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Uma experiência antropológica

No térreo, as moças. Todas morenas de cabelos loiríssimos, magras, peitudas e de formas graciosas. Movendo-se freneticamente em aparelhos cujo nome não me arrisco a pronunciar, manejando apetrechos pesados e curiosos, contorcendo-se em posições cuja funcionalidade me escapa.

Eu até deveria, mas não me sinto intimidada por elas. As instrutoras, especialmente, são simpáticas. Sorriem para mim, sempre.

Desço ao subsolo e adentro um outro universo.

Ali é o território das mulheres que, animadas, conversam sobre os filhos, netos e grupos de oração da igreja. Receitas, maridos e planos de saúde. Noras e mais noras e conselhos íntimos.

Eu até deveria, mas não me sinto deslocada entre elas. Pergunto sobre seus netos e algumas já me chamam de filha.

No térreo, uma sensualidade estranha, exibida à exaustão mas nunca pronunciada, dita. No subsolo, um salão de bingo, mesmo que sem as cartelas e os feijões.

Faço natação num horário em que a academia é dominada por esses dois grupos sociais. Eu, como única jovem não-loira do local, sinto que minha presença branca e morena contornada por um vestidinho Vila Madalena destaca-se em meio às belas jovens que travam um incessante combate às calorias inexistentes e às senhorinhas em busca de algum condicionamento físico e de uma vida social.

Não sou loira nem peituda, nem gosto de bingo nem tenho netos. Se no colegial eu já me achava outsider, imagina agora.

Curiosamente, porém, não é o que acontece.

Tenho uma gostosona e uma velhinha morando dentro de mim.

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4 Comentários on “Uma experiência antropológica”

  1. #1 André
    on Sep 4th, 2007 at 1:12 am

    Imaginar as suas senhorinhas e as peitudas num espaço psi, ou academia literária ou na platéia de um grande músico seria muito outsider. Resta saber o quanto de insight tais situações suscitariam nas ´acadêmicas´.

    [Reply]

  2. #2 cintia
    on Sep 4th, 2007 at 1:42 am

    Texto lindo Camila. Adorei. E você tem mesmo peitudas, senhorinhas e muito mais em você. Beijos.

    [Reply]

  3. #3 OLIVIO
    on Sep 4th, 2007 at 3:35 pm

    Tem tanta coisa boa e linda dentro de voce, Camila, que não cabe dentro de um texto, nem no universo dos objetos sensíveis e não-sensíveis. Um beijo, minha Maria Lenke nadadora!

    [Reply]

  4. #4 A gincana – Recordar, Repetir e Elaborar
    on Jun 19th, 2009 at 6:19 am

    [...] mas agora estou quase me sentindo em meio a uma legítima experiência antropológica, tipo a da academia ou a do salão de beleza. Antropológica no sentido de implicar um olhar estranho a um ambiente que [...]

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