- Obrigada por ligar, querida. Eu estava precisando. (…) É. Ele. (…) Ligou. (…) Ah, ele veio com umas de querer saber como é que eu estava… E eu falei que mal, né, poxa, ia falar o quê. Ele disse que estava preocupado comigo, que teve uma intuição e quis ligar. (…) Nossa, não é que eu nem tinha pensado nisso? Mas você tem razão: homem com intuição, onde é que já se viu? Enfim, ele ligou, eu contei um pouco da vida, e quando ele foi contar da dele… Tudo na mesma. (…) Na mesma, oras. Ainda atrás da ex-mulher. (…) Até hoje, nada. E, sabe? O problema não é nem ele não estar a fim. Porque isso é do jogo, isso acontece, não dá pra agradar todo mundo, a gente sabe disso. O problema (…) Isso! Eu também acho. O problema é que ele mente. (…) Continua, então, eu não falei que estava tudo na mesma? Ele insiste que sente falta do carinho da ex-mulher, da companhia, do papo… Se ele pelo menos fosse honesto, eu não me acharia uma idiota. (…) Eu sei que não devia, mas não dá pra controlar o sentimento quando ele vem com essa conversa mole. Companhia – sei. Papo – ãrram. (…) Hahahahaha! Ai, amiga, não fala assim dela… Não vamos ser malvadas…. (…) Então, depois de tudo que ele me contou dela! Que ela ia em casa de suingue, dava em cima de outros caras – pra não dizer o que mais que ela dava! –, era uma insaciável… Tudo isso e ele sente falta da… Companhia?!? Tenha dó! Quem ele está tentando enganar? Ele sente falta é da putaria, isso sim! (…) É isso que eu fico me repetindo o tempo todo. Paciência. O azar é dele. Deus pôs uma mulher decente no caminho dele e ele não quis, o que é que eu vou fazer. (…) Você acha? (…) É. Pode ser. Talvez ele não me mereça mesmo. (…) Não é? Isso é o que dói. “Companhia”. “Papo”. Pra cima de mim. Como se eu não soubesse o que os homens realmente querem.
Ah, essa juventude
- Então, ficou sabendo da Marcinha?
- O quê, ela vai casar???
- Antes fosse, menina! Maior rebu lá na família dela, cê nem sabe. Ela vai sair de casa, finalmente, você sabe que ela queria, né. Mas aí… Em vez de sair de casa pra casar, como todo mundo tava esperando, ela deu de morar com mais uma menina e dois homens, acredita?
- Não! E o namorado dela, não falou nada?
- Parece que ele não gostou muito, né? Mas o namorado não é nada – pior é a mãe! Essa gente hoje em dia é muito liberal, viu, se fosse minha filha aqui que eu deixava ir morando com qualquer um.
- E a outra menina que ela vai morar, namora um dos caras?
- Diz que não, mas sei lá, né? Tanta bagunça nesse mundo hoje em dia…
- E a Marcinha, o que que ela diz?
- Ah, ela diz que vai morar com os colegas da faculdade pra economizar no aluguel, vê se pode.
- Pra mim, aí tem coisa. Por que morar com três “amigos” se você pode morar com o seu homem?
- E que tipo de mãe permite isso, meu Deus? Duas mulheres e dois homens morando juntos?
- Esse namorado dela é um corno, se você quer saber.
- Essa história de economizar, quem acredita?
- Bom: pelo menos ela tá feliz?
- Deve de tá, né? Tá entrando pra essa liberalidade, que é o que ela queria…
- Ai, não fala assim!
- Ah, quer saber? Eu falo mesmo! Esse povo de hoje em dia, eu não entendo, não entendo mesmo, como é que uma mulher vai morar com DOIS homens e outra mulher, assim dois casalzinho, sendo que ninguém é de ninguém, e todo mundo louco pra se se comer, né, porque eu imagino que é assim que as coisas funcionam com todo mundo morando junto numa casa só. E o namorado, coitado, esse fica que nem bobo, esperando, esperando, enquanto a Marcinha tá lá – tomando banho na frente de dois homens, dormindo junto com uma mulher, vou te dizer, é uma pouca-vergonha o que acontece nessas casas de universitário.
- É. Economizar o aluguel, eu é que sei, viu.
