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Histórias de Empatia (II)

Aeroporto de Guarulhos, um dia da semana qualquer, oito da noite. Para os que não têm voado de ou para São Paulo, já faz anos que a Rodoviária do Tietê ganha do aeroporto em transitabilidade e organização.

A fila do check-in é longa, a vida é curta e a mulher à minha frente - uma bem-conservada quarentona de lindos olhos azuis e cabelos loiros presos num simpático rabo de cavalo - expõe sua filosofia:

- Esse país não tem mais jeito. Antes, há uns dez anos atrás, viajar era um chiquê, coisa pra poucos, minha filha! Vir pro aeroporto era sinal de status, de superioridade. Agora?? Qualquer zé-povinho vai pra onde quer, não tem mais disso não. O cara ganha mil reais por mês e viaja sabe pra onde? Pra Disney!! Ele parcela em mil vezes e taí, indo pra Disney agora, um absurdo. Por isso que esse país não tem mais jeito. Ah, e sabe do que mais? O cara que ganha mil reais por mês ainda compra sabe o quê? Um carro! E um carro zero, ainda por cima! Ele parcela em outras mil vezes e pega a marginal pra vir pro aeroporto viajar pra Disney! Por isso que São Paulo tá assim, com esse trânsito na marginal e essa fila no aeroporto. O Brasil não tem mais jeito.

***

Respostas possíveis:

- É isso mesmo, minha senhora. A ascensão do pobre à classe média é o maior problema deste país. E digo mais: ou o Brasil acaba com o pobre antes que ele melhore de vida, ou o pobre acaba com o Brasil!

- Eu estou passando por uma situação parecida, moça. Veja, sou professora de português e há dez anos (porque, só pra constar, “há dez anos atrás” é muito feio, moça) meus alunos eram uns vagabundos que não queriam saber de nada, não se interessavam pela matéria, só queriam jogar videogame e não liam nem revista de mulher pelada… Agora?? É uma loucura! Eles vão lendo tudo o que aparece pela frente - Cervantes, Machado, Lispector - com uma voracidade, um tesão - é um horror! Por isso que a bilbioteca lá da escola está inviável, sempre lotada, os livros todos emprestados - tudo culpa desses alunos que agora se empolgaram e deram pra ler, ora veja só!

- É que essas pessoas não são como você, minha senhora - aí é que está o grande problema deste país. Porque veja: se a senhora ganhasse mil reais por mês há dez anos, tenho certeza de que agora, por um senso de civilidade que lhe é inato, a senhora jamais viajaria pra Disney ou compraria um carro zero só porque o seu poder aquisitivo assim lhe permite. Claro que não! Onde já se viu botar as asinhas de fora desse jeito? A senhora, pessoa de classe, continuaria viajando pra Praia Grande e dirigindo seu Corcel tranquilamente; jamais teria a audácia de invadir lugares de ricos como o aeroporto internacional e a concessionária de automóveis. Ah, se os pobres de hoje somente soubessem o seu lugar!

- Exato. E não só o zé-povinho é culpado pelo caos nas marginais e nos aeroportos, como a Geisy é culpada pelo seu linchamento, a Palestina é culpada pelos ataques israelenses e minha avó é culpada por não ter recebido o visto para os Estados Unidos. É, é exatamente isso.

***

Foi bom desabafar aqui todas as respostas irônicas e raivosas que, naquela situação, não pronunciei. E, se não as disse, foi menos pela preguiça de criar caso com uma desconhecida no aeroporto do que pela constatação de que aquela mulher era uma pessoa exatamente como eu. Uma pessoa, a princípio, boa - que não quer que os outros se fodam, que se fosse indagada abstratamente sobre a diminuição da desigualdade de renda no Brasil certamente responderia que isso é uma excelente coisa e que provavelmente contribui com alguma instituição de caridade todo final de ano.

Esta é a mesma pessoa que não consegue ver que, se o caos nas marginais e aeroportos está grande, então talvez sejam necessários mais investimentos em infra-estrutura (transporte público de qualidade e ampliação dos aeroportos) - e não menos brasileiros com um poder aquisitivo cada vez maior (para comprar carros e passagens aéreas).

