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A classe média entre o miojo e a padaria

Já contei aqui do meu desejo de ter uma padaria perto de casa que servisse um almoço bom e – eu não disse nem barato – nem-tão-caro assim. Meu desejo foi atendido, mas apenas em parte – porque os desejos são como as promoções de TV com letrinhas minúsculas que ninguém lê: eles podem até ser atendidos, mas há sempre uma cláusula imprevista com a qual você não estava contando. Apareceu uma padaria realmente ótima no bairro e, vamos ser honestos, até que nem-tão-cara assim. As letrinhas são que, pelo fato de a comida ser ótima, acabo comendo mais do que na padaria-do-horror e o resultado desta simplérrima equação é: padaria nem-tão-cara + gula = padaria caríssima. Almoço com bebida e sobremesa (outra equação: queijo branco + goiabada = amor): 25 reais.

O problema de ser da classe média meio intelectual e meio de esquerda* (traduzido para minha situação individual: 1/3 preguiçosa, 1/3 aprendeu a cozinhar depois de velha e 1/3 ainda acha que os trabalhos intelectuais são superiores aos braçais, se bem que isso é um pensamento de direita; mas é justamente por isso que sou apenas meio de esquerda) é que, por um lado, você não tem 25 reais vezes 30 para gastar com almoço no mês (afinal, você é meio intelectual, ou seja, não se submete à exploração do mundo corporativo, estando assim eternamente submetida a frilas que te condenam, invariavelmente, à classe média).

E, por outro lado, você também não é trabalhadora o suficiente para fazer como outras pessoas classe-média ou pobres que chegam em casa à noite, depois de trabalhar o dia inteiro, e ainda têm ânimo suficiente para uma impressionante atividade que elas chamam de fazejanta. O ato de fazejanta aparentemente rende, pois o fazejanta duma noite vira a marmita do dia seguinte, é o que tenho reparado.

Então nem bem você vai atrás dum emprego numa multinacional e almoça num quilo decente todos os dias, nem assume a condição semi-operária e começa a fazejanta pro almoço do dia seguinte – ficando, assim, presa num loop de mimimi que joga a responsabilidade pela sua má alimentação para longe, bem longe de você: São Paulo está impossível de cara mesmo. Saudade do Whole Foods. Repeat.

E assim segue a vida, com um dia de padaria, outro de comida caseira e outro, ainda, de miojo. Mas, talvez, a essência da classe média – aquilo que nos une a todos, os que sofremos e os que achamos lindos os bares ruins – seja justamente isto: ficar eternamente entre o miojo e a padaria**, oscilando entre a esperança eufórica de que o futuro nos trará somente bons restaurantes e o terror bem concreto de que só nos reste comida enlatada pela frente.

* Existe a classe média que sofre, que é a classe média de direita. E existe a outra, a classe média meio-intelectual e meio-de-esquerda, que faz pouco da classe média que sofre e se acha imune a qualquer tipo de mediocridade ou preconceito.

** Aí você vai me dizer: jura que o seu conceito de riqueza é ter dinheiro suficiente pra almoçar na padaria todos os dias? E eu vou te responder: sou formada em psicologia na USP (= zero RH). Com um mestrado em literatura. Sem mais.

Minha história com Michel Teló

25 de dezembro: a existência da criatura me é reportada em pleno almoço de Natal, fartamente acompanhada de contundentes previsões do fim da MPB, da música e quiçá da civilização ocidental.

25 de dezembro à tarde: meu marido toca a musiquinha no violão para eu conhecer e eu acho a coisa mais linda deste mundo como tudo que ele toca, entendo do que se trata e não me parece nem pior nem melhor do que Engenheiros do Havaí, É o Tchan e Ana Carolina, enfim, todas essas coisas que sempre fizeram e sempre haverão de fazer sucesso ano após ano.

01 de janeiro: sou a última brasileira residente no país que ainda não ouviu a música em primeira mão.

02 de janeiro: enquanto isso, amigos músicos revoltam-se classemediasofreanamente no Facebook porque o moço é capa de revista e os ídolos deles não.

01 a 08 de janeiro: passo os dias ouvindo meus discos favoritos de 2011 e pensando que a vida é boa.

08 de janeiro: ouço a música na padaria e minha impressão inicial se confirma.

