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Mimimi da pantufa

N√£o √© que eu esteja ficando cada vez mais p√£o-dura. Apenas estou descobrindo, digamos, que h√° um fundo de verdade naquele clich√™ de que s√≥ um jovem sem cora√ß√£o n√£o √© socialista e s√≥ um adulto sem cabe√ßa n√£o √© capitalista (como se fosse poss√≠vel a qualquer pessoa ‚Äún√£o ser‚ÄĚ, isto √©, ‚Äúestar fora‚ÄĚ do capitalismo, mas deixa isso pra l√°, vem pra c√°, o que √© que tem). Toda vez que tenho que p√īr a m√£o no bolso para qualquer coisa, tento medir meu desejo/necessidade em reais ‚Äď coisa que, ali√°s, n√£o entendo como eu n√£o fazia antes. Eu era o qu√™, rica? Possivelmente. Que nem essa mat√©ria que est√° sendo o terror-do-Feissy este fim de semana, em que os fofos, chatiad√≠ssimos, adotam o costume de, ‚Äúantes de fazer qualquer compra expressiva (‚Ķ) avalia[r] se o gasto √© priorit√°rio‚ÄĚ . Isto posto, n√£o h√° como n√£o perguntar ‚Äď antes eles faziam como? Compravam primeiro e conferiam se ňúera priorit√°rioňú depois? ‚ÄúIh, rapaz, n√£o √© que, pensando bem, esse par de esquis n√£o era prioridade para o momento, j√° que vivemos no maldito Brasil?‚ÄĚ

No meu caso, n√£o √© bem avaliar a prioridade de cada coisa o que venho tentando fazer, e sim mensurar algo mais sutil: se o dinheiro gasto corresponde ao quanto eu desejo, almejo, cobi√ßo o objeto adquirido ou servi√ßo prestado. Um almo√ßo na padaria que custe vinte reais, por exemplo. Eu quero esse almo√ßo vinte reais? Repare que muitas vezes o que voc√™ quer n√£o √© exatamente o objeto ou servi√ßo em si, mas algo que vem embutido nele de forma n√£o necessariamente expl√≠cita. Por exemplo, o almo√ßo da padaria em si pode ser at√© bem ruinzinho ‚Äď mas prezo muito a hora ou hora e meia de tempo livre que o almo√ßo ruinzinho na padaria tem o dom de me proporcionar, hora ou hora e meia esta que eu n√£o teria se estivesse fazendo minha pr√≥pria comida em casa. Ent√£o, nesse sentido, sim, eu quero uma hora e meia vinte reais, se √© que esta sintaxe maluca est√° fazendo sentido.

Pois esta semana resolvi que queria uma pantufa, e decidi escrever a respeito em primeiro lugar porque adoro a palavra pantufa: √© daqueles casos em que a gente at√© d√ļvida da arbitrariedade da conex√£o significante-significado, pois o que pode ser mais adequado ao objeto-pantufa do que uma palavra que evoca estufa e p√£o? Sim, eu quero meus p√©s quentinhos de estufa como um p√£o saindo do forno. Ou, pelo menos, eu achava que queria.

Entrei numa loja que era praticamente o Para√≠so das Pantufas, com modelos de diversos tipos, cores e sabores. ‚ÄúGostei mais desta aqui, mo√ßa, quanto √©?‚ÄĚ

‚ÄúCento e trinta e oito reais.‚ÄĚ

Vamos recapitular.

Não era uma pantufa fofíssima estofada com penas de gansos eunucos da Croácia.

N√£o era uma pantufa cravejada de diamantes.

N√£o era nem mesmo um sapato.

Com a pantufa, eu n√£o pretendia conhecer reis e imperadores, desfilar em tapetes vermelhos, sambar no camarote da Brahma.

Com a pantufa, eu n√£o almejava ňúseduzir o meu homemňú, nem participar daquela entrevista de emprego em que voc√™ tenta desesperadamente convencer o entrevistador de que voc√™ √© a man√≠aca do taierzinho quando seu neg√≥cio mesmo √© um pijama.

Com a pantufa, eu esperava apenas sentir menos frio no pé ao andar pelo banheiro e pela cozinha.