- DOIS homens e DUAS mulheres, menina, você já imaginou um negócio desses? E ninguém fala nada? Onde é que tá a mãe numa hora dessas? O pai? A religião? O problema é que falta religião na vida das pessoas.
- Falta religião mas falta homem também, né, amiga? Porque vamos combinar, homem que é homem não permitia um abuso desse não. Se o namorado dela é macho, tira a Marcinha daquele bordel!
- Isso, você falou bem. Bordel é o que aquilo ali é. E a Marcinha lá, feliz.
- Quem diria, hein. E pensar que nós três crescemos, estudamos juntas.
- Pensar.
Jingle alternativo para José (Jo-sé, que esse Zé é mais fake do que a favela) Serra
Vejam bem, não é que eu seja um primor de coerência na minha vida pessoal. Ninguém é. Eu digo que Bituca é meu cantor favorito para no instante seguinte dizer que quem mais me emociona é o Frank Sinatra. E vou além: não vejo o menor sentido num chefe de Estado interferir em assuntos de política interna de outros países, e ainda assim sou incapaz de conter um leve sorriso de satisfação ao saber que o presidente do meu país ofereceu asilo a uma estrangeira prestes a ser assassinada. Tudo bem: eu sou humana. Não devo coerência a ninguém.
E já que, individualmente, somos tão humanos e tão incoerentes, tendemos a esperar das instituições, estas complexas articulações de humanos, um tiquim mais de coerência do que somos capazes sozinhos. Ainda mais de instituições paquidérmicas. Por exemplo, da ICAR eu espero a excomunhão de quem faça aborto, e do PSDB eu espero, pelo menos no jingle da campanha presidencial, a expulsão do Lula.
Afinal, o Lula não era bobo, feio e chato? Pior: não é aliado das FARC e apedrejador de iranianas, esses temas tão caros aos 30 milhões de brasileiros que subiram às classes ABC?
Aparentemente, não mais: Lula da Silva é o governante a quem Zé Serra sucederá para que o Brasil siga (ou seja, já está!) em frente, no primeiro caso de um jingle em que o refrão grita, com todas as letras, o nome do oponente, mas não o nome do seu próprio candidato.
Pois então digo eu, com todas as letras: PSDB, vocês são O-PO-SI-ÇÃO. Vocês estão concorrendo CONTRA o atual governo, porque o Brasil vai muito mal – é só ler os editoriais da grande imprensa que a gente descobre isso num instante – e é com vocês que o país finalmente vai sair da lama e melhorar. Vocês são mudança! São renovação! A alternativa a esse governo anti-ético e corrupto que está aí! Vocês vão fazer o Brasil se recuperar do caos onde esteve metido nos últimos oito anos e vão colocá-lo novamente nos bons trilhos da era FHC!
E, por favor, tenham a decência e a coerência de compor um jingle que exprima essas ideias. Eu ajudo:
Quando o José Serra entrar
O Brasil vai decolar
José Serra é competência,
É mão forte, é experiência
José Serra é mudar pra melhorar!
Quando o José Serra entrar
O Brasil vai se afirmar
José Serra é saúde
Nele eu posso confiar
José Serra é mudar pra melhorar!
Quando o José Serra entrar
O Brasil vai se recuperar
Mais emprego, mais saúde
Segurança e educação
José Serra é mudar pra melhorar!
Nada de Lula da Silva, portanto. Quem pretende sucedê-lo é aquela outra, a terrorista.
Formspring
Enquanto este blog não vem, tenho me divertido com um caderninho de perguntas online. Na minha época, usava-se um caderno hardware pra isso, com uma pergunta por página e tantos entrevistados quanto o número de linhas de cada página. Não era anônimo, mas tinha certa pretensão infantil de impessoalidade e neutralidade – as perguntas eram as mesmas para todos. Outro dia achei um meu, e mais uma vez constatei que eu era mesmo uma criança nada popular, pois apenas duas pessoas haviam respondido meu caderninho: minha mãe e o namorado dela. Constatei também que minha mãe ou 1) estava deprimida ou 2) estava me sacaneando e que seu namorado ou 1) tinha gosto musical semelhante ao meu ou 2) estava tentando puxar o meu saco. Na pergunta “quem é seu melhor amigo” minha mãe respondeu que ninguém, e na pergunta sobre músicos preferidos, o namorado respondeu que Tom Jobim. Tirem suas próprias conclusões.
