso acadêmico sejam diferentes do que são. Se fossem, não seria um congresso acadêmico: tratar-se-ia de um evento realmente relevante e interessante.

Então, já que isso nunca vai mudar e se eu quiser continuar na vida acadêmica ainda vou ter de participar de muitos e muitos congressos, resta assumir e encarar o meu problema.

Porque sim, para mim é um problema. É um esforço e é um sofrimento.

O problema é que sou fisiologicamente, fisicamente incapaz de prestar atenção ao palestrante-padrão-90% de um congresso acadêmico. Aquele que baixa os olhos e lê, lê, lê.

Eis uma tentativa de descrição aproximada da minha vida mental enquanto isso acontece:

A objetificação do sujeito epistemológico na contemporaneidade… Nossa, que vontade de comer bolo de fubá. Será que eu acho fubá aqui no mercado? Como é mesmo fubá em inglês? Os personagens adquirem um tom hitchcockiano, quando não freudiano… No mercado bom deve ter. Será que é caro? Mas também, como eu poderia saber? Eu não tenho ideia de quanto custa um pacote de fubá no Brasil. Porque de acordo com Lacan, Deleuze e Adorno… Quando eu fizer um bolo de fubá vou lembrar de tirar todos os ingredientes da geladeira meia hora antes, para que tudo esteja na temperatura ambiente. Puxa, preciso comprar leite, também. Para fazer o bolo e também para tomar com o bolo. Aliás, que mais que está faltando em casa… Papel-toalha!! Não posso esquecer de jeito nenhum. A trama fala da ontologia reificada que assola o indivíduo… Preciso entender direito como vai a reforma do sistema de saúde, estou tão desinformada. Quem será que vai ter paciência pra me explicar isso. Porque segundo Nietzsche, Heidegger e Habermas… Que saudade do meu amor!!! Que vontade de estar deitada em cima dele AGORA!!! Seria o livro uma interpretação radical do comunismo finlandês? … abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim … ♫ Ou seria uma desconstrução da narrativa peripatética? Tenho tanta coisa para ler esta semana. Acho que amanhã não vai dar pra fazer faxina não. Concluindo, a trajetória até aqui efetuada permitiu-nos hipotetizar… Acho que eu preciso escrever sobre isso no blog.

Repare que minha desconcentração nada tem a ver com o conteúdo do texto em si. Pode ter sido um texto brilhante. Pode ter sido um texto jacu. A verdade é que jamais saberei e isso é desesperador, porque penso em quantos textos brilhantes, sobre assuntos que me interessam, eu posso estar perdendo (se bem que também tem a contraparte - certamente estou perdendo vários textos medíocres, graças à minha medíocre capacidade de concentração). Mas se eu conseguisse prestar atenção eu pelo menos saberia, depois de cinco minutos de fala, que o texto do palestrante é medíocre e deixaria de me importar por livre escolha.

Atualmente, não tenho escolha. Eu simplesmente não consigo, e dicas de concentração que não envolvam estimulantes químicos serão muito bem-vindas.

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Lula, o Ladrão de Pianos

As primeiras eleições presidenciais que acompanhei com interesse foram também as primeiras eleições democráticas que o Brasil conheceu depois da ditadura militar. Mas eu não sabia nada de ditadura e não me parecia nada extraordinário que as pessoas pudessem votar; anos atrás, eu votara na Erundina nas eleições municipais, junto com minha mãe. Eu adorava assistir o horário eleitoral gratuito e estava convencida de que ela era a candidata mais bem preparada para governar a cidade, porque ela era a única que tinha “propostas para o povo”. Sendo assim, minha mãe consentiu que eu a acompanhasse até a cabine de votação e preenchesse a cédula por ela. Eu tinha seis anos e meus ídolos eram o Tom Jobim, a Mônica e a Erundina.

Mas vieram as eleições presidenciais e eu ouvia que se o Lula fosse eleito ele iria roubar as coisas das pessoas-que-tinham-coisas para dá-las aos pobres-que-não-tinham-coisa-nenhuma. Inclusive as minhas coisas. Todo esse montão de coisas acumuladas iria parar na mão de pessoas que na maioria dos casos eram pobres só porque queriam, pois eram vagabundos e não gostavam de trabalhar (como, aliás, o próprio Lula, que perdeu o dedo no torno mecânico só pra não precisar trabalhar nunca mais.) A isso chamava-se abolição da propriedade privada. Meu pai que me explicou.