Daí, então, a pergunta de um milhão de dólares:

Eu quero uma pantufa cento e trinta e oito reais?

Desnecess√°rio dizer que sa√≠ do para√≠so pantufal cento e trinta e oito reais menos pobre ‚Äď ou, por outro lado, cento e trinta e oito reais mais classe m√©dia do que antes. Minha escolha pautou-se em algo que a publicidade nunca dir√°:

Par de pantufas Рcento e trinta e oito reais. Desencanar da pantufa e andar de meia pela casa Рnão tem preço.

Bandeira

Naquela pessimamente constru√≠da passagem entre as esta√ß√Ķes Paulista e Consola√ß√£o do metr√ī, em meio a centenas de corintianos, ela teve o olhar fisgado por um deles ‚Äď mais especificamente, por sua bandeira, que, enrolada no corpo, por muito pouco n√£o se arrastava pelo ch√£o. Como o ch√£o era o de uma esteira rolante, ela se achou na obriga√ß√£o de avisar:

- Levanta um pouco a sua bandeira, moço, periga a esteira agarrar ela.

O mo√ßo agradeceu, reajeitou a bandeira sobre os ombros e afastou o risco de fazer a Isadora Duncan no metr√ī.

Uma moça que estava por perto achou o gesto corajoso (ah, o conceito de coragem, esta potencial tese de doutorado à espera de um pesquisador):

- C√™ √© loca de mexer com corintiano que c√™ nem conhece no metr√ī lotado?

- Mas era uma quest√£o de seguran√ßa. E al√©m do mais…

Ela n√£o disse. Mas ela pensou. E um minuto atr√°s, no ‚Äúlevanta um pouco a sua bandeira, mo√ßo‚ÄĚ, ela n√£o havia percebido que, sem pensar, pensara:

Além do mais, o moço era branquinho.

- Al√©m do mais o qu√™? ‚Äď disse a mo√ßa inconformada com a ousadia da outra.

Mas ela, a outra, fora tomada pelo horror. ‚ÄúNada n√£o‚ÄĚ foi sua resposta. Seguiram em sil√™ncio at√© a plataforma, onde ela, a outra, fez quest√£o de embarcar em um trem diferente do mo√ßo alertado e da mo√ßa inconformada. Ali, p√īde chorar baixinho, naquela privacidade que s√≥ o metr√ī de S√£o Paulo √© capaz de proporcionar.

Altos falantes

Tocava Johnny Rivers no alto-falante do √īnibus. Eu n√£o entendo muito bem como funciona isso, mas alguns √īnibus em S√£o Paulo t√™m alto-falante, e em um √ļnico √īnibus de S√£o Paulo sai Johnny Rivers do alto-falante. Entra um senhor e entabula uma conversa com o motorista (eles j√° se conhecem). O Johnny Rivers √© obra do motorista, que al√©m de zelar pela condu√ß√£o do ve√≠culo √© respons√°vel tamb√©m pela educa√ß√£o musical dos passageiros, ‚Äúj√° que hoje em dia s√≥ toca porcaria a gente faz o que pode pra mostrar m√ļsica decente pro pov√£o‚ÄĚ. O senhor elogia a m√ļsica e diz que gosta daquele √īnibus porque para ele √© assim, m√ļsica boa √© m√ļsica internacional, antiga e lenta. O motorista fica de colocar umas m√ļsicas internacionais, antigas e lentas em um pen-drive para ele. O senhor fica todo contente e diz que sua senhora vai apreciar muito a gentileza.

***

- Moça, por favor: quando chega na estação Sé, a porta abre de um lado só?

- Sim, esta√ß√£o S√© √© ‚Äúdesembarque pelo lado esquerdo do trem‚ÄĚ, s√≥ abre do lado esquerdo.

Depois de pensar dois segundos:

- Bem, na verdade depois de abrirem as portas do lado esquerdo abrem as do lado direito tamb√©m, para as pessoas entrarem, mas sempre tem um man√© que sai pelo lado errado, quer dizer, pelo lado direito, atrapalhando os que entram; ent√£o tecnicamente todas as portas do trem ficam abertas por alguns segundos, mas o certo mesmo √© sair pelo lado esquerdo, quer dizer, √© o que o mo√ßo do alto-falante manda a gente fazer…

- … (= too much information)

- Mas por que você quer saber?

