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O desamparo e o abandono

Eu não sei nada de história, nada das guerras e das políticas do mundo. Sou apenas mais uma meio intelectual meio de esquerda meio fajuta que nunca estudou nada direito, que em algum momento leu um pouco de psicanálise e em todos os momentos ouviu muita música, e essa daí sou eu.

Infelizmente, este não foi um parágrafo introdutório de falsa modéstia que agora irei refutar safadamente com considerações brilhantes sobre a geopolítica mundial. Não porque eu não seja falsa, mas só porque a modéstia não me atrai. Querem ver como eu sou foda? Sou a digitadora mais rápida que eu conheço e tenho uma capacidade aparentemente infinita de memorizar solos do Pat e falas do Seinfeld. Eu amo os meus talentos.

Portanto, quando digo que não sei nada de história, nada das guerras e das políticas do mundo, é pra acreditar. Se eu soubesse, diria com o maior orgulho. Como não sei, hoje descobri uma coisa que certamente é perfeitamente sabida pelas pessoas bem-informadas e politizadas no mundo. Eu não sabia, e talvez agora eu tenha que me tornar uma dessas pessoas.

***

Sabe. Quando a gente estuda, ou ouve falar, ou vê um filme, qualquer coisa - sobre uma guerra. Ou, quando se quer suavizar, “conflito”. Eu sou capaz de pensar em duas configurações. A primeira, básica, é A contra B, claro. E a outra, que talvez não deva ser chamada de guerra e sim de dominação, massacre ou horror generalizado, é quando A ou B resolve foder com a população, ou parte dela. Se eu for pensar em todas as guerras e massacres de que eu, leiguissimamente, já tive notícia, vai ser meio que uma coisa ou outra. Estou ignorando a complexidade das coisas? Sim. Estou sim-pli-fi-can-do. Justamente para entender melhor esta outra, para mim inédita, configuração:

Imaginem que A está contra B. E, juntos, A e B fodem com a população, numa mescla das duas situações acima. E quando eu digo que fodem, não quero dizer que A e B ficam lá brigando e pro povo, sei lá, falta água, comida, diversão e arte. Estou dizendo que a briga de A contra B, em termos práticos, consiste justamente no extermínio de parte (bem específica) da população.

***

No excelente The Gift of Fear, o autor propõe um exercício fascinante: “pense na maior violência, na maior crueldade que você acha que um ser humano é capaz de infligir a outro”.

Pensaram aí?

Diz o autor que, se você imaginou X, pode estar certo de que em algum lugar, de alguma forma, alguém já fez, está fazendo ou fará X a outra pessoa.

Mas e quando você se dá conta de que existe um tipo de violência que nem seus impulsos mais sádicos foram capazes de conceber?

***

Região serrana do Peru, anos 80. Tínhamos de um lado - quem mais? - o Exército, defendendo a nação da ameaça comunista. Para isso, a estratégia adotada foi matar milhares de camponeses - índios, pobres e analfabetos. Do outro, o Sendero Luminoso, tentando instalar no país a ditadura do proletariado. Para isso, a estratégia adotada foi matar milhares de camponeses - índios, pobres e analfabetos.

???

Vocês me desculpem, mas eu nunca tinha visto isso. Na minha ignorância, eu não sabia que isso existia: A e B, em guerra!, em oposição!, na prática, ambos, matando C.

Não era mais fácil se unirem e matarem os camponeses todos juntos duma vez?

***

Quando se fala num povo massacrado por outro, ou 1) se fala também num terceiro povo que vem em seu socorro; 2) não chega socorro algum, o povo é massacrado mesmo e acabou. O que eu não conhecia era um povo massacrado duas vezes, por instituições diferentes, com objetivos diferentes - e, no entanto, com métodos tão parecidos.

Aí temos, portanto, meu mais recente exemplo paradigmático de abandono total e supremo: esses índios peruanos, além de sofrerem a violência duas vezes, não receberam ajuda de lado algum. Formaram suas próprias milícias e perpetraram ainda mais violência.

Não quero com isso estabelecer algum ranking idiota da violência e ver qual povo sofreu mais, se os peruanos ou os palestinos ou os guaranis. Aliás, sofrimento por sofrimento o maior de todos é o meu - por estar longe do meu amor - e fim de papo. Como se vê, sofrimento não é coisa que se mensure.

Sofrimento é coisa que se sente, e posso dizer que, desta vez, senti forte. O desamparo e o abandono.

***

Eu disse antes que alguns tipos de violência eu não era nem capaz de conceber.

Ainda bem que, antes ainda, eu disse também que já li um pouco de psicanálise.

Ora, é claro que eu era capaz de conceber - apenas não conscientemente. Se isso me tocou tão fundo, foi pela profundidade com que o desamparo e o abandono estão arraigados em mim. Hoje, enfim, presenciei um grande show do Retorno do Recalcado (vejam se não é um excelente nome para uma banda de heavy metal).

***

E agora vocês me dão licença que preciso transformar este post num texto acadêmico - e em espanhol ainda por cima -, enquanto meu amor não vem.

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5 Comentários on “O desamparo e o abandono”

  1. #1 Bella
    on Jan 23rd, 2010 at 9:00 am

    Camila, excelente post, como sempre! Ando sumida, mas dou sempre um pulo aqui!
    Bjs

    [Reply]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jan 23rd, 2010 at 6:39 pm

    Coisa boa ler um texto teu num sábado. Não, só no sábado não, pode ser qualquer dia da semana!

    Beijos

    P.S. Tô ouvindo neste momento o último cd do Peter Gabriel, Scratch My Back. Tô gostando muito de algumas das versões que ele fez para para David Bowie, Paul Simon, Bruce Springsteen e outros. (Ouvi dizer que tem o álbum nos torrents da vida, diga-se de passagem…)

    [Reply]

  3. #3 Twitter Trackbacks for O desamparo e o abandono – Recordar, Repetir e Elaborar [opsblog.org] on Topsy.com
    on Jan 24th, 2010 at 9:50 pm

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  4. #4 Olivio
    on Jan 27th, 2010 at 5:40 am

    Excelente Camilú: nas guerras o único vencedor é o fabricante dos armamentos e munições. Simplifiquei, mas é o que eu sei fazer… Besos!

    [Reply]

  5. #5 Rafael Reinehr
    on Feb 1st, 2010 at 12:42 pm

    Tem um ótimo livro do Chomsky sobre a intervenção dos estados unidos na américa central, mas aí já estou complicando demais. Espera: mas o Peru fica no Oriente médio, não é? Parece que é de lá que vem o Natal e toda a tradição de comer Peru e tudo o mais… Ou não?

    [Reply]

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