08 de janeiro até hoje e eternamente: passo os dias ouvindo meus discos favoritos de 2011, acrescidos dos meus discos preferidos de todos os anos em que se produziram discos, e pensando que a vida é boa.

FIM

Do cimento aos livros

Se teve uma coisa que 2010 me ensinou é que é impossível ser feliz no cimento. Ou melhor: os anos mesmo não ensinam nada, ensinam apenas que o planeta leva aquele tempo ali pra dançar sua dancinha de girar em torno do sol; o que ensina, de fato, são as coisas e acontecimentos que vamos buscando pra vida da gente, e em 2010, apesar de que eu não estivesse buscando nada parecido, apareceu no cantinho do meu quarto, este pedaço tão específico da minha vida, um retângulo de cimento. Sou capaz de entender que em outros contextos – outras construções – o cimento seja um material incrível; tenho até imaginação suficiente para supor que, num sonho de Niemeyer, o cimento possa ser belo. Mas eu atesto, eu prometo pra vocês que um retangulinho não tão inho assim de cimento, no canto do seu quarto, ali onde deveria estar um guarda-roupa, não só não é belo como não é nada incrível. Ele se impõe com todo o peso de sua realidade, de modo que é impossível não crer nele.

São impossíveis a poesia, o romance e a vida plena quando falta cascolac e sobra cimento. Dois mil e dez foi o ano, portanto, de sair do cimento e construir um guarda-roupa. Ou ganhar o guarda-roupa de presente da sogra, que foi o que de fato aconteceu. Foi o ano, enfim, de tratar com dezenas de hómis da óba – aquela tchurma do pai de Cristo, sabe? marceneiros, carpinteiros, pedreiros, esses eiros todos tão indispensáveis à nossa existência – e fazer a nossa casa perder um pouquinho da sua imensa graça (porque, amigos, ela estava muito engraçada).

Fizemos e ficou bem feito, e foi isso. Pra mim, basicamente, foi quase que só isso. Ocorre que nunca fui boa de multitésquin, aquela abençoada habilidade de lavar o banheiro enquanto você sensualiza para o seu homem e entreter as visitas enquanto você cozinha para elas. Sabe, eu vejo essas pessoas bem-sucedidas e fico pensando, sem sacanagem, que eu poderia ser tão boa quanto qualquer uma delas. Sou perfeitamente capaz de lavar, sensualizar, entreter e cozinhar. Apenas não ao mesmo tempo. Então, no melhor espírito A Room of One’s Own – uma mulher precisa ter um quarto próprio para poder escrever alguma coisa que preste -, se em dois mil e dez me dediquei a construir um quarto – uma casa – própria, doiz mil e onze foi o ano de retomar a vida mental. Pensar num projeto de doutorado, escrevê-lo, apaixonar-me por ele. E ir retomando, aos poucos, meu ritmo de leituras.

Este site é uma bobagem, mas uma bobagem fofa. Me diverti à beça (alguém ainda faz qualquer coisa à beça?) com a experiência de colocar estrelinhas nos livrinhos e vê-los todos bonitinhos um do ladinho do outro. Pois é, tudo no diminutivo porque é coisa de criança mesmo. Mas, se não fosse por isso, provavelmente eu não teria feito um registro dos livros que li este ano, então pra mim já valeu.

Além desses livros registrados no skoob, teve mais um que eu li, super amado, que me fez rir e chorar até e – sou chique? fina? gostosa? – traz o meu nome nos agradecimentos. Se eu não tivesse feito mais nada em 2011, ter aparecido nos agradecimentos deste livro já teria feito o ano valer a pena.

De resto, o grande livro mudador-de-vida de 2011 foi este:

Tanto, que decidi fazer um doutorado inteiro para falar dele. (Não exatamente dele. E não só dele. Ainda estou naquela fase em que não consigo resumir o projeto em duas frases e um minuto. Perguntem-me de novo daqui a quatro anos.)

Para 2012, o plano é ler muito mais. E avançar nessa questão do multitésquin – mas isso é assunto para outro post.