- Porque estou com medo de me perder.

- Saia pelo lado que você quiser, então. Para combater o medo, não há nada melhor.

Read with Friends

Após o sucesso do Bang with Friends, aplicativo que lhe permite informar aos seus amiguinhos de Feissy que você quer transar com eles, vem aí o revolucionário Read with Friends.

O sucesso do Bang with Friends deve-se √† quase elimina√ß√£o das suas chances de ser rejeitado, pois o aplicativo faz o favor de informar seus desejos libidinosos apenas √†queles que tamb√©m nutrem desejos libidinosos por voc√™. √Č exatamente esse modelo que os desenvolvedores do aplicativo replicam agora na rec√©m-inaugurada rede social Read with Friends.

Trata-se de uma comunidade criada para pessoas-que-escrevem-textos, não importa de que tipo. O usuário cria um perfil descrevendo todos os textos em que está trabalhando no momento: capítulo de tese, post de blog, poema erótico, romance de época, resenha de telefone celular, letra de samba. Qualquer texto, enfim, que venha a se beneficiar do olhar libidinoso de um leitor interessado e envolvido.

Ao mesmo tempo, o usuário percorre os perfis dos amigos e vai marcando os textos que tem interesse em ler, não importa o tema: interessou, clicou. Eventualmente, todos vão tendo seus textos clicados por alguém.

Como j√° adivinhou o perspicaz leitor, o Read with Friends envia uma notifica√ß√£o aos usu√°rios sempre que houver um interesse de leitura m√ļtuo entre dois autores. Assim como o Bang with Friends elimina o p√© na bunda, o Read with Friends p√Ķe um fim √† mendic√Ęncia por leitores do cap√≠tulo de metodologia da sua tese ou do seu poema √©pico sobre o Corinthians. Agora, o leitor vem at√© voc√™ – em troca, voc√™ s√≥ precisa ler um texto em que voc√™ mesmo demonstrou interesse.

Cabe ressaltar que a modalidade de leitura priorizada pelo Read with Friends n√£o √© a leitura-de-internet nem mesmo a leitura-de-amigo, em que uns leem os textos dos outros e, no c√ļmulo da articula√ß√£o, dizem que “acharam da√≥ra”. Ao participar do Read with Friends, os usu√°rios se comprometem a fazer uma leitura pormenorizada do texto alheio, atentando para detalhes de forma como o uso desnecess√°rio da palavra pormenorizada e para detalhes de conte√ļdo como at√© que ponto se pode levar uma analogia imbecil adiante.

Assim como o Bang with Friends, o Read with Friends também garante a privacidade dos usuários: afinal, a sociedade não é obrigada a saber que você tem um blog, uma tese ou um poema épico sobre o Corinthians.

A nova rede social ainda está em fase beta: os interessados devem se cadastrar através do sistema de comentários deste blog.

Cuidar de si é matar os pais

Uma amiga disse uma coisa t√£o bonita. Que n√£o cuidar bem de si √© n√£o ter feito o luto pelo fato de que seus pais n√£o cuidam mais de voc√™. Cuidar de si √© matar os pais, portanto. N√£o cuidar de si √©, literalmente, o que de mais infantil uma pessoa pode fazer. √Č ficar bravinho e bater o p√© porque papai e mam√£e n√£o est√£o mais aqui para tomar conta.

(Voc√™ pode entender o cuidado de si como uma s√©rie de a√ß√Ķes ou falas complexas e profundas direcionadas a um suposto eu interior, mas estou pensando em atos como comer, dormir, tomar banho, tomar rem√©dio.)

Eu gostaria de poder ir al√©m e dizer que, se voc√™ n√£o sabe cuidar de si, n√£o tem como cuidar dos outros como a si mesmo, mas infelizmente n√£o somos crist√£os por natureza e algumas das pessoas que mais t√™m o dom de cuidar (agora sim estou falando de a√ß√Ķes e falas complexas e profundas direcionadas a um suposto eu interior) dos outros s√£o as que menos t√™m a capacidade de dormir (8 horas), tomar banho (usando sabonete, xampu e condicionador), tomar caf√© (com leite e p√£o e frutas), tomar rem√©dio (o que o m√©dico mandou).