É possível que minha trajetória política mirim tivesse sido bem diferente se, na época, eu não morresse de amores por uma coisa em particular: o meu piano. Com que então iam roubar o meu piano e dar pros pobres? Não me lembro de jamais ter expressado esse medo para ninguém - ou mesmo de tê-lo formulado com todas as letras -, mas é nítida a recordação da imagem que me assombrou naquela época: funcionários do Lula batendo na porta de casa e levando o meu piano embora. Pelo menos eu não era auto-centrada a ponto de achar que o Lula em pessoa viria roubar o meu piano; mas, definitivamente, era ele o mandante do crime. Eu tinha acabado de passar um mês afastada do piano, viajando com minha mãe pela França; justo agora que eu estava de volta, o Lula ia querer tirar ele de mim? Pra dar pra alguém que com certeza não iria amá-lo tanto quanto eu?

Mas minha mãe, apesar de tudo, ia votar no Lula. Dois motivos que ela dava eu lembro até hoje: que o Lula era o único candidato preocupado com cultura; que não dava pra votar num candidato cuja mulher se esforçava tanto pra parecer aquilo que não era (ela se referia às tentativas de elegância de Rosane Collor, envolvendo o cuidadoso pareamento de estampas florais nas bolsas e nos sapatos). Além disso, minha mãe não acreditava que o Lula iria abolir a propriedade privada. Ela achava que isso era exagero das pessoas, uma história que inventaram para nos assustar assim como inventaram Deus para nos confortar.

Já meu pai, Ulysses no primeiro turno, foi de Collor no segundo. No ano seguinte, minha mãe e ele se separaram.

E eu?

Eu decidi que o Lula até podia gostar de cultura e a mulher do Collor ser uma cafona, mas aqui que iam roubar o meu piano!

***

Fiquei feliz quando o Collor ganhou as eleições e não entendi nada quando, um ano depois da separação dos meus pais, veio o movimento pelo impeachment em 92 - que eu, sem saber nada de inglês na época, pronunciava “empêchement”, em francês. Depois meu pai me explicou que o Collor tinha roubado o nosso dinheiro.

“Mas não era o Lula que ia roubar as nossas coisas?”

Enfim.

Meu pai se arrependeu de ter votado no Collor, e disse que político é assim mesmo: tudo bandido, tudo igual.

Minha mãe não disse nada.

Lula é hoje presidente e os pianos brasileiros não parecem correr perigo.

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Lições religiosas da minha mãe

“Filha, entenda bem uma coisa. Vão tentar te convencer por mil maneiras de que Deus existe, vão inventar explicações mirabolantes. Mas aí você olha pra rua e lembra que tem criança passando fome, criança usando droga. Então acabou. Se Deus existisse mesmo, como é que iria permitir uma coisa dessas? Sabe, filha, Deus é uma coisa que as pessoas inventam pra esquecer que tem criança passando fome na rua.”

Vivi imune às explicações mirabolantes, até ela morrer. Então virei espírita e tive um sonho em que ela aparecia de vestido branco (tão chato isso das pessoas mortas terem sempre que usar branco) num deck em que se via o mar brilhando por debaixo das tábuas de madeira do chão (as tábuas eram separadinhas e a lua brilhava no mar) e um garçom vinha de vez em quando nos servir bebidas gostosas (leia-se toddynho e coquetel de frutas não-alcoólico), e ela sorria e me falava de como estava a vida dela e de como muitas coisas legais ainda iriam acontecer comigo, e a música que não tocava mas estava presente, e até hoje quando toca o que eu ouço é esse sonho, era Fotografia do Elis & Tom.

Algumas leituras e muita análise depois, deixei as mirabolações de lado e me empenhei em recordar e elaborar. Voltei exatamente ao ponto em que ela havia me deixado: se crianças na rua sim, então Deus não.

***

“Mamãe, por que você e o papai se casaram na igreja se vocês dois são ateus?” “Porque a vovó é muito religiosa, filha, e ela iria ficar muito magoada se a gente não fizesse assim. Então fomos lá e ouvimos bem quietinhos tudo o que o padre tinha pra dizer, mas não demos a menor bola, a vovó ficou feliz e tudo acabou bem.”