Nos Momentos Difíceis

Estudei em colégio de padre e, para além dos não-ensinamentos de História do Brasil e Probabilidade e Combinação, aprendi também muitas e muitas Lições de Vida, do tipo Sexo É Feio e Evangélicos São Retardados Mentais. Foi excelente: desenvolve o espírito crítico e fortifica o caráter a necessidade de passar os anos mais aborrecidos da adolescência fazendo um esforço consciente para refutar ensinamentos em áreas tão distintas da experiência humana – que iam, como eu disse, do péssimo comportamento do Senhor Portugal à penosa situação dos evangélicos, todos vítimas de uma inescrupulosa lavagem cerebral, tadinhos deles.

Desses ensinamentos todos, vou falar de um que, até um ou dois meses atrás, estava no mesmo nível de absurdidade de todos os demais:

Os Amigos De Verdade A Gente Conhece Nos Momentos Difíceis

Talvez eu tivesse acatado e compreendido este ensinamento antes se minha adolescência não tivesse transcorrido durante os Anos de Ouro do Pagode (e, aliás, um ano que começa com dois posts na sequência falando de pagode é um ano que precisa melhorar, e rápido). Se você acha que isso não tem efeitos mais duradouros sobre a personalidade de uma pessoa para além do fato de a pessoa ficar irremediavelmente convencida da impossibilidade de ser sensual vestindo calça jeans, pense novamente. Ocorre que o corolário não-lógico do ensinamento sobre os amigos é que, se os amigos de verdade a gente conhece nos momentos difíceis, os falsos conhecemos nos momentos fáceis.

E quais eram os momentos fáceis, na minha adolescência? Fácil: fácil, ali, era a Balada do Pagode. De fim de semana, não havia outro programa possível: minhas amigas todas iam beijar na boca ao som de Belo e Salgadinho.

De minha parte, nem eu ia ao pagode nem, como é fácil supor, beijava na boca. Então, para mim, sobravam os Momentos Difíceis.

E os Momentos Difíceis para mim eram muito fáceis. Porque difícil mesmo, para mim, era ir no Belo e no Salgadinho. Então acabava que eu não ia e meio que virei o pau pra toda obra das dificuldades e chororôs das minhas amigas, porque na alegria delas eu não tinha como estar.

Por isso eu não tinha como crer nos padres, entende? Se os Momentos Difíceis eram a minha única realidade. O que eu queria mesmo era poder ser amiga de alguém nos momentos fáceis de felicidade. Aí sim, pensava eu, haveria a possibilidade de uma amizade verdadeira, de uma verdadeira felicidade.

Não que eu não estivesse certa, na época. Felizmente, logo conheci meus Amigos de Música, e pela primeira vez em minha incipiente vidinha de gente grande descobri o que era dividir alegrias que até então pareciam incompartilháveis. Eu vivo descobrindo música até hoje, claro, mas nisso a adolescência é insuperável – a única vantagem da adolescência, por sinal -: o ritmo em que descobrimos coisas novas. Hoje eu descubro duas ou três novidades por ano. Naquela época, as descobertas se sucediam num ritmo que eu mal podia acreditar de tanta alegria – e, bobinha, achava que seria assim para o resto da vida. Lembro muito bem de uma semana particularmente boa em que descobri – veja bem, na mesma semana – Keith Jarrett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius. Depois não entendem por que eu não estudava naquela época. Vou repetir: na mesma semana, descobri Keith Jarrett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius. E graças a deus – que, na época, era um Deus espírita – eu tive com quem compartilhar essas descobertas, entre caixas e mais caixas de CDs que faziam aquele barulhinho tão típico quando você tenta pegar numa mão uma quantidade maior do que ela suporta – no meu caso, consigo até treze caixinhas de cada vez – e os CDs todos se espalham pelo chão naquele aflitivo farfalhar de acrílico.

Descobri, na frente de amplificadores e entre caixas de som, que a amizade podia ir além dos conselhos amorosos e ensinamentos escolares, e desde então sempre valorizei tremendamente amigos com os quais se pode ser feliz. Se não posso ser feliz com esta pessoa, então esta pessoa não pode ser minha amiga: ao ensinamento dos padres contrapus este, simples assim.

Então agora eis que estou me aproximando dos trinta anos e reavaliando o antigo ensinamento dos padres – o que, confesso, dá um pouco de medo. O que me consola é pensar que, se de repente eu passar a acreditar que Sexo Só Pode Depois Do Casamento, bem, pelo menos já sou casada.

