Tem um episódio (que não vou dizer que é clássico porque para mim todos são) de Seinfeld em que George explica por que ele não tem canais de pornografia em casa. O motivo é simples: com um canal de pornografia 24h, ele não faria nada mais nada na vida além de babar em frente à televisão.
Eu sempre associo esse episódio ao advento das caixas de som dynaudio na minha vida. Primeiro na casa de um amigo, aos dezessete anos. Antes eu vivia feliz na minha ignorância, dentro da caverna. Mas com esse primeiro contato iniciático e desvirginador, percebi que os sons vindos lá de fora se posicionavam no espaço de um modo que até então eu nunca havia percebido. Finalmente, a música tornara-se tridimensional. Foi aà que comecei a me interessar por mixagem, claro, e depois desse primeiro passo não houve mais volta.
O segundo contato foi ainda mais significativo porque, além de as caixas serem ainda melhores, pertenciam ao meu então namorado. Nunca me esquecerei de quando elas chegaram. Convertemo-nos instantaneamente em perfeitos Georges. Mal conseguimos dormir na primeira noite. Todas as nossas questões existenciais foram reduzidas a esta: qual o próximo disco que iremos ouvir nas Dynaudio? Pois, num primeiro momento, querÃamos privilegiar os discos que, além de amados, eram também bem gravados e mixados - o que equivale a dizer que ouvimos muito pouca coisa que não fosse ECM durante as primeiras semanas.
Felizmente, porém, não morávamos juntos: quando eu voltava para a minha casa, conseguia tocar a vida dentro dos padrões mÃnimos de normalidade. Mas isso durava pouco; eu logo voltava para a casa dele e a primeira coisa que fazia era perguntar: “o que você ouviu nas Dynaudios hoje?” Ele então me passava o relatório do dia e mostrava-me suas melhores descobertas: “olha só como isso soa!” Depois eu falava de algum outro disco que eu achava que merecia ser testado, e Ãamos ambos conferir minha sugestão. Assim vivemos por um bom tempo, da maneira mais monotemática possÃvel, unidos pela mesma atração à quela pornografia musical*. É isso: caixas Dynaudio mostram a música completamente desnuda, na pose mais sensual que há. Com os foninhos de ouvido do iPod, a música é uma donzela do século XVI de quem só vemos as mãos e o pescoço. Com um sistema audiófilo, a música se entrega ao ouvinte completamente, sem pudores nem ressalvas.
Até hoje, quando lembro alguns dos momentos passados em frente e no meio de duas daquelas caixas, sinto um formigamento no abdômen que só encontra equivalente em outra experiência: a ida iminente para Nova York.
Assim que comprei a passagem, como das outras vezes, não pude resistir. A maioria dos lugares ainda está longe de ter sua programação definida para o perÃodo de 3 a 6 de janeiro, mas alguma coisa já deu para descobrir. E então as formigas ou borboletas, dependendo do idioma, sapatearam ou voaram.
Há dois eventos imperdÃveis, já. Kenny Garrett e Bill Frisell com Ron Carter e Paul Motian. Este último trouxe uma ligeira dose de decepção, confesso - pois Bill Frisell acaba de gravar com Jim Hall aquele que seria o disco do ano, não fosse este indiscutivelmente o ano do George das Dynaudios de quem falávamos há pouco. Mas Benjamin Linus sabe que não estou reclamando. Eu gosto do disco desse trio e gosto principalmente da idéia de ouvir como eles estão tocando agora. Até porque, se não me engano, aquele foi um disco gravado meio no susto: era a primeira vez de todos no estúdio (foi a primeira vez, inclusive, que Ron Carter e Paul Motian tocaram juntos), gravaram alguns poucos takes e ya. Se não foi exatamente isso, é essa a sensação que o disco me dá. Pessoas ainda se conhecendo, se explorando; quilômetros de terreno por desbravar. Imagino que, dois anos depois, eles tenham aberto novas e interessantes trilhas nessa mata. E o Kenny Garrett, meu altoÃsta preferido (junto com David Binney, vá lá), ouvirei pela primeira vez. Será uma surpresa parcial, pois a banda tem pelo menos uma figurinha bastante carimbada. Mas vai ser bom estar presente no lançamento do disco novo, e ainda mais no Iridium, onde não pude ir este ano.
Se eu morasse em NY, de duas uma: 1) rapidamente ficaria pobre e boba, pois gastaria todo o meu tempo e dinheiro com música ao vivo todas as noites; 2) me sentiria constantemente angustiada sempre que ficasse em casa, oprimida pela certeza de estar perdendo alguma coisa muito boa e importante.
Eu já decidi que, um dia, quero ter caixas Dynaudio, em que pese o fator-de-risco George. Ainda não sei se gostaria de morar em NY. Meu plano para o ano que vem, depois de janeiro, é voltar para lá outras três vezes: no meu aniversário (em março), em agosto e novamente no final do ano. Mais ou menos como ter um namorado com Dynaudio, portanto.
Talvez, depois de um tempo, isso seja insuficiente, e eu queira toda a pornografia (ops, música) do mundo à minha disposição 24/7.
Ou talvez eu queira manter NY neste lugar mÃtico e idealizado, uma Pasárgada particular a ser visitada apenas pontualmente, sempre intensamente.
Tenho os próximos cinco anos para descobrir isso - e, quem sabe, desencanar da aposentadoria e comprar as Dynaudio de uma vez.
* O único outro momento francamente monotemático que vivi num relacionamento foram os dias de descobrimento de LOST com meu segundo namorado, anos depois. Aqueles também foram dias em que o resto do mundo pareceu uma abstração improvável e distante.








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