Tá certo que esses títulos são difíceis de conferir, mas neste caso nem cogito estar enganada. A partir de hoje convivo com a certeza de que conheço o pior shopping do Brasil. Fica na frente da casa do Alex e eu só conseguia pensar que se de repente eu ganhasse um daqueles prêmios “mil reais para você gastar no nosso shopping, onde e como quiser!”, não teria por onde - eu não conseguiria gastar nem dez. Foi um momento capitalismo-fail dos mais puros, a experiência de passar por fileiras de vitrines e não avistar nada que eu nem remotamente acharia interessante ter, ou acharia interessante algum conhecido ter. Não estou nem falando de um impulso de compra claro e objetivo. Estou falando daquilo a que não damos atenção. Em qualquer shopping, você passa pelas vitrines e vai pensando um pensamento que mal atinge a consciência, “que legal esse tabuleiro de xadrez de pedra-sabão”, “esse sapatinho de verniz ficaria uma graça na minha futura sobrinha”, “essa blusa é linda mas não preciso de mais uma regata preta na minha vida” e assim por diante. É isso que o capitalismo faz conosco, inexoravelmente e sem perdão: produz essas ideias subreptícias que nos acompanham o tempo todo, e quando dezenas de vitrines não conseguem produzir nenhum desejo de coisa na sua alma, é porque a revolução socialista deve estar chegando. Então você descobre que a iminência da revolução socialista é uma experiência do mais profundo silêncio, porque num shopping normal você passeia com esse ruído de fundo das mercadorias desejáveis e convidativas, e só se dá conta do estardalhaço do canto mavioso delas e das notas mentais que você tece a seu respeito quando vai a um shopping onde finalmente nenhuma mercadoria sorri para você. Que é quando o princípio do absurdo entra em ação e você começa a se perguntar se, afinal, não está no melhor shopping que jamais existiu.
Mas aí você vê uma sex shop e pensa, que legal, um shopping com sex shop só podia ser no Rio de Janeiro mesmo. Já sentindo o comichão capitalista reacender-se, você entra na loja certa de que alguma coisa lhe há de sussurrar “compre!”, doce palavra ausente há tempo demais do seu cérebro. Afinal, como é que você não vai ter desejo de coisa numa pequena e artesanal sex shop de subúrbio? Ali, naquele cantinho proibido para menores de idade, resistia o último bastião do capitalismo do pior shopping do Brasil.
Véspera de dia dos namorados e a loja está repleta de giggly girls, expressão que não pode ser traduzida porque só a língua inglesa é capaz de transmitir o glugluglu inerente aos risinhos mal-disfarçados de certo tipo de pessoa que se sente na obrigação de justificar para alguém - a dona da loja, os outros clientes, deus - que diabo está fazendo num sex shop. Elas estavam comprando um presente de dia dos namorados para a amiga encalhada - porque elas, claro, lógico que elas obviamente não eram encalhadas, só a amiga infeliz. Elas estavam olhando calcinhas, e me juntei a elas, e nunca vi tanta ligerie feia concentrada num só rack - as cores, os cortes, os modelos, as tentativas de safadeza, as (muito mais graves) tentativas de elegância, os tecidos, o acabamento, tudo. Aí tinha também os vídeos - das ronaldinhas, patricinhas, molhadinhas, espevitadinhas, you name it - e meia dúzia de vibradores. Foi onde deu mais dó. Não é nem que as caixas dos vibradores estavam empoeiradas, embora também estivessem. Mas sabe quando o plástico-papelão da embalagem fica mole de tão velho? E o preço escrito com caneta bic na etiqueta de supermercado de bairro (aquela da bordinha vermelha) está borrada de tão gasta?*
Quando nem o sexo salva a vontade de consumir, não há concorrente possível ao posto de pior shopping do Brasil*.
* O Brasil é um lugar onde todo programa de TV depois das dez da noite (e frequentemente antes também) tem uma mulher pelada entre suas principais atrações, e é também um lugar onde, quando a funcionária da companhia aérea pede para você informar uma peça de roupa distintiva da mala que eles acabaram de perder e você responde “um sutiã pink”, dá uma de giggly girl e não escreve nada no formulário. Aí você repete, ouviu o que eu tô falando?, acabei de dizer “sutiã pink”, por que você não escreve??, e a funcionária segue solenemente te ignorando e enfim você se dá conta de que ó não, sutiã pink não pode!, onde já se viu tamanhã indecência e exposição gratuita de privacidade e sexualidade?, e a funcionária continua calada até que você suspira e diga - e ela anote - “vestido vermelho”, peça de roupa tão distintiva de um guarda-roupa feminino quanto um cachorro é excelente e raro representante da fauna brasileira.








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