Estou revendo e repensando o ensinamento sobre os amigos porque estou começando a achar que, na real, eu nunca soube ser amiga nos momentos difíceis. Não o ele-me-traiu-fiquei-de-recuperação difícil. Mas o dependência-química-violência-doméstica difícil.

Estou percebendo que sei ser amiga no jazz e no Seinfeld, nos cookies e nas viagens.

Não sei ser amiga na violência e na loucura.

Eu realmente não sei o que fazer, o que dizer. Afinal, não é verdade que somos todos adultos e maiores de idade e fazemos as nossas escolhas de forma livre e consciente?

Não, não é verdade. Não de um ponto de vista psicológico. Mas sim de um ponto de vista jurídico, e é aí que eu me perco, nessa confusão entre a Psicologia e o Direito, e não sei muito bem como me portar. Se eu me relaciono com o amigo vítima e perpetrador de sofrimento e violência como a criança de três anos que ele de fato é, ou se penso nele como o cidadão racional e inteligente capaz das realizações mais lindas. A verdade é que me é muito difícil integrar essas duas imagens, essas duas pessoas. Não entendo, sou burrinha demais para entender que são a mesma pessoa. E a consequência é que fico sem saber o que fazer.

Pelo menos não sofro mais deste mal tão comum, que acomete tantos jovens, que é acreditar que, em algum lugar, em algum reino distante, Alguém Sabe O Que Fazer. A parte um pouco chata é que, se não sofro mais deste mal, é porque não sou mais tão jovem assim. Não importa. Afinal, a única vantagem de ser jovem é poder descobrir Keith Jarett, Egberto Gismonti e Jaco Pastorius numa mesma semana. De resto, a gente passa os dias achando que as pessoas sabem o que fazem – até o momento em que a gente vira uma pessoa e percebe que, como todos os demais, não temos a mais mínima ideia do que fazemos.

De todos os meus não saberes, não saber ser amiga Nos Momentos Difíceis é o que mais tem me incomodado atualmente. Querendo compartilhar seu não-saber específico sobre este assunto, e-mail taí pra isso.

Um Ano Novo de bundas e coca-colas, troféus e lindezas

Fim de ano é um momento de muitos aprendizados e descobertas, dentre os quais, em 2011, destacaram-se: a aparência progressivamente mais doentia de Faustão, em relação inversamente proporcional à engorda de seu futuro substituto, Faustãozinho Júnior; a existência de um Agenor na novela; Yoani Sánchez sendo notícia no Jornal Nacional (ano que vem periga eles descobrirem o fotolog e o orkut); Ana Carolina consolidando-se como a Maria Rita da vez; uma saudade desesperada da Maria Rita de que não nos julgávamos capazes.

Mas nada se compara ao fascínio que desenvolvi por uma canção ouvida no especial de fim de ano da Globo: Sissi, de Alexandre Pires. Eis um trecho da letra:

Gatinha, quanto mais o tempo passa você perde a graça e vai ficar sozinha
Você já ganhou da massa o troféu de a menina mais chatinha

Ela se acha a última coca-cola do deserto
A bunda mais linda do pagode esperto
Ela tá precisando de um malandro certo

As possibilidades poéticas que estes versos me suscitaram são infinitas:

Ela se acha a última bunda do deserto esperto
A coca-cola mais linda do pagode certo
Ela tá precisando de um troféu

Massa, quanto mais o tempo passa você vai ficar malandro
Perder a gatinha mais menina e a graça mais chatinha
Sozinha, você já ganhou

***

Coca-cola, quanto mais a bunda passa você se acha troféu e vai ficar linda
Você já ganhou do tempo o pagode do malandro mais deserto

Ela se acha a chatinha mais gatinha do tempo certo
A última da massa, você perde sozinha
Ela tá precisando de uma graça

***

Ela se perde, a chatinha mais linda da massa
O deserto mais esperto do pagode certo
Ela tá precisando de um tempo sozinha

Bunda, quanto mais a graça passa você perde o troféu e vai ficar chatinha
Você já ganhou do malandro a gatinha

 

Acho um pouco pretensioso desejar saúde e paz no ano que se inicia, pois são coisas que não podemos controlar. Que tal então se moderássemos nossos onipotentes ímpetos desejatórios e desejássemos aos outros e a nós mesmos coisas um pouquinho mais factíveis? De minha parte, desejo a todos que aproveitem muito as bundas que lhes surjam pelo deserto e as coca-colas que apareçam pelos pagodes; que nos sintamos troféus e fiquemos lindos; acima de tudo, que possamos nos perder e que nos seja concedido tempo. Beijos a todos – especialmente ao Alexandre Pires – e feliz ano novo!