Então eu tento cuidar destas algumas pessoas dizendo coisas complexas e profundas que pretendem atingir aquele suposto eu interior, sendo que tudo o que eu queria mesmo era alimentá-las, banhá-las, dar o remédio na boquinha e embalá-las até que pegassem no sono.

Mas são pessoas adultas. E eu, teoricamente, também. Então eu digo coisas complexas e profundas. Elas continuam cuidando de mim. E eu continuo não cuidando delas.

Instalação em piscina

Contar o que me aconteceu ontem à noite é uma desculpa tão boa quanto qualquer outra para voltar a escrever neste blog.

Ontem, no √īnibus, encontrei Danny Brown. Ele √© um rapper que, enquanto fazia um show semana passada, teve as cal√ßas abaixadas por uma f√£, que tentou lhe fazer sexo oral. Sua companheira de palco, depois, disse que ele tinha sido estuprado na frente de todo mundo, e ningu√©m disse nada. Mas ontem ele estava no √īnibus comigo e me contava de seu doutorado. Ele tinha conseguido uma entrevista exclusiva com Clarice Lispector – uma entrevista do al√©m, pois, como todos sabem, Clarice j√° morreu. O que poucos sabem √© que Clarice n√£o √© escritora e sim uma renomada artista pl√°stica, e sua obra mais famosa fora o tema da entrevista. Trata-se de uma instala√ß√£o em uma piscina. Recortes de jornal flutuam sobre a √°gua, com manchetes que, na verdade, s√£o frases de auto-ajuda (“s√≥ o amor constr√≥i”). O papel recebeu um tratamento especial para n√£o se desfazer na √°gua e ainda assim conservar seu aspecto de jornal. Muitas, muitas manchetes de auto-ajuda flutuantes. No centro, flutuando tamb√©m, uma bola vermelha – maior que uma bola de t√™nis, menor que uma bola de futebol. Clarice disse a Danny Brown que a bola era o sangue menstrual concentrado. E que enquanto os homens passam a vida tentando separar sangue de √°gua, as mulheres aprendem a fazer isso desde a primeira vez que menstruam.

Achei meio clich√™. “√ď n√≥s mulheres que conhecemos o mist√©rio da vida porque menstruamos e engravidamos e parimos e blablabl√°.” Mas ele parecia estar muito satisfeito com seu doutorado. E a verdade √© que eu sentia inveja de Danny Brown. Ele tinha uma entrevista com Clarice Lispector diretamente do al√©m. O que tenho eu? Apenas o sangue da menstrua√ß√£o, e um textinho mal-ajambrado.

Eu n√£o

Eu n√£o vi O Poderoso Chef√£o.

Nem li Shakespeare.

N√£o sei diferenciar impressionismo de expressionismo.

Nem Marginal Tietê de Marginal Pinheiros.

Nem Star Trek de Star Wars.

N√£o li Dante.

N√£o li Homero.

Não li Ovídio.

N√£o li aqueles cara tudo que o Freud cita.

Os que o Borges cita, menos ainda.

Não vi nem li nenhuma trilogia dessas em que a mocinha é moderna e bem resolvida.

Não sei o que é Garganta Profunda.

N√£o imagino o que seja ler poesia se n√£o for para fazer trabalho de escola.

Não vi a novela. Nem essa daí. Nem aquela lá.

N√£o ouvi o √ļltimo disco do Caetano. Nem o anterior. Nem o anterior a esse.

N√£o vou ao teatro.

E, o pior de tudo, n√£o sei fritar um bom bife.

Marcadores de superioridade

Era uma vez, em um caf√© superfaturado da cidade de S√£o Paulo (ali√°s, existem caf√©s n√£o-superfaturados em S√£o Paulo?), uma fila. N√£o muito longa, n√£o muito curta: umas cinco pessoas, esperando para fazer um pedido e tirar a ficha no caixa. No terceiro lugar da fila, uma senhora com seus seguramente mais de setenta anos. No segundo, um homem ‚Äď apenas isto, um homem. No primeiro, uma mulher ‚Äď apenas isto, uma mulher.

