Recordar, Repetir e Elaborar Rotating Header Image

Ivan Lins & Metropole Orchestra

O engraçado é que ontem mesmo eu estava pensando nisso. Que daqui a pouco chega o final do ano (eu sei, é raciocínio de velho) e além de fazer uma listinha dos meus discos preferidos de 2009, eu tô a fim de fazer uma dos que marcaram década - os de jazz & afins, vocês sabem, dessas músicas aí que eu gosto. Eu tenho muito claro para mim quais são os discos da década. Quando é, é. Se eu paro pra pensar, hmm, será que esse disc…, então é porque não é. E os discos da década ontem eram nove, e eu pensava: mas a década ainda não acabou. E me perguntava: será que vai arredondar? Será que chega a dez?

Evidentemente eu não fazia ideia de que a resposta concreta e definitiva a esta pergunta chegaria hoje. O décimo disco da década é este. Só pra dar uma ideia, a primeira coisa que farei amanhã vai ser sair para comprá-lo. Vocês sabem qual foi a última vez que comprei um disco que acabou de ser lançado? Não? Pois é, eu também não. Hoje em dia só compro CD se for 1) diretamente da mão do artista; 2) usado e/ou em promoção; 3) alguma velharia brasileira remasterizada por menos de dérreal.

Pois amanhã é dia de ir direto para e passar pelo menos uma hora com ele no skype, só surtando.

Da série “coisas que só aprendemos com as revistas especializadas em música”

De início pensei em não postar isso aqui no blog, pois a atividade de chutar cachorro morto é mais bem realizada na companhia de amigos do que de estranhos. Aí lembrei que praticamente só os meus amigos e familiares leem este blog, então mudei de ideia.

Estava eu lendo a revista Sax & Metais, com o saxofonista do Kid Abelha na capa (é, pois é). Chego à seção de CDs recomendados. Não surpreendentemente, encontro ali o Kind of Blue, que está para as revistas especializadas em música como as reportagens de dieta estão para a revista Veja: em caso de falta de assunto, é a primeira coisa a virar notícia. Eis o comentário da revista a respeito do disco - estou parafraseando, mas pode confiar que o conteúdo é esse mesmo:

“O disco caracteriza-se por usar formas harmônicas mais livres, distanciando-se do tonalismo. Os improvisos são mais baseados nos acordes das músicas do que nas melodias.”

É. Pois é.

Se ouvir, não dirija: resenha do show no Amálgama

Saí do show de ontem tão perturbada com o que acabara de ouvir que não fui capaz de fazer mais nada nem falar com mais ninguém: liguei para uma amiga desmarcando o encontro que havíamos combinado e voltei para casa feito um zumbi entorpecido. Aí ralei o carro na garagem e escrevi esta resenha.

André Mehmari no Auditório Ibirapuera de sexta a domingo

O pianista, compositor, arranjador, multi-instrumentista, etc. etc. e mais etc. André Mehmari toca este fim de semana no Auditório Ibirapuera com Dimos Goudaroulis (cello) e Neymar Dias (baixo), com participação especial de Tiago Pinheiro (voz). Veja aqui o release do show e o site do teatro para as informações artísticas e burocráticas de praxe. Vamos? Estarei lá na sexta e no sábado, acendendo isqueiro e cantando junto.

Pelas internetes

Para quem ainda não viu, recentemente fui atriz coadjuvante de posts das celebridades blogueiras Alex e Doni. E hoje entrou no ar no Amálgama mais um daqueles textos bobo-fofinhos, desta vez sobre a sexualidade feminina vista pelas róseas lentes da indústria de brinquedos de auto-ajuda (sim, este monstro existe). Boa semana, pessoal - e que todos passem de fase no vídeo-game e conquistem muitas prendas na gincana.

A gincana

Desde que cheguei, tirando essa semana que passei no Rio, tenho encontrado algum amigo ou parente quase todos os dias. Como estou de férias, tenho praticamente todas as horas do dia disponíveis para o mundo, e como uma das minhas prioridades principais por aqui é rever as pessoas mesmo, acaba que vou me encaixando nos horários dos outros e sempre tenho alguém muito querido para reencontrar. Anteontem fui jantar na casa de uma amiga com mais uma leva de psicólogas. Ontem estive com a Bel no lançamento do livro de outra amiga psicóloga. Hoje vou jantar com meu pai. Amanhã vou levar minha avó na Benedito (mas à noite não tenho nada programado; olha a solteirice aí, gente). Domingo vou visitar parentes do interior com minha avó e tias. Segunda, ouvir música ao vivo com amigos. E assim por diante.

