Fui ver o John Boutté e em vez dele dei de cara com uma banda de salsa. Oh well. A cozinha estava super conga-la-conga, quadrada toda vida, nem tanto pela percussão como pelo baixo e piano - o baixista era o próprio coelhinho da Duracell em precisão e monotonia, e o tecladista seguia atrás bem perfeitinho. Mas o trompetista e o saxofonista eram bons. E, no primeiro improviso, o saxofonista me manda isso. Tremi. (Explicação só porque eu sou boazinha: este é um dos licks mais famosos do Michael Brecker, saxofonista e compositor que morreu há dois anos e que foi um dos músicos mais infuentes do mundo e da minha vida. Se você ainda não sabe do que estou falando, o post só piora daqui pra frente.) Porque esta é uma morte simbólica demais para mim. Porque ele, tirando o Jaco, é o primeiro dos grandes da geração dele a morrer. Para mim a morte do Jaco é menos simbólica da passagem do tempo porque foi morte matada, não era pra ter sido. Mas se a gente for ver, todos os outros - aquela geração que nasceu nos anos 40 e 50, e que é seguida basicamente por quem nasceu nos anos 60 e 70 (sou de 82 e sempre estou entre os mais jovens nas gigs desses caras) -: Herbie Hancock, Keith Jarrett, Wayne Shorter, Pat Metheny, Jack DeJohnette. Tá todo mundo aí. E quase todos eles estavam lá. Tremi ao ver isso também porque, ao vê-los juntos, fica tão claro. Tão evidente. Que eles ouvem outra coisa. Que a percepção que eles têm da música não tem nada a ver com a minha. Não é, veja bem, que eles estejam tocando em outro nível que o músico da esquina, blá blá. Isso é óbvio. O que deveria ser tão óbvio quanto, mas que às vezes eu esqueço, é que a audição deles também se dá numa outra dimensão. E é isso. Eu nunca vou saber em que mundo eles vivem, e isso é bonito. É bonito reconhecer o legado do Michael Brecker. O saxofonista mais influente depois do Coltrane, cujos ecos se ouvem até numa banda de salsa de New Orleans. Foi exatamente aquele lick clássico que o cara tocou. Mas não são só os licks que nego copia, claro. O próprio som do Chris Potter deve tanto ao Brecker. E, sabe, toda vez que ouço aquele som dele, seja onde for - só na semana passada, por exemplo, ouvi demais no Jazzpaña e no Gaucho -, tenho percebido que fico um pouco melancólica. Ou melhor: emocionada. Tenho uma reação bastante específica à morte prematura dele. Não fico empacada no “que merda, que merda” - obviamente, porque nunca tive nenhum contato pessoal com o cara. Mas é uma morte especialmente chocante porque, mais do que qualquer outra, aponta para a morte de toda aquela geração. E aponta para um privilégio também. O meu provilégio de, nesse mundão de milênios sem porteira, eu ter nascido a tempo. De cruzar com a música dele. Que passou tão rápido por aqui. E eu peguei! Eu peguei isso. De todos os jeitos que eu pude. Quando conheci, fui atrás de todos os discos que já tinham saído. Isso em 90 e muitos, mais ou menos. Depois, comecei a acompanhar os discos um por um, conforme iam saindo. Vi ao vivo. Baixei shows. Acessei o site. Enfim, o que dava. Fui feliz.
O último dele, eu gostei. Mas não está entre os meus emocionalmente preferidos. Os que me dão arrepio mesmo são: o primeiro, CityScape, Now You See It, Now You Don’t, Wide Angles e, principalmente, Time is of the Essence. Vale dizer que a opinião daqueles caras lá, que ouvem tudo diferente, é outra. Eles dizem que o último claramente é o melhor de todos. Já eu sinto muita saudade da 175 mesmo (papo manjado de fã birrento).
P.S.: Absolutamente todos os vídeos desta página valem a pena. Se quiser perder o dia, vá em frente.
P.P.S.: E no domingo tive uma refeição que também me fez dar graças a alguma entidade transcendente por eu ter nascido precisamente onde e quando nasci e ter feito precisamente tudo o que fiz até agora - tudo para que eu pudesse estar no Commander’s Palace ontem e comer
Hickory Smoked Pork Tenderloin - Creole spiced pork over sweet potato lyonnaise, summer herbs, barbecued red onions, a sunny side up egg and sauce béarnaise with strawberry cane syrup.
Ando bastante sensível. Apreciando com intensidade e gratidão cada vez maiores as coisas que realmente me importam. E poucas importam mais do que comida e música.








