Submarino.com.br
Recordar, Repetir e Elaborar Rotating Header Image

Odeio Congresso

A minha profissão me oferece diversas oportunidades para eu me sentir uma fraude. Sinto-me uma fraude sempre que não consigo terminar as leituras complementares para uma aula (vamos todos fingir de pés juntos que sempre termino as leituras obrigatórias); sempre que meus aluninhos de português têm alguma dúvida gramatical que não sei solucionar; sempre que não consigo encontrar um livro na prateleira da biblioteca, por uma incompreensão atávica das leis de ordenação do alfabeto.

Mas nenhuma situação me faz sentir mais fraude do que um congresso acadêmico.

Existem três tipos de palestrantes num congresso acadêmico.

Há o palestrante perfeito. Aquele que alia à qualidade de sua produção acadêmica o brilho da performance. Esse é o tipo de pessoa que pode falar sobre a reprodução das mariposas ou o comércio de açaí no Leste Europeu, que você sempre vai achar o assunto mais interessante e relevante do mundo. Isso, infeliz e obviamente, corresponde a apenas 5% do total de palestrantes. Repare que não estou dizendo que você precisa ser um gênio na sua área para ser o que estou chamando de palestrante perfeito. Você deve simplesmente ter um bom trabalho, e saber apresentá-lo com o grau de convencimento que só um bom ator (que, paradoxalmente, sabemos que está “apenas interpretando”!) consegue passar. Eu não sei como essas pessoas fazem isso – se soubesse, faria também – eu não sei justamente porque é difícil; porque é coisa para aquelas poucas pessoas que têm mais de um talento na vida.

Há o palestrante que se esforça. Esse definitivamente não tem habilidades cênicas natas, mas tem um bom trabalho sobre um tema que me interessa e eu percebo que ele faz um esforço para comunicar-se comigo. Ele fala frases que fazem sentido e olha nos meus olhos. Se esse cara estivesse falando sobre o comércio das mariposas, eu não daria a mínima para ele – seu talento performático não é suficiente para prender minha atenção por si só. Mas, se ele fala de um tema que me interessa, eu consigo, com um mínimo de atenção e de sincera curiosidade, acompanhar e usufruir de sua apresentação. Nesta categoria se encontra mais uns 5% da população palestral.

Sobre ela eu posso falar com algum conhecimento de causa porque esse é o tipo de palestrante que eu sou (ou, no mínimo, me esforço sinceramente para ser). Não sou nenhuma Meryl Streep, ninguém olha para mim por causa de meu sorriso cativante, meus belos olhos ou minha movimentação dramática. Mas, os que prestarem atenção no que tenho a dizer, esses claramente vão perceber que estou tentando estabelecer uma conexão com eles. E em que consiste essa conexão?

Em basicamente duas coisas. Primeiro, é uma preocupação em distinguir um texto que será lido de um texto que será falado. Então, o palestrante desta categoria transforma frases como “este ensaio buscará acercar-se de” em coisas como “hoje eu vou falar com vocês sobre”. Além disso, esse palestrante, por meio do contato visual, da entonação que aplica à sua leitura e do conjunto da sua postura física, mostra que está ativamente envolvido em trazer o público para perto de si.

Por fim, há os outros palestrantes. Que baixam os olhos para o texto e leem-no exatamente como foram ou serão publicados num jornal acadêmico.

É um momento importante e difícil na vida de uma pessoa quando você pára de querer que o mundo mude em função dos seus próprios gostos e necessidades e percebe que quem tem que mudar é você mesmo. Alguns diriam que isso é amadurecimento emocional (não sou mais o Homem Renascentista, centro do universo e medida de todas as coisas); outros, que é o abandono do idealismo e a submissão a um conservadorismo desanimador (não adianta mais tentar mudar o mundo; melhor me conformar; o sonho acabou).

Qualquer que seja o caso, é este o momento que atravesso agora ao admitir que não adianta esperar que 90% dos palestrantes de um congresso acadêmico sejam diferentes do que são. Se fossem, não seria um congresso acadêmico: tratar-se-ia de um evento realmente relevante e interessante.

Então, já que isso nunca vai mudar e se eu quiser continuar na vida acadêmica ainda vou ter de participar de muitos e muitos congressos, resta assumir e encarar o meu problema.

Porque sim, para mim é um problema. É um esforço e é um sofrimento.

O problema é que sou fisiologicamente, fisicamente incapaz de prestar atenção ao palestrante-padrão-90% de um congresso acadêmico. Aquele que baixa os olhos e lê, lê, lê.