De início não, mas agora estou quase me sentindo em meio a uma legítima experiência antropológica, tipo a da academia ou a do salão de beleza. Antropológica no sentido de implicar um olhar estranho a um ambiente que definitivamente não é (mais) o meu. E isso não no sentido mais idiota de voltei americanizada e esta terra não me pertence. É um pouco mais sério e (acho) menos idiota o que está acontecendo.

Nos primeiros quinze minutos que revejo alguém, muitos abraços, toques e aquela conferida de cima a baixo: menina, você não mudou nada! (Mentira, eu engordei, mas nem tanto que as pessoas não consigam me reconhecer.) Aquela alegria aliviada própria de quem confirma que, em nove meses, uma criança pode até nascer, mas definitivamente não consegue nascer, crescer, dar cambalhotas, aprender a tabuada, assoviar e chupar cana. O essencial permanece ali. Estamos todos juntos no mundo. Passou tão rápido. Daqui a pouco você está no Brasil de novo. Etc.

Mas os primeiros quinze minutos passam, e vêm os quinze minutos seguintes. Eu tenho amigos educados que geralmente querem saber da minha vida primeiro. E aí, como está a vida lá? E eu ainda não desenvolvi uma historinha-padrão para dar conta desses questionamentos. Lá? A vida? Bem, hã. Deixa ver. Lá, a vida começa umas dez e meia da manhã, quando ligo o laptop, levo café, pão, iogurte e textos para a cama. Passo a manhã toda deitada, comendo, estudando, lendo blogs. Até que me canso e assisto a um episódio de The Wire. Aí desço e vou esquentar o almoço. Como, me preparo para sair. Em quinze minutos de caminhada estou em Tulane. Encontro os amiguinhos, assisto a uma aula. À noite fico com preguiça de faxinar o banheiro, deixo para o dia seguinte. Explico que sempre falta alguma coisa: ou a casa não fica limpa o suficiente, ou os textos não são lidos com o cuidado suficiente. E já acostumei que a vida é assim mesmo. Aí conto dos fins de semana com o Alex, conto da Asli. E os gatinhos?, o povo quer saber. Conto do cara com quem eu saí por lá uns dois ou três meses, já nem sei. E os americanos, são uns chatos? Isso eu sei menos ainda, porque os poucos com quem convivo sabem que Brasília é a capital do Brasil e Buenos Aires é a capital da Argentina, então não são parâmetro para nada. Quer dizer que você está bem lá, está feliz? Pois é, não é que estou?

Então, quase sempre, chega o momento de as pessoas me contarem da vida delas. Independentemente da profissão, o que elas me contam é (não surpreendentemente) bastante parecido à minha própria vida de um ano e pouco atrás. Começa aí a antropologia e a estranheza de entrar em contato com uma realidade tão distante da minha, e ao mesmo tempo tão familiar.

As pessoas vivem no mundo e fazem coisas o dia todo. Acordam às seis da manhã para estar no trabalho às oito e ali ficam até às sete da noite, para chegar em casa às nove. Ou, em outros casos, chegam no trabalho às oito, trabalham até as nove, saem para uma reunião às onze, almoçam em quinze minutos, têm uma aula do outro lado da cidade, voltam para a instituição xis e depois seguem para seu empreendimento particular ípsilon. As pessoas têm uma agenda-gincana: um dia na vida delas é como um vídeo-game ou competição lúdico-esportiva em que você tem de ir progredindo pelas fases. Passa a fase do trânsito, passa a fase do paciente surtado, passa a fase do almoço no quilão. Isso quando elas não têm filho e marido para dar conta.

As pessoas estão cansadas, muito cansadas. As pessoas estão ganhando dinheiro e comprando imóveis. As pessoas têm fantasias recorrentes de largar tudo e vender coco na praia.

As pessoas me perguntam se não tenho saudade da minha vida de antes.

Aí bate um medinho, porque sinceramente acho que desaprendi. Que não nasci para isso. Que nasci para ler textos na cama. Não para passar de fase no vídeo-game e ganhar pontos na gincana.

Eu também tenho minhas fantasias de coco - elas atendem pelo nome de Nova York. Mais especificamente, Jazz Standard, Jazz Gallery, Village Vanguard, Iridium, 55 e Birdland. Mas meu coco principal, atualmente, é outro. É o desejo de continuar para sempre alheia à gincana. Rodeada de pães e livros na cama.

Que Baco me ajude.