Agora quem vai se casar sou eu, e felizmente não precisarei enfrentar o dilema com que meus pais tiveram de se haver: ir contra os próprios princípios para evitar conflitos com uma pessoa querida, ou comprar uma briga e manter a coerência com as próprias ideias? Meus pais fizeram sua opção, mostrando-me que privilegiavam relações humanas concretas a ideias abstratas. O primado da concretude, aqui, está em perfeita consonância com o raciocínio de minha mãe sobre a existência de Deus: o que importa, nos dois casos, não é a existência de um cara que não posso ver ou a fidelidade a ideias que não posso agarrar. Mais vale a barriga cheia das crianças e o sorriso no rosto da vovó.

Entendo, pois, a opção deles. Mas, hoje, penso que realmente seria a maior prova de amor do mundo se eu me dispusesse a pagar o mico do vestido branco e da bênção do padre, melando assim um dia que deveria ser tão legal para meu futuro marido e eu. Não me vejo fazendo isso de jeito nenhum, por mais religiosa que fosse a minha sogra; acho que eu faria prevalecer a minha/nossa vontade, o meu/nosso egoísmo e as minhas/nossas ideias do que quero/queremos para a nossa vida juntos (o futuro marido também tem horror a padre, hóstia, aliança, essas coisas). Porque outra lição que aprendi com minha mãe - não pelo que ela fez, mas pelo que sofreu - é que o evitamento permanente de conflitos é a pior política possível a longo prazo. Ainda assim, tenho um mínimo de sabedoria para entender que não existem imperativos categóricos aqui. É fácil falar que eu faria e aconteceria (ou melhor, que não aconteceria véu e grinalda porra nenhuma) quando os pais do meu namorado tampouco obedecem ao Papa. Quero ver se eu ia ter peito de já começar mal a relação com eles só porque vestido branco é muito mico. Pior é que talvez tivesse. Vestido branco - os mortos que o digam - é mico demais.
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Ele está aqui

No dia em que meu amor chegou, um texto no Amálgama sobre como sobrevivi aos vinte e três dias mais penosamente longos que os relógios jamais fabricaram.

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O desamparo e o abandono

Eu não sei nada de história, nada das guerras e das políticas do mundo. Sou apenas mais uma meio intelectual meio de esquerda meio fajuta que nunca estudou nada direito, que em algum momento leu um pouco de psicanálise e em todos os momentos ouviu muita música, e essa daí sou eu.

Infelizmente, este não foi um parágrafo introdutório de falsa modéstia que agora irei refutar safadamente com considerações brilhantes sobre a geopolítica mundial. Não porque eu não seja falsa, mas só porque a modéstia não me atrai. Querem ver como eu sou foda? Sou a digitadora mais rápida que eu conheço e tenho uma capacidade aparentemente infinita de memorizar solos do Pat e falas do Seinfeld. Eu amo os meus talentos.

Portanto, quando digo que não sei nada de história, nada das guerras e das políticas do mundo, é pra acreditar. Se eu soubesse, diria com o maior orgulho. Como não sei, hoje descobri uma coisa que certamente é perfeitamente sabida pelas pessoas bem-informadas e politizadas no mundo. Eu não sabia, e talvez agora eu tenha que me tornar uma dessas pessoas.

***

Sabe. Quando a gente estuda, ou ouve falar, ou vê um filme, qualquer coisa - sobre uma guerra. Ou, quando se quer suavizar, “conflito”. Eu sou capaz de pensar em duas configurações. A primeira, básica, é A contra B, claro. E a outra, que talvez não deva ser chamada de guerra e sim de dominação, massacre ou horror generalizado, é quando A ou B resolve foder com a população, ou parte dela. Se eu for pensar em todas as guerras e massacres de que eu, leiguissimamente, já tive notícia, vai ser meio que uma coisa ou outra. Estou ignorando a complexidade das coisas? Sim. Estou sim-pli-fi-can-do. Justamente para entender melhor esta outra, para mim inédita, configuração:

Imaginem que A está contra B. E, juntos, A e B fodem com a população, numa mescla das duas situações acima. E quando eu digo que fodem, não quero dizer que A e B ficam lá brigando e pro povo, sei lá, falta água, comida, diversão e arte. Estou dizendo que a briga de A contra B, em termos práticos, consiste justamente no extermínio de parte (bem específica) da população.

