Desta vez vamos rapidinho, para cumprir com a promessa do título:
Belmondo & Milton Nascimento. O ano de 2008 entrará para a história por muitos motivos, mas nada que se compare à incrível ressurreição do Milton, que andava vagando feito zumbi desde o Angelus: os Belmondo (são dois irmãos) desde já têm a minha eterna gratidão por havê-lo reconduzido à vida. Surpreendentemente afinado e seguro, sem a fragilidade embaraçosa de outros discos recentes, Milton reinterpreta alguns dos principais marcos do Clube da Esquina em arranjos orquestrais de babar. Depois de ouvir este disco, entendi o que os fanáticos por futebol sentiram quando Maradona jogou a Copa de 94: o sentimento unheimlich de que um dos maiores gênios da arte que você tanto ama não só não morreu como ainda é capaz de empolgar. Você até já tinha feito o luto, pensando que o destino do seu ídolo era assumir de vez a identidade de tiozinho doente que vive de participações em programas de auditório - e eis que ele te dá um olé e, contra todas as expectativas, renasce para a glória.
Mas falando sério, os Belmondo são músicos para todo mundo começar a acompanhar ontem - além de excelentes arranjadores (destaco particularmente os Aviões da Panair), improvisam muito bem - gostei particularmente do cara do flugel. Sobre os arranjos, arrisco-me a um palpite que pode ser um clichê dos grandes, mas blog taí pra isso mesmo: eles me lembraram muito.. Michel Legrand. E como eu conheço quase nada de Legrand, não sei se minha associação é válida ou se é apenas uma inferência muito idiota pelo mero fato de os Belmondo serem franceses. Não sei mesmo - os especialistas em ML que ouçam esse disco com o Milton e me contem.
Vou só dizer mais uma coisa pra vocês. Sempre que a lu bota uma gostosa peladona no blog dela, aparece gente nos comentários dizendo “chupo tudooo!”. Eu acho o máximo e morro de inveja, pois meu blog nunca suscita reações tão entusiasmadas. Sendo assim, e dado que a minha pornografia preferida é de outro tipo, proponho reação análoga para as gostosuras de que vou tratando aqui: Belmondo = baixo tudoooo!
Carla Bley, Appearing Nightly. Confesso que não só não entendo como não conhecia nada de Carla Bley, o que me confere a autoridade necessária para recomendar esse disco como uma excelente introdução à obra dela: bastou-me uma audição de Appearing Nightly para entender que tenho mais uma discografia a vasculhar. AN é um disco muito mais interessante do que propriamente bonito: não tem o encanto óbvio e abertamente sedutor das cordas e da guitarra de um Blauklang, por exemplo (vide abaixo). Os arranjos são esquisitos (basta dizer que o baixista da banda é Steve Swallow); os sopros são usados de maneira esparsa, com muitos silêncios e, de repente, algumas dobras. E, quando você menos espera, no meio de toda a esquisitice aparece uma referência a algo extremamente familiar - me lembro agora de Someone to Watch Over Me e Salt Peanuts, mas há outras coisas, e a maioria você (bom, eu) nem sabe precisar bem o que é, mas aposta que já ouviu. Se modernidade e tradição formam a dupla de opostos que dá o tom de Nem 1 Ai, o conflito que move Appearing Nightly, fazendo-o “trabalhar”, é estranheza e familiaridade. Em coro, portanto: Carla Bley = baixo tudooooo!
Vince Mendoza, Blauklang. O que mais dizer desse homem além de que ele é o arranjador de Both Sides Now? Fechou, né? É o grande arranjador orquestral do nosso tempo, ponto. Epiphany, até o ano passado, era o seu melhor disco, mas Blauklang nos fez o favor de superá-lo. É um desses discos que transbordam beleza e faz a gente se sentir transbordado também, num andamento mid-slow em que a bateria leve a não poder mais do Peter Erskine combina perfeitamente com a leveza das cordas. Aos sopros cabem o peso e a sustança do disco, e ao Nguyen Lê, as cores. É uma música extremamente perigosa, que não se pode começar a ouvir a qualquer momento: o impulso de parar tudo e entrar num loop blauklangesco é praticamente irresistível. Do Vince Mendoza nem preciso baixar nada, pois já comprei tudo há muito tempo. Aos que não o conhecem ainda, sugiro a seguinte ordem de baixamento: Both Sides Now, Blauklang, Travelogue (também com a Joni) e Epiphany. Divirtam-se!








on Feb 11th, 2009 at 4:30 am
O disco do Milton também me remeteu a Legrand, mas não achei essa coca cola toda não. E Pietá é um disco recente e riquíssimo. Nessa linha, acho muito melhor o disco que o Milton gravou com Wayne Shorter (Native Dancer) que tem a Tarde mais bonita do planeta!
[Reply]
on Feb 11th, 2009 at 8:56 am
Não conseguiria nunca falar de música com tamanha facilidade. Melhor ler o que vc escreve!
Bjs
[Reply]
on Feb 11th, 2009 at 10:18 am
“O disco do Milton (…) não [é] essa coca cola toda não.”
De fato, ele está muito mais pra Veuve Clicquot. :)
Vizinho, a única coisa que eu acho fácil na vida é ouvir música! O resto é muito complicado.
[Reply]
on Feb 11th, 2009 at 6:16 pm
Daqui alguns dias, P.Q.P. Bach irá postar em sequencia 3 CDs da maravilhosa Carla Bley.
Eu escrevi 3: the_carla_bley_big_band_goes_to_church, tropic_appetites e social_studies. Sim, os arquivos já estão preparados.
Esta foi uma raríssima informação de cocheira…
[Reply]
camilalpav Reply:
February 18th, 2009 at 3:59 pm
Seu PQP, sigo no aguardo dos 3 CDs, pra poder gritar com orgulho “baixo tudooooooo”…
[Reply]
on Feb 13th, 2009 at 8:49 am
hahahaahahhahahahahahahaha
eu não costumo ler quando você escreve sobre os melhores discos, já que nosso gosto musical é totalmente - to-tal-men-te - diferente, então só agora e só por acaso vi a referência ao Xupo tuuuuuudo!! hahahahah.
mas ainda que sejam totalmente diferente, confesso que me perguntei se você gostaria da música do crosby stills and nash quando outro dia a coloquei na barra lateral do meu blog. aliás, tudo bem que rock não é a sua praia, mas vc gosta de crosby stills and nash?
[Reply]
camilalpav Reply:
February 13th, 2009 at 1:55 pm
Putz, o meu chupar não foi muito autêntico - acabo de perceber que o termo correto é com X!
Eu gosto bastante de CSN sim! O meu disco preferido do David Crosby é um dos anos 90 chamado A Thousand Roads, muito bem produzido e com uma música linda dele e da Joni, “Yvette in English”. Eu gosto dessa praia violões de aço deles. E gosto principalmente da conexão com a Joni Mitchell, claro! Aliás, acho que a Joni é pra mim o que a Judith Butler é pra você… A mulher mais linda do mundo, basicamente.
[Reply]
on Feb 13th, 2009 at 8:49 am
eu deixei um comentário aqui que sumiu… oi? eles tão sendo moderados ou sumiu mesmo?
[Reply]
camilalpav Reply:
February 13th, 2009 at 1:58 pm
Welcome to a wordpress blog! Às vezes o Defensio cisma que algum amigo tem cara de spam, mesmo que já tenha comentado aqui antes…
[Reply]
on Feb 18th, 2009 at 7:48 pm
[...] Belmondo & Milton Nascimento, Carla Bley - Appearing Nightly e Vince Mendoza - Blauklang [...]