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Ansiedade e serenidade

In the fall of my freshman year of college, an English professor speaking to a group of parents was asked by one of the fathers what his job consisted of. The professor said he taught two classes that met for an hour and a half twice a week. The father asked what else he did, to which the professor replied, “Nothing. You see that’s what I’m paid to do - nothing. Only if I have nothing to do, do I have the freedom to go to a bookstore and ignore ‘the great books’ - the works of Shakespeare, Cervantes, Dante, Goethe, Proust, Joyce, Yeats, and Eliot. They and a great many other novelists, playwrights and poets are writers I would read and re-read if I felt I had only a limited amount of time to spend. But because I have time to waste, I am able to buy a book just because I like its title or am intrigued by its opening sentence or by a paragraph a hundred and fifty pages into it. Or I can read the ‘lesser’ works of Hardy or Conrad or Updike - books that very few people consider to be worth their time. I have time to read anything I like. How else could I happen upon good writers whom I’ve never heard of, who have never won a prize - even in high school - who don’t have a single famous friend to write an ecstatic blurb for the book jacket?

(Thomas Ogden, psicanalista favorito do blog)

Para a minha compreensão ginasial, é da tal serenidade heideggeriana que Ogden está falando acima. O que me parece bonito de reparar é que esse é um sentimento fundado na ilusão. Porque a verdade é que mesmo você sendo uma professora desocupada como eu - tão desocupada, aliás, que só vai começar a dar aula no semestre que vem - os great books não arrefecem nunca. Algum escritor que estou com preguiça de googlar disse que os livros procriam à noite pelas bibliotecas quando ninguém está vendo, e um professor com quem tenho aula amanhã disse que só quem nunca leu livro algum não sente a falta dos livros que ainda tem para ler. Quem nunca leu nada é um ser completo. Quem nunca assistiu ao primeiro episódio de The Wire é um ser completo. Só é faltoso o infeliz que mordeu a maçã, e assim por diante.

Esses dias um coleguinha estava me contando suas peripécias com sua segunda leitura de Cem Anos de Solidão. Ele leu uma vez quando era (ainda mais do que agora é) novinho e não gostou, mas como todo mundo fala tanto e tal - e como ele tem uma prova daqui a dois anos em que cai esse livro e uns outros cento e cinquenta -, ele decidiu ler de novo. Continua não gostando como da primeira vez. Eu olhei bem no olho dele e supliquei, mas coleguinha! Por que, coleguinha, por quê? Vai ler outra coisa - aliás, e pra início de conversa, vai ler O Amor nos Tempos do Cólera que é ainda melhor -, vai andar de bicicleta no parque, vai comer um cookie na lanchonete, vai fazer sexo, enfim, vai fazer alguma coisa útil e prazerosa na vida!

Como não sou idiota, tenho plena noção de que o que eu estava dizendo tinha muito mais a ver com moi-même do que com o incauto coleguinha gringo, que ficou me olhando com aquela cara de que as latinas são umas malucas mesmo. Porque eu tenho bastante claro para mim que a vida é curta demais e não vai dar tempo de fazer tudo o que eu quero. E isso é ridículo, por óbvio e inútil - tão inútil quanto se esforçar indefinidamente para apreciar um grande clássico da literatura universal. Dá até vergonha de falar dessa minha angústia temporal, de tão boba. Mas é preciso admitir que essa boba é quem eu sou, até porque tenho que conviver com ela diariamente.

No mesmo livro da citação acima, o psicanalista favorito do blog fala em algum momento (se estou com preguiça de googlar, imaginem folhear o livro atrás de outra citação) da alegria que o Bion tinha, perto do final da vida, em não saber. Brasicamente, ele ficava genuinamente feliz ao perceber que toda a experiência de vida dele até ali não era suficiente para apreender uma situação clínica logo de cara. E ele gostava da ideia de que iria morrer sem ter entendido nada direito. Eu não consigo pensar em sinal maior de maturidade intelectual do que esse. Porque hoje em dia, eu ainda acho, ainda tenho a esperança infantil de que um dia vou entender as pessoas que falam multissilabicamente em congresso. Quer dizer, na verdade eu oscilo. Às vezes acho que ninguém entende e não fala nada por educação, ou pelo bem do sistema. E às vezes acho também que sou muito hermeneuticazinha pra essa vida pós-moderna que a gente leva. Eu tenho muita dificuldade com os vazios de sentido, não consigo aceitá-los sem reclamar. Não é à toa que meu livro preferido continua sendo A Interpretação dos Sonhos. Porque o lance ali é dar sentido pro que for possível. The unexamined life is not worth living.