Do esquecimento

Eu me lembro bem. Foi em 2007 e até bloguei a respeito, quando eu era ainda mais bobinha do que hoje para escrever sobre música. Na verdade, acho que bobinha eu sempre vou ser quando se trata das coisas que realmente me mobilizam – coisas nas quais o Seinfeld way of life não entra, coisas que se caracterizam pelo derramamento e que não têm nenhuma pretensão de inteligência para convencer os outros da minha esperteza faceira. Mas 2007: Joshua Redman Trio em Ouro Preto. Tão bom quanto a música foi a sensação depois: de saber que a música existia, podia existir. É impressionante como a gente perde essa sensação se não vivencia a mesma experiência de prazer repetidas vezes. “A gente”, do que estou falando – não vou fingir que estou generalizando, este texto não é sobre gente nenhuma, é sobre eu mesmo. No caso, a minha facilidade de esquecer o que é realmente assombroso e prazeroso e vale a pena. Mais. Esquecer por que afinal você faz certas coisas. Por que estas mesmas coisas têm importância. Que nem eu tinha esquecido que aquela música existia, acostumada que estava com bateristas toscos sem dinâmica, baixistas desafinados e saxofonistas caras-de-pau. O esquecer é bom só porque quando você lembra, você até bambeia com o peso da revelação. (De novo a mania da despersonalização – “você” o cacete, “eu”, caralho). De fato cheguei na pousadinha de Ouro Preto perturbada aquela noite. Esta música existe, é possível e eu soube de tudo isso em algum dia longínquo, mas sabe-se lá por quais processos defensivos esqueci tudo e me acostumei com um mundo sem dinâmica, afinação e personalidade. É como os mendigos que ou a gente finge que não vê ou não vive (finge que os mendigos não vivem, finge não vê-los para que a gente viva). Depois de um tempo eu sinceramente começo a achar normal, os mendigos e músicos precários. Principalmente os bateristas. E aí, bem, quando você encontra um baterista não-precário. E você aproveita o que dá e o que não dá (ok, desisto, não consigo: escrever essas coisas em primeira pessoa, convenhamos, aí já é demais). Você realmente é relembrado de tudo o que mais importa. Você lembra que o motivo mesmo pelo qual ouve música são os Paul Motians, Jack DeJohnettes e Brian Blades da vida. Você se lembra não só de tudo o que lhe é mais caro como também de tudo que você ainda quer e tem para viver e aproveitar e gozar.

Mas a gig dura uma hora, duas no máximo. E aí você se promete que não vai esquecer mais. Que agora você sabe o que é importante e não vai se contentar com pouco. Que com uma música desse nível você se torna uma ouvinte muito melhor do que você lembrava que era capaz de ser. E a gig finalmente acaba. E eu esqueço.

Eu queria muito não esquecer, desta vez. Mas não sou patsa a ponto de não saber por que o esquecimento se mantém: basicamente, porque não sou idiota. Porque é muito mais fácil uma vida em que o baterista da Orquestra do Zezinho é o seu modelo de musicalidade.

Mas eu acho que eu precisava. Ser mais idiota e não me contentar mais com o baterista Zezinho. E não é nem porque a vida é muito curta. É porque a vida pode ser muito muito boa. É só lembrar.

E por falar em shopping

Tá certo que esses títulos são difíceis de conferir, mas neste caso nem cogito estar enganada. A partir de hoje convivo com a certeza de que conheço o pior shopping do Brasil. Fica na frente da casa do Alex e eu só conseguia pensar que se de repente eu ganhasse um daqueles prêmios “mil reais para você gastar no nosso shopping, onde e como quiser!”, não teria por onde - eu não conseguiria gastar nem dez. Foi um momento capitalismo-fail dos mais puros, a experiência de passar por fileiras de vitrines e não avistar nada que eu nem remotamente acharia interessante ter, ou acharia interessante algum conhecido ter. Não estou nem falando de um impulso de compra claro e objetivo. Estou falando daquilo a que não damos atenção. Em qualquer shopping, você passa pelas vitrines e vai pensando um pensamento que mal atinge a consciência, “que legal esse tabuleiro de xadrez de pedra-sabão”, “esse sapatinho de verniz ficaria uma graça na minha futura sobrinha”, “essa blusa é linda mas não preciso de mais uma regata preta na minha vida” e assim por diante. É isso que o capitalismo faz conosco, inexoravelmente e sem perdão: produz essas ideias subreptícias que nos acompanham o tempo todo, e quando dezenas de vitrines não conseguem produzir nenhum desejo de coisa na sua alma, é porque a revolução socialista deve estar chegando. Então você descobre que a iminência da revolução socialista é uma experiência do mais profundo silêncio, porque num shopping normal você passeia com esse ruído de fundo das mercadorias desejáveis e convidativas, e só se dá conta do estardalhaço do canto mavioso delas e das notas mentais que você tece a seu respeito quando vai a um shopping onde finalmente nenhuma mercadoria sorri para você. Que é quando o princípio do absurdo entra em ação e você começa a se perguntar se, afinal, não está no melhor shopping que jamais existiu.