Os caf√©s superfaturados s√£o superfaturados por um motivo: neles voc√™ pode pedir n√£o apenas caf√©, mas tamb√©m chocolate, caputchino, mocatchino e meia d√ļzia de outras coisas que podem ser bebidas quentes.

N√£o √© de admirar, portanto, que a mulher tenha ficado um pouco indecisa diante de tantas op√ß√Ķes. O que surpreende um pouco, talvez, √© que ela tenha passado cerca de tr√™s minutos sem fazer o seu pedido, perguntando √† atendente, em vez disso, qual era a diferen√ßa do moca pro caputchino, quanto de chocolate ia em cada um, se tinha alguma op√ß√£o lait, d√°iet, etc.

Depois de tr√™s minutos ‚Äď que pode parecer muito pouco tempo, mas experimente fechar os olhos e contar pausadamente at√© cento e oitenta ‚Äď, o homem atr√°s dela arriscou:

- Olha, primeiro você tem que decidir o que vai comprar antes de entrar na fila, senão você bloqueia todo mundo.

- Ué, mas eu ainda não me decidi! Estou escolhendo, por acaso não posso escolher?

- Você pode, mas escolha antes de entrar na fila. Não é justo, existem outras pessoas atrás de você. Como esta senhora.

Nisso, a senhora se adianta:

- Posso passar na sua frente? Eu j√° sei o que vou pedir e j√° estou com o dinheiro trocado. Um espresso, por favor.

(Adoro quem pede permiss√£o para fazer alguma coisa, j√° fazendo ‚Äď √© o famoso ‚Äúposso ver?‚ÄĚ das crian√ßas, que √© a primeira coisa que elas dizem quando tomam um objeto das m√£os umas das outras.)

A mulher continua:

- Se a senhora quer passar na minha frente, ela que passe, mas você está sendo muito deselegante, rapaz!

Então o homem se exaltou. E falou em absurdo e incivilidade e em desrespeito à cidadania. E a mulher respondeu que ele não tinha nenhuma educação. Até que o homem proferiu a frase mágica:

- Queria ver se você fizesse isso nos Estados Unidos, o que que iam te dizer!

Mas, como um Harry Potter que rebate o feitiço do bruxo mau com uma mera sacudidela da varinha, a mulher respondeu:

- Pois eu já fiz muito isso nos Estados Unidos, e sempre fui tratada com educação! E além disso, sou professora de inglês muito bem sucedida graças a Deus, e meus alunos sempre foram muito educados comigo!

Isto posto, a partida ficou em um a um ‚Äď cada qual pediu seu caf√© (ela) e sandu√≠che natural (ele) e foi degust√°-lo em cantos opostos do estabelecimento.

Ao contrário de quando duas mulheres ricas brigaram no shopping, desta vez, pelo mero fato de ninguém ter saído no tapa, tive vontade de dar um abraço nos dois.

Eles s√£o um retrato de valores aos quais nossa velha e combalida classe m√©dia se aferra com imenso fervor. E esses valores nada t√™m a ver com a discuss√£o sobre o lugar na fila, que isso n√£o tem import√Ęncia alguma ‚Äď mas com aquilo que o homem e a mulher consideram um marcador de superioridade de uma pessoa sobre outra.

Em primeiro lugar, a mui celebrada viagem para os Isteits. H√° alguns anos, dizer ‚Äúestive nos Estados Unidos e sei como √©‚ÄĚ podia ser uma frase de provocar OHs na plateia, dado que viajar era para poucos ‚Äď mas, hoje, toda a velha classe m√©dia (e boa parte da nova tamb√©m) viaja aos Estados Unidos com frequ√™ncia. Para a classe m√©dia de S√£o Paulo, Miami tornou-se um destino tur√≠stico equipar√°vel ao Rio de Janeiro ‚Äď compare os pre√ßos de hot√©is e passagens a√©reas e me diga se estou errada.