Sexo Frágil

Linha Amarela do metrô. A TV do metrô anunciando – o que mais – o próprio metrô, Mais Confortável e Seguro!!! O trem dando trancos totalmente confortáveis e seguros. Gente que entra no vagão, entra, entra, entra. Porta que não fecha. Porta que fecha, moço que não entra a tempo, moço que xinga. Meu kindle na mão. Tudo na mesma em mais uma manhã no maravilhoso mundo do transporte público de São Paulo.

Ao meu lado, um homem:

- Tem que ter muita coragem pra usar um aparelho desses em público, no meio do povão!

Como quase não tenho uns cinco malucos povoando a minha vida neste momento (né, Alex?), fiquei numa vontade louca de fazer amizade com o enunciador desse comentário. Só que ao contrário.

- E tá lendo em inglês, ainda por cima!

É mesmo comovente quando alguém se considera superior – ou considera outra pessoa superior – pelo fato de conhecer uma língua estrangeira.

- Ah, vai ver é americana!

O trem sacode, o homem tenta.

- Excuse me!

Deus existe e tá de sacanagem comigo.

- Excuse me! Woman!

A woman suspira longamente e dirige-se ao man com um sorriso:

- Você está falando comigo? Está precisando de alguma coisa?

- Eu? É… Você é brasileira?

- Sim.

- Ah.

Silêncio.

- Eu achei que você fosse americana.

E mais silêncio. Porque pra dar tempo de eu contar as coisas que um dia eu achei e no dia seguinte não eram nem estavam mais, o metrô precisaria de mais uns cem quilômetros de extensão. Mas a Linha Amarela vai só da Luz ao Butantã e as obras da Linha Lilás acabam de ser embargadas pela Justiça, então pra quê?

Vencido, ele se levanta.

- Você me deixou muito fragilizado, moça.

E desceu na estação Pinheiros.

Nasce uma ateia

Fui procurar uma mensagem que enviei recentemente para a Bel Botter, para quem envio mensagens desde muito antes de abrir minha conta no Gmail.

Eis a sugestão que hoje, pela primeira vez, o Gmail teve a delicadeza de me fazer:

“Did you mean ‘Bell Potter‘?”

Google, 2001 –> DEUS

Google, 2011 –> tiozinho bêbado que confunde sua melhor amiga com a irmã imaginária do Harrry Potter

Para colar no espelho

“Ajuda é uma coisa que você oferece quando faz parte da vida da pessoa. Você não decide fazer parte pra poder oferecer.”

Fernando Serboncini, 2011.

Meu primeiro dia sem o Google Reader

TODOSMIXINGA de cmsofre com a comparação que estou para fazer, então vale adiantar que inventaram esse negócio de comparação _justamente_ pra gente poder ressaltar as diferenças entre o elefante e a formiguinha, amgs.

Passemos então ao sacrilégio:

Precisei de 11 anos para conseguir visitar o túmulo da minha mãe.

Casar foi bem mais rápido: levou 1 ano só – minha avó é quem diz, “com o que é bom a gente acostuma rápido, filhinha”.

Desde esses dois eventos, passei a dar mais valor aos ritos e cerimoniais de passagem – aos símbolos, marcos e oficializações; a todo e qualquer aparato exterior e social que mostra para os outros, fundamentalmente, que alguma coisa começou ou terminou. É mais ou menos por aí, vocês não acham? Casamento batizado RG no Poupatempo formatura aniversário velório. Tudo isso aponta para um começo e um fim. A gente se reúne pra celebrar ou lamentar essas coisas, mas sobretudo para inseri-las no tempo e na sociedade.