Mas aí você vê uma sex shop e pensa, que legal, um shopping com sex shop só podia ser no Rio de Janeiro mesmo. Já sentindo o comichão capitalista reacender-se, você entra na loja certa de que alguma coisa lhe há de sussurrar “compre!”, doce palavra ausente há tempo demais do seu cérebro. Afinal, como é que você não vai ter desejo de coisa numa pequena e artesanal sex shop de subúrbio? Ali, naquele cantinho proibido para menores de idade, resistia o último bastião do capitalismo do pior shopping do Brasil.

Véspera de dia dos namorados e a loja está repleta de giggly girls, expressão que não pode ser traduzida porque só a língua inglesa é capaz de transmitir o glugluglu inerente aos risinhos mal-disfarçados de certo tipo de pessoa que se sente na obrigação de justificar para alguém - a dona da loja, os outros clientes, deus - que diabo está fazendo num sex shop. Elas estavam comprando um presente de dia dos namorados para a amiga encalhada - porque elas, claro, lógico que elas obviamente não eram encalhadas, só a amiga infeliz. Elas estavam olhando calcinhas, e me juntei a elas, e nunca vi tanta ligerie feia concentrada num só rack - as cores, os cortes, os modelos, as tentativas de safadeza, as (muito mais graves) tentativas de elegância, os tecidos, o acabamento, tudo. Aí tinha também os vídeos - das ronaldinhas, patricinhas, molhadinhas, espevitadinhas, you name it - e meia dúzia de vibradores. Foi onde deu mais dó. Não é nem que as caixas dos vibradores estavam empoeiradas, embora também estivessem. Mas sabe quando o plástico-papelão da embalagem fica mole de tão velho? E o preço escrito com caneta bic na etiqueta de supermercado de bairro (aquela da bordinha vermelha) está borrada de tão gasta?*

Quando nem o sexo salva a vontade de consumir, não há concorrente possível ao posto de pior shopping do Brasil*.

* O Brasil é um lugar onde todo programa de TV depois das dez da noite (e frequentemente antes também) tem uma mulher pelada entre suas principais atrações, e é também um lugar onde, quando a funcionária da companhia aérea pede para você informar uma peça de roupa distintiva da mala que eles acabaram de perder e você responde “um sutiã pink”, dá uma de giggly girl e não escreve nada no formulário. Aí você repete, ouviu o que eu tô falando?, acabei de dizer “sutiã pink”, por que você não escreve??, e a funcionária segue solenemente te ignorando e enfim você se dá conta de que ó não, sutiã pink não pode!, onde já se viu tamanhã indecência e exposição gratuita de privacidade e sexualidade?, e a funcionária continua calada até que você suspira e diga - e ela anote - “vestido vermelho”, peça de roupa tão distintiva de um guarda-roupa feminino quanto um cachorro é excelente e raro representante da fauna brasileira.

Excesso de sucesso

Era uma vez a melhor pastelaria que São Paulo já conheceu. Imaginem uma espécie de Pastel Nazi, com a diferença de que ninguém era nazi e todos eram felizes. Ok, esqueçam o Soup Nazi. Tão felizes todos eram que o pastel ia ficando cada vez melhor, e a pastelaria conquistando cada vez mais fregueses. Mas tinha um catch. A pastelaria ficava num conhecido shopping da cidade e, como todos sabem, até shopping com estacionamento de graça cobra um aluguel que o empreendimento precisa ter muito sucesso para conseguir pagar. Muito, mas nem tanto. No caso da pastelaria, além de pagar pelo espaço ocupado pela loja, havia uma multa caso o estabelecimento invadisse, por qualquer motivo que fosse,  o corredor, área pretensamente pública do shopping. Ou seja. Quanto melhor o pastel, maior o sucesso. Quanto maior o sucesso, maior a freguesia. Quanto maior a freguesia, maior a fila. Quanto maior a fila, mais ela avançava sobre o corredor do shopping, maior a multa no final do mês e menores as condições de a pastelaria arcar com o prejuízo. Não havia pastel que bastasse. A pastelaria foi à falência, tornando-se a primeira empresa da história a falir por excesso de sucesso. Fim.