No caderninho atual, já me perguntaram sobre sexo e rock’n'roll. Falta agora alguém ter a gentileza de me perguntar se fumei mas não traguei.
Operações mentais de uma dona de casa
Virar dona de casa foi um processo que se iniciou há dois anos e está atingindo seu ápice agora. Às vezes me pergunto se já não está na hora de a curva do gráfico começar a cair de novo ou se tal ápice é só o começo. Se depender da minha avó – bem, basta dizer que aos cinco anos de idade ela era melhor dona de casa do que eu e certamente do que você também, leitor, que está lendo um texto inútil em vez de aproveitar seu tempo livre para aspirar o armário ou lustrar o assoalho. Então ela se anima muito com qualquer progresso dona-de-casístico que acontece aqui em casa, de um bolo bem feito a uma lista de mercado bem planejada.
Mas este post não é sobre minha avó ou meu futuro, e sim sobre o processo que culminou em meu presente doméstico, com ênfase numa série de operações mentais que aconteceram – esta é a melhor parte – independentemente da minha vontade. Elas podem ser resumidas a três singulares trocas de interjeições, da vida pré- para a vida pós-dona de casa:
1) Operação EBA -> PUTZ
Eba, que friozinho bom! -> Putz, essa roupa vai levar uma semana pra secar.
Eba, esse prato leva só meia hora pra preparar! -> Putz, leva uma hora pra arrumar a cozinha depois.
Eba, a faxineira vem amanhã! -> Putz, lá se vão mais sessenta mangos.
2) Operação NOSSA -> SERÁ?
Nossa, que vestido mais lindo! -> Será que é fácil de passar?
Nossa, que panela mais chique! -> Será que vai na máquina de lavar louça?
Nossa, que gatinho mais fofo! -> Será que solta muito pêlo?
Mas nem tudo é PUTZ e SERÁ na vida de uma dona de casa. Há também momentos da mais rollingstoniana satisfaction, quando você se lembra de que o trabalho (ou o crime, um dos dois) decididamente compensa:
3) Operação AI -> TRANKS
Ai, acabaram as camisetas! -> Tranks, você é uma boa dona de casa e tem várias no varal sequinhas te esperando.
Ai, tô com fome! -> Tranks, você é uma boa dona de casa e sabe preparar seu próprio almoço.
Ai, manchei o tapete! -> Tranks, você é uma boa dona de casa e sabe tirar manchas dos tecidos.
***
Em tempo: se quando cheguei minha crise foi com o papel-toalha, a encrenca agora é outra. Encontrei o papel-toalha ideal, feito de tenras folhas virgens de eucalipto asiático plantado há quinze gerações pelos índios ianomâmi em sua aldeia ancestral e colhidos duas vezes por ano apenas pelos mais valentes guerreiros da tribo. Tá, eu não sei qual é a história do tal papel-toalha, mas deve ser longa e complexa, porque vou dizer: funciona. Ele é brega, pois tem uns elefantinhos azuis desenhados (e convenhamos, qualquer elefantinho que não tenha orelhas gigantes me soa a fraude), mas é daqueles que pode até ser lavado (já fiz o teste: é o máximo). Custa 7 reais o rolo no Pão de Açúcar, mas no Makro cai para 5,55: é o Duramaxi da Scott e acho uma injustiça tremenda ninguém estar me pagando nada para eu fazer esse jabá todo.
Em compensação, alguém pode me explicar o que acontece com os limpa-vidros desta nossa bronzeada terra? Pô, comprei o da Veja – recomendação da faxineira -, usei num tampo de mesa e lembrei dos nada saudosos tempos em que eu clareava os pêlos dos braços com água oxigenada e desmaiava com o cheiro de amoníaco (isso foi antes de eu descobrir que três dias depois os já citados pêlos estavam com o triplo do comprimento e com suas raízes devidamente escurecidas) -: só serviu pra deixar um cheiro forte na casa e várias manchas na mesa. Ai que saudade do Windex, viu…
Uma pessoa serena
Se todo mundo passa por isso, quando acontece com professores e psicólogos o frio na barriga é um tiquinho mais gelado. A pessoa pega no seu braço e diz: “eu te conheço”. Você, nunca tendo visto o ser antes (ou tendo-o visto há quinze minutos, o que dá na mesma, já que você nunca se lembra do rosto de ninguém), sua e pensa: ó céus, com esse aí o que foi que eu fiz, ensinei ou atendi?