A série “Histórias de Empatia” é composta de pequenos relatos nos quais a Empatia, justamente por sua ausência, é o personagem principal.

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10 Comments on “Histórias de Empatia (II)”

  1. #1 Daniel
    on Jan 12th, 2010 at 9:07 pm

    Tu fez bem em não dar trela. Quando eu topo com uma pessoa assim eu me faço é de doido - “Rapaz, sabe que eu tava pensando isso agorinha mesmo?”

    Mais vale um post.

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  2. #2 Bruno Pinheiro
    on Jan 12th, 2010 at 10:56 pm

    Você devia ter respondido: “Bom mesmo devia ser nos tempos da Panair! Saía até no jornal os nomes dos passageiros. Aquilo sim era exclusividade!” :-)

    Bj

    [Reply]

  3. #3 Carla
    on Jan 13th, 2010 at 7:52 am

    To com o Daniel, se fazer de doido e a melhor coisa. Cachorro velho nao aprende truque novo, nao adianta.

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  4. #4 Ulisses Adirt
    on Jan 13th, 2010 at 9:38 am

    “- Perdoe-me, minha senhora, mas você está redondamente enganada. Não são eles que fazem o que não podiam fazer, é você que ficou pobre demais para subir de vida. Se você fosse chique de verdade, você não pegaria trânsito pela cidade, pois teria um helicóptero. Se você fosse realmente rica, você teria seu próprio aeroporto particular e nenhum desses problemas de Zé Povinho – como fila de aeroporto – incomodariam você.”.

    P.S.: Adorei a segunda opção de resposta.

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  5. #5 Twitter Trackbacks for Histórias de Empatia (II) – Recordar, Repetir e Elaborar [opsblog.org] on Topsy.com
    on Jan 13th, 2010 at 2:28 pm

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  6. #6 Bel
    on Jan 13th, 2010 at 6:14 pm

    o que eu achei mais surpreendente, e verdadeira, foi a sua conclusão final de que “aquela mulher” é exatamente como vc (e como eu e como tantos outros…). E que, portanto, teria sido talvez um ato “evacuativo” - e sem nenhum bom efeito - dar a ela alguma das respostas irônicas e raivosas. Bacana a sua percepção! ;-)

    beijo, querida.

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  7. #7 Camila S.
    on Jan 13th, 2010 at 10:01 pm

    É em situações como essa que o melhor caminho mesmo é balançar a cabeça e dizer pois é… A ignorância é surda e cega. Só uma grande pena não ser também muda.

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  8. #8 Olivio
    on Jan 14th, 2010 at 3:11 am

    Eu também acho a Rodoviária do Tietê mais organizada que o aeroporto de Cumbica. E tem bastante cadeira pra sentar e esperar…

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  9. #9 Junior
    on Jan 14th, 2010 at 2:25 pm

    Em uma entrevista que fala sobre a corrupção, o Joaquim Barbosa, Min. do STF, deu uma resposta que tem muito a ver com essa sra:
    “A elite pensante do país deveria se engajar mais?
    JOAQUIM: Sim. Ela deveria abandonar a clivagem ideológica e partidária que guia suas manifestações.”

    No entanto, o mais interessante é o editorial totalmente parcial que “O Globo” fez a partir dessa frase do ministro. O blog que eu “linkei” abaixo (e que eu não conhecia, foi indicado por um amigo) explica todo o caso e publica a entrevista original do Min. Joaquim e o editorial parcial de “O Globo.”
    http://www.diariodoposte.com.br/profiles/blogs/a-manipulacao-grosseira-de-o?xg_source=activity

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  10. #10 camilalpav
    on Jan 14th, 2010 at 11:16 pm

    Obrigada pela leitura, querid@s. Me fez um bem enorme escrever este texto; que bom ver que vocês se deram ao trabalho de lê-lo. Beijos e bom fim de semana.

    [Reply]

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