***

No excelente The Gift of Fear, o autor propõe um exercício fascinante: “pense na maior violência, na maior crueldade que você acha que um ser humano é capaz de infligir a outro”.

Pensaram aí?

Diz o autor que, se você imaginou X, pode estar certo de que em algum lugar, de alguma forma, alguém já fez, está fazendo ou fará X a outra pessoa.

Mas e quando você se dá conta de que existe um tipo de violência que nem seus impulsos mais sádicos foram capazes de conceber?

***

Região serrana do Peru, anos 80. Tínhamos de um lado - quem mais? - o Exército, defendendo a nação da ameaça comunista. Para isso, a estratégia adotada foi matar milhares de camponeses - índios, pobres e analfabetos. Do outro, o Sendero Luminoso, tentando instalar no país a ditadura do proletariado. Para isso, a estratégia adotada foi matar milhares de camponeses - índios, pobres e analfabetos.

???

Vocês me desculpem, mas eu nunca tinha visto isso. Na minha ignorância, eu não sabia que isso existia: A e B, em guerra!, em oposição!, na prática, ambos, matando C.

Não era mais fácil se unirem e matarem os camponeses todos juntos duma vez?

***

Quando se fala num povo massacrado por outro, ou 1) se fala também num terceiro povo que vem em seu socorro; 2) não chega socorro algum, o povo é massacrado mesmo e acabou. O que eu não conhecia era um povo massacrado duas vezes, por instituições diferentes, com objetivos diferentes - e, no entanto, com métodos tão parecidos.

Aí temos, portanto, meu mais recente exemplo paradigmático de abandono total e supremo: esses índios peruanos, além de sofrerem a violência duas vezes, não receberam ajuda de lado algum. Formaram suas próprias milícias e perpetraram ainda mais violência.

Não quero com isso estabelecer algum ranking idiota da violência e ver qual povo sofreu mais, se os peruanos ou os palestinos ou os guaranis. Aliás, sofrimento por sofrimento o maior de todos é o meu - por estar longe do meu amor - e fim de papo. Como se vê, sofrimento não é coisa que se mensure.

Sofrimento é coisa que se sente, e posso dizer que, desta vez, senti forte. O desamparo e o abandono.

***

Eu disse antes que alguns tipos de violência eu não era nem capaz de conceber.

Ainda bem que, antes ainda, eu disse também que já li um pouco de psicanálise.

Ora, é claro que eu era capaz de conceber - apenas não conscientemente. Se isso me tocou tão fundo, foi pela profundidade com que o desamparo e o abandono estão arraigados em mim. Hoje, enfim, presenciei um grande show do Retorno do Recalcado (vejam se não é um excelente nome para uma banda de heavy metal).

***

E agora vocês me dão licença que preciso transformar este post num texto acadêmico - e em espanhol ainda por cima -, enquanto meu amor não vem.

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Histórias de Empatia (III)

No restaurante, a cliente para a garçonete:

- Vocês só servem comida aqui?

***

Respostas possíveis:

- Claro que não. A comida é o de menos: servimos, na verdade, o ambiente, a iluminação, a decoração, a localização do restaurante e a sensação de exclusividade que ele proporciona. Ou a senhora acha mesmo que ao dar quinze reais numa porção de batatas fritas a senhora está pagando apenas a batata, o sal e o óleo?

- Imagine, senhora! Também oferecemos os serviços de cabeleireiro, encanador, despachante, advogado de família e massagista erótico. Contratando um dos nossos profissionais, você ganha 50% de desconto no profissional seguinte. Experimente!

- Sim. Há alguns anos fizemos uma tentativa de servir apenas soro por via intravenosa, mas por algum motivo não fez tanto sucesso quanto as batatas fritas.

***

Antes que a garçonete pudesse responder satisfatoriamente à legítima dúvida da freguesa, ela mesma encontrou uma resposta:

- Ah, agora eu tô vendo que não tem só comida, tem hambúrguer também.

Cinco minutos depois, é chegado o momento de fazer o pedido:

- Eu queria uma canja, mas pode ser com carne em vez de frango?

A série “Histórias de Empatia” é composta de pequenos relatos nos quais a Empatia, justamente por sua ausência, é o personagem principal. No caso, a ausência da minha empatia para com esta pessoa.

