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Dias estupidamente felizes

Quando fiz aquele post sobre as prioridades, a lu elencou como uma das suas o que ela chamou de “dias estupidamente felizes”, definidos por ela como a pura negação do trabalho: dias cujo único propósito é fruir da companhia de pessoas queridas, sem nenhuma obrigação de ser eficiente, produtivo ou útil.

Eu acho essa prioridade sensacional. E, como geralmente é o caso com os textos mais pessoais da lu, além de achar sensacional eu não consegui me identificar. E não é porque faço questão de produzir utilidades pelo mundo afora: para mim, produção e trabalho são conceitos que por si só, tomados como valores absolutos, não dignificam o homem e não valem rigorosamente nada. Também não tenho como fugir da constatação de que, se eu fosse elaborar uma lista dos meus top x dias estupidamente felizes, pode apostar que em nenhum deles eu estava trabalhando. O que, aliás, não é nada surpreendente: entre o dia em que ouvi Toninho Horta ao vivo pela primeira vez e o dia em que uma sessão com determinado paciente foi particularmente boa, sério, é covardia.

Mas aí eu me lembro dos meses conscientemente mais infelizes que já vivi. Basta dizer que naquele período eu emagreci de tristeza. E perdi completamente minha capacidade de ler e escrever. Isso foi antes do blog. Agora olhe para mim e veja se dá para me imaginar sem comer nem macarrão, sem ler nem blog e sem escrever nem e-mail. Mais fácil me imaginar morta de uma vez. O meu trabalho estava me fazendo descobrir sofrimentos de cuja existência eu jamais fizera ideia - como quem de repente descobre que há 300 línguas vivas no mundo e não apenas aquelas duas ou três que você balbucia. Eu estava me sentindo e sendo incompetente, sensação reforçando ação e vice-versa na dialética bola-de-neve da identificação projetiva; eu não via sentido algum no que eu fazia e muito menos alguma perspectiva de deixar de fazê-lo. Quem disser mas que bobagem, por que você não pediu demissão e pronto! não conhece, ou não quer reconhecer, a força da fantasia primitiva. Não é que eu achava que não podia sair daquilo. Isso diz quem está de fora. Eu realmente não podia fazer nada: esta possibilidade não me era dada nem como sonho ou devaneio diurno.

Agora me pergunta quantos dias estupidamente felizes eu tive nesse período em que deixei o trabalho destruir minha capacidade de viver que nem gente - gente que come macarrão, lê blog e escreve e-mail.

***

Outro dia listei os shows mais queridos e significativos que já tive a suprema sorte de presenciar.

Se vocês repararem bem, além dos shows pontuais há também alguns clusters de shows - o mais siginificativo dos quais, certamente, é o da Orquestra Popular de Câmara. Por mais de dois anos, vi shows da OPC quarta-feira sim quarta-feira não no bar que até hoje não encontrou um substituto à altura em São Paulo.

Dizer que me lembro precisamente de algum desses shows em particular seria pedir uma licença exageradamente poética. Pois o melhor da experiência não se concentrou em nenhum show específico, mas no próprio acompanhamento, próximo e cotidiano, de inúmeras apresentações de uma banda que eu amava tanto.

Da mesma forma, não dá para dizer que o momento específico em que resolvi o problema do capítulo de metodologia da minha dissertação foi algo assim que me provocou orgasmos. Ou que o dia em que determinada sessão produziu pensamentos inéditos e criativos na dupla analítica me fez ver Jesus. Mas, curiosamente, sempre que situações como essas fizeram-se consistentemente recorrentes em minha vida, pimba: lá vinham dias estupidamente felizes, cheios de música, carinhos e bobagens. Além disso, embora isolodamente tais situações não tenham nada de descomunal, em conjunto elas representam das coisas mais marcantes e maravilhosas - e, por que não dizer, felizes - que já me aconteceram. A experiência de escrever minha dissertação de mestrado por meses a fio, surpreendendo-me com as descobertas que iam surgindo na medida mesma em que a escrita ia se desenvolvendo - francamente, consigo pensar em pouquíssimos acontecimentos tão felizes quanto esse. O que não implica negar a ansiedade que uma tarefa como essas provoca. Mas, até aí, viver é correr riscos e rir das ansiedades mesmo.