Resta à classe média o conhecimento do inglês como privilégio. Falar inglês fluentemente ainda é sinal de status, num país historicamente monolíngue como o nosso. Mas atualmente o que se vê são empregadas domésticas e serventes de obra economizando para pagar escola de inglês para os filhos. Se os pobres já lotam os aeroportos, em breve também escreverão hashtags em inglês no instagram. #OhMyGod #SoHumilliating #SoInfuriating

O homem e a mulher podem ter concep√ß√Ķes opostas do que seja uma fila democr√°tica e justa, mas ambos se igualam em sua idealiza√ß√£o dos Estados Unidos (e, por extens√£o, da l√≠ngua inglesa) como um modelo de civilidade e boa educa√ß√£o a ser alcan√ßado. Mais que isso, ambos se agarram a marcadores de superioridade que est√£o extintos ou em processo de extin√ß√£o.

Seria bom se o homem considerasse que n√£o importa muito a civilidade (ou falta dela) dos estadunidenses ‚Äď importa, sim, a civilidade que estamos permanentemente construindo para n√≥s, segundo nossos pr√≥prios par√Ęmetros. Seria melhor ainda se a mulher se desse conta de que sua profiss√£o (ou seu grau de √™xito e compet√™ncia nela) n√£o tem qualquer rela√ß√£o com o tempo que se leva para fazer um pedido quando h√° uma fila esperando atr√°s de voc√™.

Acima de tudo, seria fenomenal se eu entendesse que aquilo que eu gostaria que os outros entendessem jamais será objeto de sua preocupação.

√Č imposs√≠vel dizer qualquer coisa n√£o-imbecil quando uma pessoa morre

Ou melhor: √© imposs√≠vel dizer qualquer coisa que n√£o seja clich√™. Que n√£o seja sumamente est√ļpida. Que n√£o seja de um sadismo convenientemente disfar√ßado. Que n√£o seja de extremo mau-gosto. Eu n√£o estou falando de dizer alguma coisa brilhante. E tamb√©m n√£o estou falando de ter 13 anos e achar que tudo o que se fala ‚Äď sobretudo o que os pais falam ‚Äď √© idiota. Eu estou falando de dizer alguma coisa que denote empatia e bom-senso. Eu estou falando que isso √© imposs√≠vel.

√Č claro que n√£o s√≥ eu n√£o me excluo disso como tamb√©m n√£o excluo a possibilidade de que, para outras pessoas, tudo ou parte do que √© dito nessas ocasi√Ķes seja belo, sincero e tocante. Mas este blog n√£o √© sobre outras pessoas, este blog √© (longo e tedioso suspiro) sobre mim.

***

Sabe aquele delicado equil√≠brio t√£o dif√≠cil de atingir entre o arroz e o feij√£o no prato? Aquele dom de servir a propor√ß√£o certa, para que n√£o sobrem gr√£os solit√°rios no prato nem falte nenhum sabor na boca? Eu nunca tive. Acaba o feij√£o, inteiro com um pouquinho mais de caldo, da√≠ logo falta arroz, ent√£o sirvo mais arroz, e √© s√≥ p√īr mais arroz para perceber que aquele feij√£ozinho extra j√° se foi, e assim continuo com mais e mais conchas e colheradas e francamente n√£o sei como consigo terminar a refei√ß√£o.

***

Você já ouviu falar numa coisa que Heidegger chamava de falatório? Não é um conceito, porque diz que Heidegger não tem conceito (eu é que não sei, Heidegger é daqueles autores que, assim como Lacan, estamos eternamente condenados a ler somente através de comentadores), mas me disseram que é assim: falatório é tudo que a gente fala que é meio o que qualquer um falaria e que não diz realmente nada e não leva a lugar nenhum (ou seja: falatório é basicamente tudo, exceto a poesia). E eu acho que Heidegger devia estar num enterro quando pensou isso.

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A propor√ß√£o xampu-condicionador √© igualmente capciosa. S√≥ que essa voc√™ s√≥ v√™ quando um dos dois acaba. De crian√ßa, o condicionador sempre acabava primeiro, e eu considerava isso uma tremenda falha de car√°ter ‚Äď eu era uma crian√ßa pregui√ßosa que n√£o tinha pudores de encher o cabelo de creme e deix√°-lo bem oleoso, se necess√°rio fosse, apenas para ter menos trabalho para desembara√ß√°-lo.

