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Pelas culturas deste mundo

Aceitei o convite do meu editor para traçar uma cronologia dos meus percalços culturais por este mundo. Não incluí quase nada que se referisse a música, para não complicar - com duas óbvias e necessárias exceções:

1982 - Nasci - evento que, se não é propriamente cultural, segue sendo o acontecimento da minha vida pelo qual sou mais grata até hoje.

1986 - Descubro a Turma da Mônica e começa a fase das repetições. Eu lia o mesmo gibi, de cada um dos personagens, todos os dias, até que saísse um gibi novo. Assim continuo fazendo com os demais objetos culturais listados daqui para frente: repetição pouca é bobagem.

1987 - Vejo Tom Jobim na TV pela primeira vez e, a partir daí, passo todas as manhãs cantando o show inteiro - Passarim, com a Banda Nova - na frente da bicicleta ergométrica, cujo guidão fazia as vezes de microfone.

1988 - Escrevo meus primeiros diário e jornal. O diário é pessoal e trata de dúvidas existenciais como com qual dos meus três namorados devo ficar. Já o jornal é engajado e trata da injustiça social no Brasil.

1990 - Meu pai me apresenta ao Pat Metheny Group, nome que me parecia análogo a Beatles ou Rolling Stones: eu não sabia que Pat Metheny era uma pessoa, e achava que o líder da banda era Lyle Mays, que tocava meio que tudo ao mesmo tempo. Hoje vejo que eu não estava tão distante assim da realidade.

1992 - Meu pai me dá o melhor presente de todos os tempos: as obras infantis completas de Monteiro Lobato. Costumo dizer que li cada um dos livros umas dez vezes, para acreditarem em mim. É mentira. Foi no mínimo umas cinquenta cada um, mas aí ninguém acredita. Tirem suas próprias conclusões.

1995 - Primeiro show do Pat Metheny Group, lágrimas, urros e a certeza de que eu tinha um lugar neste mundo.

1998 - Leio O amor nos tempos do cólera e fico imaginando se um dia irei sentir aquele tipo de coisa que os personagens sentem. Mal sabia eu.

2001 - Ganho um carro e passo a ir atrás de música ao vivo toda semana.

2002 - Leio Freud e descubro pela primeira vez na vida algo que realmente vale a pena estudar.

2003 - Leio O Idiota e No Caminho de Swann e descubro que essa história de irrepresentável e real lacaniano, na maioria dos casos, é papo de quem não sabe escrever. Dostoiévski e Proust representam.

2005 - Começa a saga LOST e desenvolvo um tipo de empatia que não faz a menor distinção entre os tripulantes do 815 e pessoas reais.

2006 - Auge da paixão por Thomas Ogden, meu psicanalista favorito. Leio todos os seus livros várias vezes, embora certamente menos de cinquenta.

2007 - Defendo o mestrado, única realização da minha vida que até hoje me dá os subsídios necessários para mandar a modéstia e a insegurança intelectual às favas.

2007 - Findo o mestrado, descubro que o exercício diário da escrita me faz uma falta que não tenho a menor condição ou interesse em suportar. Crio um blog para despejar meu falatório heideggeriano no mundo.

2008 - Por causa do blog, me mudo para New Orleans, aprendo espanhol e percebo que perdi meu tempo lendo Freud (para não falar nos autores do boom) em português.

2009 - Assisto a The Wire e me deixo envolver completamente pela melhor série da história.

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7 Comments on “Pelas culturas deste mundo”

  1. #1 Bel
    on Jun 1st, 2009 at 6:58 am

    desenho animado…? nenhum? Tipo da TV mesmo: Cavalo de Fogo, Thunder Cats, Jonny Quest, Tom&Jerry, Tin-Tin, Punky, Muppet Babies, etc etc…

    (se bem que, para quem ouvia Tom Jobim, acho que desenho nenhum fizesse seu gênero…)

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Hahaha, jura que você achou o texto elitista? Então, desenho animado da TV, nenhum. Em compensação, entrei no ciclo repetitivo com vários filmes da Disney: quando era bem pequenininha, Dumbo e Bambi; depois, Cinderella e Bela Adormecida; mais tarde ainda, praticamente pré-adolescente, A Pequena Sereia, Alladin e A Bela e A Fera. Mas, pensando hoje, por mais que tenham sido experiências marcantes não foram nada que se compare ao que sinto por LOST e The Wire, por exemplo - ou mesmo Alias e Seinfeld, for that matter. Já a Turma da Mônica é outra história. Meu entusiasmo pela Turma é perfeitamente comparável ao envolvimento com o Ogden, por exemplo. Um beijo!

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    Bel Reply:

    não achei elitista não… quer dizer, na verdade essa palavra nem sequer me ocorreu!!

    Só pensei que o gênero “bossa-nova-Tom-Jobim” não combina muito com aquele humor ou aquele drama característicos de desenhos animados infantis… Mas nossas preferências e escolhas nem sempre fazem muito sentido, né? ;-)

    (Me lembrei agora de um outro que eu adorava: o Pimentinha!!)

    beijos!

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  2. #2 Amanda Earley
    on Jun 1st, 2009 at 8:33 am

    Meu pai também me apresentou ao Pat Methany! Gostei muito de ler este blog! Espero que tudo esteja bem contigo! Saudades! um beijo,
    amanda.

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Oi, Amanda! O engraçado é que a gente conviveu um semestre e nunca falamos sobre isso - precisou do blog para a gente descobrir mais esta coisa em comum. Você já está em Atlanta, né? Quando vem para cá? Beijo!

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  3. #3 Olivio
    on Jun 1st, 2009 at 9:47 am

    É verdade: aquela coleção do Monteiro Lobato até gastou de tanto que voce leu…

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  4. #4 Olivio
    on Jun 1st, 2009 at 9:52 am

    Mas voce aos 5 anos de idade parando na frente da TV pra ver e ouvir o Tom Jobim e a Banda Nova tocando Passarim, Luiza, Lígia, etc… prá mim é inesquecível. E gostou tanto que depois revia diariamente e cantava…Só voce mesma, filhota!

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