Um cotidiano e um trabalho prazeroso me proporcionam as condições necessárias para a ocorrência de dias estupidamente felizes. Além disso, um cotidiano e um trabalho prazeroso constituem, em conjunto, experiências estupidamente felizes por si só.

E tem mais. Quanto mais eu puder incorporar a estúpida felicidade ao meu cotidiano, tanto melhor.

Agora, por exemplo, peço licença para ir ler ao sol. É feliz e é estúpido; é trabalho e é bom.

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6 Comentários on “Dias estupidamente felizes”

  1. #1 DJ Alguém Cantando Longe Daqui
    on Mar 11th, 2009 at 2:25 pm

    Epifania com o Toninho tocando é bico. Quero ver com ele cantando.

    [Reply]

  2. #2 lu
    on Mar 11th, 2009 at 4:10 pm

    ah, a gente tem mesmo um entendimento totalmente diferente do que sejam dias estupidamente felizes. o plural aí é só porque é um conjunto de dias, separados e aleatoriamente lembrados juntos, não têm continuidade nem se ligam com nenhum outro dia! o trabalho, essa felicidade aí que ele traz, é coisa contínua, não é coisa de um dia só. eu tou falando dessa felicidade - daí o estúpida - que tira a gente dessa noção de que a vida acontece. que mergulha a gente naquele momento, como um cachorro. você é feliz naquele instante, e só aquele instante é vivido, nenhum outro. não há a noção de camila permanente. só há o momento vivido agora, cru e sentido apenas. tipo numa transa muito muito boa, sei lá.
    entende? trabalho não tem nada a ver. mas não pelo fato de ser útil (que cá entre nós, é uma noção complicada demais pra mim. uma filósofa querer falar de utilidade no trabalho, hahaa. tou fora).

    [Reply]

  3. #3 Olivio
    on Mar 12th, 2009 at 4:25 am

    Pra voce ver como a felicidade é relativa. Eu fico contentíssimo de saber que voce vive dias estupidamente felizes e acho lindo uma vida cotidiana e produtiva estupidamente feliz, como a sua. Que bom voce sentir isso…
    Beijos.

    [Reply]

  4. #4 camilalpav
    on Mar 13th, 2009 at 11:03 pm

    DJ: se você acha isso do Toninho, imagino o que não pensará das sobrinhas. :-) P.S.: Nada de Joni por aqui… :-(((

    lu, entendo muito bem esse mergulho numa realidade em que sua “existência processual” se apaga e você só é naquele momento. Mas estou falando de uma felicidade estúpida diferente mesmo. Estúpida, no meu caso, no sentido de bobinha, disparada por coisas que teriam tudo para ser insignificantes - e não no sentido de “extremamente”, tipo “me vê uma cerva estupidamente gelada”. Acho que o seu estúpido de fato tá mais pra advérbio de intensidade do que de modo. Enfim, escrevi um pouco mais sobre isso no texto de hoje. Espero que você leia!

    Papai: mil beijos pra você.

    [Reply]

    lu Reply:

    não é só de intensidade, o meu estúpida; é de modo mesmo. estúpida porque não vai a lugar algum, porque despropositada… saca.
    (claro que li. leio TUDO!)
    bjo bjo!

    [Reply]

  5. #5 Um nada de sábado | Agora com dazibao no meio
    on Mar 14th, 2009 at 1:59 pm

    [...] Não por acaso, ontem conversei com uma amiga sobre o tema, papo esse sucedido pela leitura de um post com visões próprias do assunto — e bem próximas das minhas, vale dizer. (Abro parêntese para [...]

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