Aí cresci, envelheci e hoje economizo no condicionador. Até que um dia acaba todo o xampu de casa. E o condicionador jorra do pote. Lavo o cabelo só com ele, o que mais eu ia fazer?

Foi nesse dia que descobri o que é um cabelo verdadeiramente oleoso.

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- Deus é bom, [o morto] morreu rápido, Deus não deixou ele sofrer.

- Deus é bom, [o morto] ainda viveu bastante, Deus deixou ele viver um bom tempo depois do diagnóstico.

- [O morto] se entregou, queria ir para os braços de Deus. Então foi melhor assim, ele conseguiu o que queria.

- [O morto] lutou pela vida at√© o fim, √© um exemplo para n√≥s. Ent√£o foi melhor assim, ele p√īde descansar.

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O meu lugar preferido no mundo √© o 55 Bar, em Nova York. Em segundo lugar, a livraria Eterna Cadencia, em Buenos Aires. E, num honros√≠ssimo terceiro lugar, o SESC Belenzinho. Gente. Esses SESC d√° um pau nos SESCs chiques. Vila Mariana, Pompeia, Pinheiros. Esquece. ZL, manos. Ali√°s. Quem diz que o melhor do Brasil √© o brasileiro claramente nunca visitou uma unidade da rede SESC. A melhor coisa do Brasil, de longe, √© o SESC. T√° bom, vai: a melhor coisa de S√£o Paulo. Al√©m dos corredores de √īnibus da Rebou√ßas e da Nove de Julho, que tamb√©m s√£o lindos.

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Uma mania de dizer que 1) Deus √© bom (essas pessoas n√£o leram o Antigo Testamento?); 2) o morto descansou (como se o morto fosse capaz de descansar, depois bocejar, dar uma espregui√ßadinha, levantar e rebolar ao som de uma salsa). Desculpa. Eu fa√ßo piada porque fico nervosa. Especialmente quando dizem que foi bom o morto morrer. Bem ‚Äď foi para isso que inventaram o cristianismo, eu sei. Todo o cristianismo se baseia exclusivamente nesta ideia principal: que morrer √© de mentirinha, e no fundo √© bom. √Č inclusive a melhor coisa que pode acontecer a uma pessoa. E √© exatamente o que todos dizem num enterro. Foi bom, foi √≥timo o morto ter morrido. Dizem isso. E no entanto eu n√£o vejo ningu√©m abrir uma cerveja. Eu n√£o vejo nenhum cavaco, nenhum pandeiro e nenhum tamborim. Eu vejo pessoas chorando. E pessoas cansadas. E pessoas constrangidas por n√£o estarem chorando como as pessoas cansadas.

***

Mentira. Meu lugar preferido no mundo é a minha casa. (Não é só quando uma pessoa morre que é impossível fugir do clichê.)

***

Com vinte e um anos de atraso resolvi me indignar com as incontáveis vezes em que contei para mim mesma (ou que contaram para mim, porque o ser humano é assim) que minha mãe morreu mas foi só porque Deus é bom, sabe. Porque ela mesma dizia que não queria ficar velha. Era tão vaidosa! Imagina isso, se Deus não é bom e não mata ela enquanto jovem, ela ficaria velha e inevitavelmente acabaria fazendo uma cirurgia plástica. Isso sim seria uma baita maldade. Suprema humilhação. Logo, foi bom. Porque a gente faz um plano e Deus faz outro. Obviamente muito superior. #AbaixoPitanguy. Etc.

***

Mas então eu acabei falando o quê? No enterro?

Falei que o morto descansou. E que Deus é bom. O que mais eu poderia dizer?

Sem fim

Ontem tive a brilhante ideia – e antes que eu continue, √© bom lembrar que a express√£o “brilhante ideia” refere-se sempre a uma ideia de jerico elevada ao cubo – de assistir a Shoah, o document√°rio de Claude Lanzmann sobre o Holocausto, sozinha. (Por favor, seja esperto e perceba desde j√° que, se este parecia ser um post engra√ßadinho, definitivamente n√£o √©.)