Mas se na busca por sentidos minha ansiedade é cada vez maior, na busca por afetos tem acontecido justo o contrário. Quando me perguntam sobre as férias, sobre o Brasil, eu sempre digo, não vejo a hora de chegar!!! E não é bem assim. Porque não há nada de desesperado nessa espera. É isso: é uma espera o que estou vivendo. Não um desespero. A passagem está marcada e estou feliz, e pronto. Já passei tempo demais num desespero muito grande de ter que encontrar o fulano imediatamente que o tempo estava passando e nada acontecia e eu ia morrer sem o fulano e o fim de tudo e aaaaaah. E não é que agora não? Tantas coisas não. Uma que não é um fulano - é a minha família, os meus amigos, o meu possível homem. Outra que agora tudo acontece - e por mais que eu queira muito família e amigos e homem, confesso não estar achando muita graça em ficar três meses longe da minha casa, da super cool gang, dos coleguinhas, da biblioteca, do parque, do cookie e do bonde.

E o tempo, o tempo corre objetivamente agora como corria antes. Só não tem mais o aaaaaaah. Tô nem aí pra urgência do tempo, esse dos afetos e das pessoas. Talvez pela segurança de ser amada. Quem me ama vai me esperar, e se não esperou é porque não amava, e se não amava eu também não quero. Só os livros que não, os livros não têm me amado muito ultimamente. Tem rolado uma paixão desproporcional mesmo, fracamente correspondida. Eu tenho gostado tanto das peças de teatro do século de ouro espanhol - mesmo quando não gosto, é difícil explicar - que de repente me deu a louca de estudar Shakespeare. O problema é que nem falar espanhol direito eu falo, então essas peças me tratam meio mal. Pra piorar, nunca sei o contexto histórico-escalafobético - quem era rei de onde, quem queria conquistar o quê, essas coisas que as pessoas normalmente sabem. Multiplique-se tudo isso que não sei e não consigo por três (matérias que estou fazendo) e eis a dimensão da minha afliçãozinha.

Cada um canaliza o próprio masoquismo para onde pode, enquanto não rola uma elaboração mais efetiva.

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8 Comentários on “Ansiedade e serenidade”

  1. #1 gugaalayon
    on Mar 19th, 2009 at 3:14 am

    mais efetiva do que isso?
    bj

    [Reply]

  2. #2 Jasao
    on Mar 19th, 2009 at 4:23 am

    efetiva ou (a)fetiva? (a boa e velha retoricazinha… hehehe)

    [Reply]

  3. #3 Olivio
    on Mar 19th, 2009 at 5:00 am

    Serena Camila, esperamos por voce ansiosamente, mas sem desespero… Sua chegada será como a Alvorada.
    Beijos com Cartola.

    [Reply]

  4. #4 camilalpav
    on Mar 19th, 2009 at 10:59 am

    Guga e Jasão, só vocês mesmo pra chegar até o fim do texto.

    Papai, que impressionante, eu estava pensando nessa música ontem.

    [Reply]

  5. #5 Bella
    on Mar 19th, 2009 at 2:21 pm

    Adorei o texto, como sempre, e cheguei até o fim!
    Qdo vc vem??? Nossa, mais vai ficar 3 meses?? Bastante msm!
    By the way, vai dar aula de q?
    Já respondi sua msg no Facebook.
    Bjks

    [Reply]

  6. #6 Jasao
    on Mar 19th, 2009 at 7:01 pm

    leio e releio tudo mesmo

    ;-)

    [Reply]

  7. #7 Bel
    on Mar 20th, 2009 at 7:11 pm

    Essa ansiedade pós-moderna só destrói a gente. Bom que vc tem se libertado dela…

    Mas quanto à serenidade, sério que vc acha que é um sentimento fundado na ilusão? Eu entendo de forma oposta: a serenidade pode ser sentida justamente (e somente) por aqueles mais “sabedores” de sua limitada condição de ser faltoso.

    Mas na medida em que Heidegger é um dos “great” da filosofia que eu nunca estudei, essa minha “forma” de entender é bem uma opinião pessoal mesmo.

    [Reply]

  8. #8 camilalpav
    on Mar 21st, 2009 at 12:36 pm

    Bella, você é uma linda mesmo - obrigada pelo link no FB! Vou dar aula de português para principiantes, embora o Brasil não seja um país para, etc. Depois te escrevo com calma - beijão!

    Bel, uma correção: tenho me libertado só de parte dela…

    E, quanto à ilusão, eu estava pensando na ilusão boa, winnicottiana, do espaço potencial criativo. Essa é a grande vantagem de escrever textos para um blog - você vai registrando as associações mais bisonhas que lhe ocorrem sem a menor preocupação com o rigor acadêmico. Eu sei lá o que Heidegger pensa da serenidade. Ou Winnicott, for that matter. Beijos e até já!

    [Reply]

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