Alex e Camila no Rio

Domingo vou para o Rio passar uma semana com o Alex. Já não era sem tempo - há um número limitado de fins-de-semana que posso passar sem estranhar a ausência de  macarrões e Seinfelds. Mas, contrariando todas as expectativas, a vida com o Alex não é apenas pão e circo. Há certas frases características dele - ou antes, da nossa relação - que ouço internamente em vários momentos, e não vejo a hora de ouvi-las ao vivo de novo. É possível que ele nem tenha consciência delas, de tão entranhadas que já estão em nossas vidas. Então este post é para ele, só para ele ver o quanto eu reparo nas coisas, e sinto falta. Às frases, pois:

***

“Graças a deus”

No contexto de que estamos tratando, tal frase indica, básica e tacitamente, “para tudo e bora fazer outra coisa”, como se pode verificar numa conversa recente pelo MSN:

Alex: camilaaaaaaaaaaaaa
Camila: Aleeeeeeeeeeeeeex
A: td beeeeeeeeeeem?
C: Tudooooooooooo, saudadeeeeeeeeee!
A: eu tbeeeeeeeeeeeeeeeeem
C: Vamos parar de falar assiiiiiiiiiiiiiim?
A: gracas a deus*

Mas há também scripts pré-determinados em que a ocorrência desta frase é garantida:

Camila: Ok, já estamos trabalhando há duas horas, vamos parar um pouco e ver um Seinfeld?
Alex: Graças a deus.

Tenho certeza absoluta de que ele irá se orgulhar do fato que tornarei público: sempre que dei essa sugestão, em todos os casos, sem nenhuma exceção, o Alex agradeceu a deus imediatamente. Nunca ele disse, “daqui a quinze minutinhos, deixa só eu terminar esse parágrafo, mais tarde que agora eu tô empolgado”. Todas as vezes ele parou tudo na mesma hora e abriu a pasta dos Seinfelds num bonito ímpeto procrastinatório.

Em compensação, neste outro script quem se apropriou totalmente dos agradecimentos metafísicos fui eu:

Alex: Vamos comer alguma coisa?
Camila: Graças a Deus.

***

A próxima frase ocorre em dois contextos distintos, e cada vez mais no segundo. O primeiro é quando conto alguma história envolvendo algum amigo ou familiar que está passando por dificuldades; o segundo, quando ele conta alguma dificuldade de sua própria lavra. A conclusão do assunto é sempre a mesma:

“O seu problema, Camila, é que você só se relaciona com maluco.”

Tanto é assim que, ultimamente, ele nem se dá mais ao trabalho de repetir a frase toda. Limita-se a apontar o dedo para mim e dizer:

“O seu problema…”

***

O Alex é a pessoa mais dramática que eu conheço. Ele gosta de projetar seus dramas em mim, dizendo o mesmo a meu respeito; isso é bom para ele, faz com que ele se sinta mais equilibrado. Então ele vem, dia sim dia não, me contar algum nova desventura amorosa e concluir pesaroso “eu não sei o que vai ser da minha vida”. São dois os comentários que costumo tecer nessas ocasiões:

“Alex, calma, hoje você está aí todo chateado e preocupado, mas não tem problema - pensa que na semana que vem você já vai ter esquecido tudo!”

“Você está dizendo que não sabe mais o que vai ser da sua vida agora, mas a verdade é que você nunca soube!”

Como ele sabe que tanto uma quanto a outra são afirmações irretocavelmente precisas, novamente ele me aponta o dedo e diz:

“Você é uma pessoa cínica, egoísta e insensível, que de tanto assistir Seinfeld perdeu toda a empatia e compaixão pelos seres humanos” (isso quando não acrescenta “e eu que pensei que você era psicóloga” etc.).

De uns tempos para cá, diante das afirmações acima e suas variantes, Alex diz apenas:

“Você é uma pessoa…”

***

Então é isso: estou indo para o Rio mas, por mim, eu poderia estar indo para Bom Jesus da Cachoeirinha que estaria de bom tamanho. Porque a verdade é que não estou nem ligando para o abençoar do Cristo ou o sambar da mulata. Estou indo para o Rio apenas para ouvir, dezenas de vezes por dia, que o meu problema é que eu sou uma pessoa. Graças a deus.

* Quem conversa com o Alex pelo MSN (ou seja, metade dos leitores deste post) sabe que ele desconhece acentos e cedilhas por lá. A outra metade dos leitores deve saber que, para ele, deus é só na minúscula.

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