Felizmente, a moça que pegou no meu braço semana passada não era nem aluna nem paciente: ela havia estudado comigo no primário, se é que faz algum sentido dizer que crianças estudam (acho que o único momento da minha vida em que estudei, de pegar livro e pensar em termos de cite, explique e justifique, foi no cursinho).
“Assim que te vi, soube que era você, minha ex-colega de classe. Sabe, tem algumas pessoas na vida da gente que marcam.”
O frio, que mal estava começando a passar, voltou:
“Olha, posso te perguntar uma coisa? Assim, só pra saber. Eu por acaso te bati no recreio? Comi o seu lanchinho? Roubei seu namorado?”
“Não, não, pelo contrário! Você me marcou por ser assim, uma pessoa serena.”
Pausa para o disclaimer.
Não é que eu não sofra de fraqueza de ego e não goste de elogios. Mas é que a alguns estou mais habituada do que a outros: já fui elogiada em minha inteligência, bom gosto musical (o que para mim faz ainda menos sentido do que o conceito de crianças estudando loucamente no primário), pronúncia em inglês e cara de pau em espanhol. Mas serenidade?
Sobre isso, é suficiente lembrar o meu processo de admissão e saída da universidade onde estudei nos EUA.
Para entrar, os professores daqui tinham que responder uns questionários sobre mim, situando em percentis minha capacidade de trabalho, de pesquisa, de escrita… E minha capacidade emocional.
Ganhei top 5% em tudo, mas no quesito emoção… Ganhei uns top 25, top 30, por aí – o que, para os estadunidenses, foi praticamente o atestado de que eu sairia atirando em coleguinhas a esmo ao primeiro D de minha carreira acadêmica. Atribuí tal presunção da minha loucura a: 1) o fato de eu estar indo para os EUA por causa de um blog e a convite de um blogueiro; 2) o fato de um dos avaliadores ser psicanalista do meu ex-namorado. Mas uma vez nos EUA, felizmente, os top 5 prevaleceram e o D com seu respectivo massacre nunca veio: tudo parecia estar caminhando bem.
Até a hora em que decidi voltar para o Brasil.
Pessoas diversas me fizeram basicamente duas perguntas:
- Você tem certeza do que está fazendo? De que vai ser feliz com esse cara aí com quem você resolveu casar?
- Você tem consciência de que, se quiser voltar, dificilmente seria readmitida no departamento, já que doravante ficará conhecida como ALOKA que largou tudo pelo carinha que conheceu na internet?
Estas não foram perguntas novas para mim. Dois anos antes, eu ouvira:
- Você tem certeza do que está fazendo? De que vai ser feliz com esse cara aí com quem você resolveu estudar?
- Você tem consciência de que, se quiser voltar, dificilmente seria readmitida no departamento, já que doravante ficará conhecida como ALOKA que largou tudo pelo carinha que conheceu na internet?
As duas perguntas, nas duas vezes em que me foram feitas, foram respondidas muito sucinta e objetivamente, na seguinte ordem:
- Não.
- Sim.
Da primeira vez, recomecei tudo do zero basicamente por causa de um carinha da internet com quem eu queria estudar. Da segunda, recomecei tudo do zero totalmente por causa de um carinha da internet com quem eu queria casar. Nos dois casos, eu não sabia o que iria acontecer. EUA primeiro, Brasil depois, poderiam ter sido grandes fiascos.
Calhou de terem sido as duas melhores decisões que já tomei.
Em suma, se entrei para a universidade americana ranqueada entre os top 25% da maturidade emocional, é seguro dizer que devo ter saído entre os top 50% – ou seja, não só eu seria capaz de matar coleguinhas como também de fazer coisas muito piores, tipo desprezar futebol americano ou expressar simpatia ao comunismo.
E aí vem a moça que estudou comigo no primário dizer que sou uma pessoa serena.