on Oct 20th, 2009 at 1:58 pm
Realmente o Brecker vai deixar saudade Camila.
Eu comprei uns anos atras um disco do Andreas Vollenweider e de repente um solo de sax numa das musicas e já no segundo compasso já deu pra sacar:
Mr Brecker!! É como se achassemos alguem muito querido numa foto por aí…
bjs do David
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camilalpav Reply:
October 23rd, 2009 at 7:33 am
Onomaia! Tão gostoso de ver aqui. E tão lindo o que você falou: pra mim é bem isso mesmo, minha relação com aquele som não é muito diferente da relação com uma pessoa querida. Beijos!
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on Oct 20th, 2009 at 4:03 pm
O primeiro contato auditivo que tive com o Brecker - eu tinha somente 14 anos de idade - foi num solo em uma bela canção de Simon and Garfunkel chamada “A Heart in New York”. Chorei com criança que era….
Daí pra frente, eu passei identificar o cara, em qualquer circunstancia, com a maior facilidade.
Esse cara é o maior de todos…
Saudade
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camilalpav Reply:
October 23rd, 2009 at 7:36 am
Onolima! Saudade de te ouvir contando essa história pessoalmente e, principalmente, de te ouvir tocando isso. Beijos, querido.
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on Oct 20th, 2009 at 8:10 pm
Bela elegia, Camila, a um dos poucos tenoristas definitivos. Sem conhecer tão bem sua discografia, a melhor memória que tenho de seu toque será sempre em Three Quartets, de Chick Corea - pudera, com aquele trio…
Uma nota bizarra. Por volta de 1989, assisti a uma masterclass dele na Manhattan School, ao fim da qual alguém perguntou, quando todos ainda estavam embasbacados com sua performance, qual boquilha ele usava. Inacreditável…
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camilalpav Reply:
October 23rd, 2009 at 7:37 am
Augusto, obrigada pela dica - meus conhecimentos do Chicória são bem restritos, não conheço esse 3 Quartets não. Ouvirei! Beijos!
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on Oct 20th, 2009 at 11:17 pm
Camila… Acabei de te conhecer nesse texto e te adorei…
Não conhecia esse genial trabalho até agora…
Deu também saudade de outros dois. Pianistas, feito eu tento ser. Como ninguém nunca será… Nos deixaram lindas ideias e lembranças: Joe Zawinul e Friederick Gulda…
Vou tentar sempre seguir seus devaneios, obrigado.
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camilalpav Reply:
October 23rd, 2009 at 7:40 am
Oi, Alexandre! Eu é que agradeço - ego de blogueiro é que nem pneu, precisa ser constantemente inflado (mais uma pra série “piores metáforas”). Não conheço Friederick Gulda - esse não é do jais, né? Guglarei-o. Beijos e espero que você volte sim - o blog é bem pessoal e bobinho, mas pelo menos é limpinho e não faz mal a ninguém. Um beijo!
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on Oct 22nd, 2009 at 5:52 am
Olá Camila, eu tambem acabo de te conhecer nesse texto, adorei o texto, você por gostar das coisas que tambem gosto e do blog que é muitíssimo bem elaborado, você quebra tudo, joga bem, tem ginga e deve ser artilheira, joga bola tambem, né?
Informação é com você, quem dera os blogs que encontro por aí fossem 10% do nível do teu.
Fiquei de cara.
O Brecker é tudo isso, me apaixonei por ele na primeira vez que ouví, no Three Quartets do Chick, mas depois foi acontecendo tudo, fui cruzando ele nos discos dos meus outros amores, a Joni Mitchell, Brecker Bros. e etc… Até ele começar os dele, o primeiro é dos meus preferidos, ô timinho danado alí, hein!!!
Enfim, parabens pelo teu blog e comentarios. Sou músico e moro na Italia, Milão. http://www.mypace.com/rubinhojacob23
Obrigado e abraço, continue, estarei por aquí te acompanhando nas novas e velhas, por sinal “preferidas”.
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camilalpav Reply:
October 23rd, 2009 at 7:46 am
… e o pneu agora deve estar nuns 32 já (vide resposta acima). :-P
Mais uma pessoa falando desse tal 3 Quartets, meodeos, agora vou ter que ver qualé mesmo. Obrigada pelo comentário e pela dica, Rubinho - e parabéns pelo trabalho!
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on Oct 23rd, 2009 at 9:51 am
Uma exaltação à beleza, escrita por quem conhece do assunto.
Michael para sempre.
Beijo.
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