N√£o sei por que tive essa ideia justo ontem, mas acho sinceramente que esse document√°rio tem a ver com a minha tese. Quer dizer, obviamente n√£o tem nada a ver com a minha tese, que √© sobre os conceitos psicanal√≠ticos de realidade e sublima√ß√£o. Acontece que ainda estou naquela fase em que vejo um cachorro na rua e penso “hmm, esse cachorro tem tudo a ver com a minha tese”.

Uma hora de document√°rio foi o m√°ximo que aguentei, para come√ßar (ele est√° dispon√≠vel na √≠ntegra em quatro clipes no youtube, para quem quiser se aventurar – e eu recomendo, s√≥ n√£o seja tonto de fazer isso sozinho). Depois de uma hora de depoimento em cima de depoimento e nenhum violininho lacrimejoso de trilha sonora, nenhum efeito especial, nenhuma imagem horripilante, nada – apenas gente falando, apenas isso -, me vi clicando em linques como “reveja a trajet√≥ria de Mara Maravilha” e “descubra como ter uma carreira de sucesso”.

Consegui assistir a mais uns quarenta minutos de document√°rio, e fui dormir.

***

Eu ia acompanhar a exuma√ß√£o da minha m√£e, que aconteceria na antiga casa da minha av√≥. O corpo seria examinado por m√©dicos para investigar que transforma√ß√Ķes ocorrem em um corpo humano depois de tanto tempo enterrado.

Eu era mais jovem, mas tinha o mesmo celular que tenho hoje. Sei que era esse celular moderno de agora porque minha primeira rea√ß√£o, assim que entendi o que estava acontecendo, foi escrever uma mensagem para B. em dois segundos: “vem pra casa da minha av√≥ correndo, por favor”.

Mas ela n√£o respondeu.

Então minha mãe apareceu sobre uma maca que ficava entre a pia e a mesa da cozinha (a cozinha da minha avó era muito grande), e minha mãe era um corpo pequenininho de carvão.

(De criança, eu ouvia umas histórias de que é isso que acontece quando uma pessoa é atingida por um raio. Ela encolhe e vira uma pedrinha de carvão.)

((Li um livro lindo esses dias sobre uma pessoa que é atingida por um raio, e no livro não é isso que acontece com ela.)

(((Você que acompanhou o sonho até aqui e é uma pessoa sensível, fique à vontade para ir embora agora, eu juro que não me ofendo. Aos que preferiram ficar, peço desculpas por insistir neste assunto. Mas, se vocês ficaram, vocês precisam entender. Este era um assunto que não existia para mim. Era um assunto do qual eu não falava Рe não porque não quisesse falar, mas apenas porque não se pode falar sobre aquilo em que não se pensa Рaté começar a fazer análise, com mais de vinte anos. Então, mais ou menos naquela época, comecei a pensar. Tempos depois, comecei a falar.)))

((((Um homem conta que abriu a vala onde milhares de pessoas haviam sido enterradas quatro meses antes. E ali ele reconheceu sua esposa e filhas. Os corpos e as roupas estavam intactos, conservados pelo inverno. O homem ajoelhou-se e pediu para que o matassem. Foi-lhe dito que ele continuaria vivo por enquanto, pois ainda tinha forças para trabalhar.))))

(((((Se você checar o filme, verá que não é bem isso. Misturei as histórias de dois homens em uma só. O homem que viu mulher e filhas, viu-as sendo descarregadas mortas de um caminhão, e depositou-as na vala coletiva Рisso quando os mortos ainda eram enterrados. Este homem pediu para morrer. Outro homem estava desenterrando corpos quando encontrou sua família Рmãe, tias, sobrinhos. Todos conservados pelo frio do inverno.)))))

Era um corpo pequenino e deformado, mas com tronco e membros discerníveis. Uma boneca grande. Com buracos vermelhos no lugar da boca e dos olhos.

E um pé se mexia. De leve.

O m√©dico disse que ela tinha pulsa√ß√£o 6 ou 7, enquanto uma pessoa viva tem pulsa√ß√£o de trilh√Ķes.

Mas ela est√° se mexendo, ent√£o ela est√° viva, ent√£o ela foi enterrada viva.

Claro que n√£o, bobinha, o que s√£o 6 ou 7 perto de trilh√Ķes?

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Este post não tem fim. Algumas histórias não conseguem ter.