Isso não teria a menor importância, teria sido mais um pedaço de informação a nem entrar para a memória, quanto mais dela sair; não teria virado história nem parado em blog, desviando a atenção de um, dez ou cem leitores para a vida de uma serena desequilibrada emocional; não estaria atrasando o meu almoço nem prejudicando as aulas que despreparadamente ensinarei mais tarde; isso veio parar aqui e atrapalhar os nossos dias porque teve uma coisa, uma só, que mudou tudo naquele encontro, e a coisa foi que não estudei com a moça nem na primeira, nem na segunda nem na terceira série, mas na quarta, e a quarta série, por um besta acaso, foi a série em que minha mãe morreu.
(continua…)
No Amálgama
Escrevi coisinha nova no Amálgama. O texto é o de sempre: nada que você não possa deixar de perder. Mas no meio dele há duas citações maravilhosas que você deveria pensar em não ler. Ficou curioso, vai lá.
Uma cantada, possíveis respostas
Ouvido hoje na Praça da Luz:
- Que beleza! Fashion Week é isso aqui – tu não é a Gisele Bündchen não, mas vou te contar uma coisa pra você!
Como um dos meus mandamentos de vida é “não darás papo pra maluco”, segurei firme a gargalhada e segui andando; deixei para o blog algumas respostas possíveis a esta criativa modalidade de cantada em que você é elogiada por (ou apesar de, não entendi bem) não ser determinada pessoa:
- [Dando com a mão na testa:] Puxa, amigo, obrigada – não é que você tem razão? Se não fosse por você, eu ainda não tinha me lembrado hoje de que realmente não sou a Gisele Bündchen! Agora tudo faz sentido: vai ver é por isso que eu não coube na minha calça número -2 e que meu cartão não passou quando tentei comprar 50% das ações da Petrobrás esta manhã!
- [Indignadamente:] O quê?! Você está me dizendo que só porque não sou loira nem tenho olhos azuis, e porque tenho 20 quilos a mais e 20 centímetros a menos do que ela, eu não sou a Gisele Bündchen? Que tipo de mente fechada e discriminatória seria capaz de desconsiderar tão levianamente a possibilidade de eu ser a Gisele Bündchen levando em conta tão-somente essas diferenças mínimas? Você já parou para pensar em como o preconceito pode estar destruindo a sua vida?
- [Furtivamente:] Não espalha, moço, mas eu sou a Gisele Bündchen sim. É que eu fiz uma cirurgia de reconstrução facial com o médico do Zé Dirceu e outra de expansão do estômago com o Dr Phil da Oprah pra ficar desse jeito que o senhor tá vendo. Só assim pra eu realizar o meu grande sonho de passar as férias sossegadamente no Bom Retiro!
- [Tirando a espada portátil da bolsa:] Você tem razão, eu não sou a Gisele Bündchen. Eu sou muito mais do que isso: eu sou a… Xíííííí-rrrrrraaaa!
Ad infinitum. E você, amiga leitora? O que diria ao ser confrontada com a verdade insofismável de que não, você não é a Gisele Bündchen? (A não ser que – tudo é possível – você seja mesmo ela: falaê, Gi!)
Águas de Março decifrada
Os pós-modernos que me perdoem, mas em momentos de muita desesperança e desilusão é preciso reagir e crer firmemente em alguma coisa – senão em Deus, ao menos no sentido último e intransferível de uma letra de música. Então hoje eu acredito: descobri a Verdade Verdadeira por trás de Águas de Março. Trata-se, para quem tiver ouvidos de ouvir, de uma canção sobre as belezas de uma boa ÓBA, especificamente a que está acontecendo aqui em casa:
É pau, é pedra
É o que vemos logo ao abrir a porta de entrada
É o fim do caminho
É o que acontece quando tentamos atravessar a sala e trombamos na máquina de lavar-louça
É um resto de toco
É o que encontramos ao abrir a gaveta em busca de um garfo
É um pouco sozinho
É como se sente este blog desde que passei a morar numa casa muito engraçada
É um caco de vidro
É o objeto menos exótico que se pode encontrar no chão da minha cozinha
É a vida, é o sol
É tudo o que acontece lá fora, bem fora da minha casa
É a noite, é a morte
É a quebra do aquecedor no fim do dia mais frio do ano
É o laço, é o anzol
É o tipo de coisa que provavelmente encontrarei – para não falar em perobas do campo, nós da madeira, caingás, candeias e matitas pereiras – nas muitas caixas ainda fechadas e espalhadas por toda a casa.
Tom Jobim sabia tudo. Certeza de que ele teria um ótimo serralheiro para me indicar.