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Histórias de Empatia (II)

Aeroporto de Guarulhos, um dia da semana qualquer, oito da noite. Para os que não têm voado de ou para São Paulo, já faz anos que a Rodoviária do Tietê ganha do aeroporto em transitabilidade e organização.

A fila do check-in é longa, a vida é curta e a mulher à minha frente - uma bem-conservada quarentona de lindos olhos azuis e cabelos loiros presos num simpático rabo de cavalo - expõe sua filosofia:

- Esse país não tem mais jeito. Antes, há uns dez anos atrás, viajar era um chiquê, coisa pra poucos, minha filha! Vir pro aeroporto era sinal de status, de superioridade. Agora?? Qualquer zé-povinho vai pra onde quer, não tem mais disso não. O cara ganha mil reais por mês e viaja sabe pra onde? Pra Disney!! Ele parcela em mil vezes e taí, indo pra Disney agora, um absurdo. Por isso que esse país não tem mais jeito. Ah, e sabe do que mais? O cara que ganha mil reais por mês ainda compra sabe o quê? Um carro! E um carro zero, ainda por cima! Ele parcela em outras mil vezes e pega a marginal pra vir pro aeroporto viajar pra Disney! Por isso que São Paulo tá assim, com esse trânsito na marginal e essa fila no aeroporto. O Brasil não tem mais jeito.

***

Respostas possíveis:

- É isso mesmo, minha senhora. A ascensão do pobre à classe média é o maior problema deste país. E digo mais: ou o Brasil acaba com o pobre antes que ele melhore de vida, ou o pobre acaba com o Brasil!

- Eu estou passando por uma situação parecida, moça. Veja, sou professora de português e há dez anos (porque, só pra constar, “há dez anos atrás” é muito feio, moça) meus alunos eram uns vagabundos que não queriam saber de nada, não se interessavam pela matéria, só queriam jogar videogame e não liam nem revista de mulher pelada… Agora?? É uma loucura! Eles vão lendo tudo o que aparece pela frente - Cervantes, Machado, Lispector - com uma voracidade, um tesão - é um horror! Por isso que a bilbioteca lá da escola está inviável, sempre lotada, os livros todos emprestados - tudo culpa desses alunos que agora se empolgaram e deram pra ler, ora veja só!

- É que essas pessoas não são como você, minha senhora - aí é que está o grande problema deste país. Porque veja: se a senhora ganhasse mil reais por mês há dez anos, tenho certeza de que agora, por um senso de civilidade que lhe é inato, a senhora jamais viajaria pra Disney ou compraria um carro zero só porque o seu poder aquisitivo assim lhe permite. Claro que não! Onde já se viu botar as asinhas de fora desse jeito? A senhora, pessoa de classe, continuaria viajando pra Praia Grande e dirigindo seu Corcel tranquilamente; jamais teria a audácia de invadir lugares de ricos como o aeroporto internacional e a concessionária de automóveis. Ah, se os pobres de hoje somente soubessem o seu lugar!

- Exato. E não só o zé-povinho é culpado pelo caos nas marginais e nos aeroportos, como a Geisy é culpada pelo seu linchamento, a Palestina é culpada pelos ataques israelenses e minha avó é culpada por não ter recebido o visto para os Estados Unidos. É, é exatamente isso.

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Foi bom desabafar aqui todas as respostas irônicas e raivosas que, naquela situação, não pronunciei. E, se não as disse, foi menos pela preguiça de criar caso com uma desconhecida no aeroporto do que pela constatação de que aquela mulher era uma pessoa exatamente como eu. Uma pessoa, a princípio, boa - que não quer que os outros se fodam, que se fosse indagada abstratamente sobre a diminuição da desigualdade de renda no Brasil certamente responderia que isso é uma excelente coisa e que provavelmente contribui com alguma instituição de caridade todo final de ano.

Esta é a mesma pessoa que não consegue ver que, se o caos nas marginais e aeroportos está grande, então talvez sejam necessários mais investimentos em infra-estrutura (transporte público de qualidade e ampliação dos aeroportos) - e não menos brasileiros com um poder aquisitivo cada vez maior (para comprar carros e passagens aéreas).

A série “Histórias de Empatia” é composta de pequenos relatos nos quais a Empatia, justamente por sua ausência, é o personagem principal.

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