Visitar minha mãe no cemitério me fez muito bem. Casar também. Eu não saberia explicar ou dar exemplos. A dinâmica do meu casamento já estava estabelecida quando nos decidimos a encarar o juiz. Depois que casamos, continuei cozinhando e ele continuou lavando louça (graças a Deus). E depois que fui ao cemitério, minha mãe continuou exatamente onde estava (graças a Deus vezes mil). Nada mudou, de fato. E, como sabem todos os que passaram por rituais como esses, de fato mudou tudo.

Então, sabe, ok. Tô aqui falando dos dois momentos simbólicos que marcaram a pior e a melhor coisa que já me aconteceram. Ambas as coisas mereceram um reconhecimento mais ou menos público e simbólico. (Eu sendo quem sou, a parte pública foi bem restrita, nos dois casos. Já tenho blog e facebook, sabe? Compartilho minha vida diariamente com trocentos desconhecidos, já está de bom tamanho.)

[(Aliás, esta informação é pra você, amigo-desconhecido místico, amiga-desconhecida feiticeira: o nome da minha mãe e do meu marido começam com AG. E o nome da minha rua, onde moro com ele e morei com ela, TAMBÉM. Significa? Sei lá, deve significar alguma coisa.)]

***

Chegou a hora de falar da formiguinha.

Achei que o fim do Google Reader também merecia um evento oficial e formal, guardadas as devidas proporções.

[(Aliás 2, acho que esta frase deveria ser um comando de ordem para a nossa geração. "Pessoal, bora todo mundo guardar as devidas proporções? Grata".)]

A última notícia que li por lá foi a do Marcelo Freixo, acho. Talvez não tenha sido, não importa; é dela que estou lembrando agora. E não por acaso, num momento em que tenho lido loucamente sobre o fracasso da guerra contra as drogas.

Hoje passei uma hora catando coisas pra ler aqui e ali. Difícil. Há uns quatro anos começo ou termino o dia no Reader, especificamente pelos itens compartilhados do Paulo. Hoje, a internet foi uma terra sem lei.

Mas, uma hora mais tarde, consegui juntar umas coisinhas aproveitáveis. Queria compartilhá-las aqui, como um adeus:

- Meu blog de culinária favorito do momento. Porque tudo que leva abóbora fica bom:

http://come-se.blogspot.com/2011/10/antepasto-de-abobora.html

- Pianista naquele climão ECM: fiquei pilhada pra ouvir, claro (ai, como sou facinha):

http://www.allaboutjazz.com/php/article.php?id=40669

- “Dilma, não foi pra isso que votei em você.” Por que essa frase me ocorre umas três vezes por dia? Hoje, por exemplo, me ocorreu ao ler isto:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html

- Juliana entrevista Frank Warren e eu me lembro de quando Alex e eu fomos a um desses bizarros eventos mezzo-auto-ajuda-quase-religioso do PostSecret em Tulane. Muito amor por todos os envolvidos:

Que Hora Tão Feliz

Um café, um capuccino, uma empada de palmito:

_ Dezoito reais.

Favor reparar que:

Eu não estava no aeroporto.

Eu não estava na Cristallo.

Eu não estava nem mesmo no Shopping Cidade Jardim.

Então:

_ HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Crise de riso de nervoso, a boa educação às favas.

_ Você… você achou caro?

Eu poderia dizer:

_ Caro, eu? Que é isso, colega. Eu gasto uns cem paus no café da manhã, duzentos no almoço e trezentos no jantar. De ceia, um uisquinho cinquenta anos. Oitocentos paus de verba por dia só assim, pra não passar fome. Dezoito reáu no lanchinho da tarde tá totalmente dentro do orçamento.

Ou:

_ Caro, como? Se o café foi torrado e moído por virgens alcoólatras da Colômbia, o capuccino preparado por eremitas onanistas bascos e o palmito da empada fertilizado por gambás eunucos do Casaquistão – se a gente for considerar o valor de cada ingrediente e a mão-de-obra utilizada, até que saiu em conta.

Momentos antes, eu recebera um cheque de uma aluna, referente às aulas deste mês. Olhei para o cheque. Olhei para a conta. Olhei para o cheque. Olhei para a conta. Poderia ter passado o dia nesse exercício masoquista.

Enfim, eu disse:

_ Não é o café que tá caro não, moça. O meu salário é que anda muito barato.