Eis uma tentativa de descrição aproximada da minha vida mental enquanto isso acontece:

A objetificação do sujeito epistemológico na contemporaneidade… Nossa, que vontade de comer bolo de fubá. Será que eu acho fubá aqui no mercado? Como é mesmo fubá em inglês? Os personagens adquirem um tom hitchcockiano, quando não freudiano… No mercado bom deve ter. Será que é caro? Mas também, como eu poderia saber? Eu não tenho ideia de quanto custa um pacote de fubá no Brasil. Porque de acordo com Lacan, Deleuze e Adorno… Quando eu fizer um bolo de fubá vou lembrar de tirar todos os ingredientes da geladeira meia hora antes, para que tudo esteja na temperatura ambiente. Puxa, preciso comprar leite, também. Para fazer o bolo e também para tomar com o bolo. Aliás, que mais que está faltando em casa… Papel-toalha!! Não posso esquecer de jeito nenhum. A trama fala da ontologia reificada que assola o indivíduo… Preciso entender direito como vai a reforma do sistema de saúde, estou tão desinformada. Quem será que vai ter paciência pra me explicar isso. Porque segundo Nietzsche, Heidegger e Habermas… Que saudade do meu amor!!! Que vontade de estar deitada em cima dele AGORA!!! Seria o livro uma interpretação radical do comunismo finlandês? … abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim … ♫ Ou seria uma desconstrução da narrativa peripatética? Tenho tanta coisa para ler esta semana. Acho que amanhã não vai dar pra fazer faxina não. Concluindo, a trajetória até aqui efetuada permitiu-nos hipotetizar… Acho que eu preciso escrever sobre isso no blog.

Repare que minha desconcentração nada tem a ver com o conteúdo do texto em si. Pode ter sido um texto brilhante. Pode ter sido um texto jacu. A verdade é que jamais saberei e isso é desesperador, porque penso em quantos textos brilhantes, sobre assuntos que me interessam, eu posso estar perdendo (se bem que também tem a contraparte – certamente estou perdendo vários textos medíocres, graças à minha medíocre capacidade de concentração). Mas se eu conseguisse prestar atenção eu pelo menos saberia, depois de cinco minutos de fala, que o texto do palestrante é medíocre e deixaria de me importar por livre escolha.

Atualmente, não tenho escolha. Eu simplesmente não consigo, e dicas de concentração que não envolvam estimulantes químicos serão muito bem-vindas.

Share and Enjoy:
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google

15 Comentários on “Odeio Congresso”

  1. #1 mary w
    on Mar 8th, 2010 at 10:39 pm

    a unica coisa q funciona, um pouco, pra mim, é anotar o q a pessoa ta falando.

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Quando tento fazer isso, na mais sincera intenção de me entregar à fala do outro, eu me entrego mesmo é à minha fala interior e acabo anotando meus próprios devaneios…

    [Reply]

  2. #2 Anjo
    on Mar 8th, 2010 at 11:36 pm

    Dicas passo a passo, pois o sono é forte, e se deixar pra depois esqueço de escrever.
    1. pega o folder do evento e marca as palestras que interessam pelo tema;
    2. pesquisa o autor, e dá uma lida nos abstracts de artigos sobre o tema que ele tenha escrito, “por cima”;
    3. se o tema interessa, e o outor escreveu algo que presta, senta na plateia e te concentra na apresentação no inicio para ver se vai prestar o negócio, com marcações que te chamem a atenção, por exemplo eu preciso de marcadores visuais como roupa, luz e movimentos.
    Boa sorte guria, bjs

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Puxa, guri, um dia vou ser CDF como você! :-D Tudo bem por aí? Beijos!

    [Reply]

    Anjo Reply:

    tudo ótimo, estou em chapecó, de mudança. passei num concurso. E isso não é pra ser cdf, mas pra organizar o horário de passeio mesmo, pra perder tudo que não for interessante.
    Bjs

    [Reply]

  3. #3 Carlos
    on Mar 9th, 2010 at 5:08 am

    Vocês acadêmicos são tão “miseráveis”…
    (Amei a descrição mental, me ocorre o mesmo mas quando converso com as pessoas em geral).

    [Reply]

  4. #4 Haline
    on Mar 9th, 2010 at 5:48 am

    A melhor maneira de passar por isso é arrumar outra atividade. Ano retrasado eu tive aula de artes com um cara q era um pé no saco. Mas o conteudo era interessante, ele entendia pacas, mas pqp, não dava pra assistir. Dai q eu levava o gravador e ao inves de assistir ficava estudando espanhol. Quase duas horas de aula. Depois eu ficava ouvindo a aula e anotando coisas que me interessavam.

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Ah sim – uma vez que você não está conseguindo prestar atenção, mais vale fazer alguma outra coisa minimamente produtiva. É o que quase sempre acabo fazendo – eu só queria tentar alguma outra estratégia antes do entreguismo total e completo, sabe? Talvez anotar seja uma boa, como a Mary W falou – e manter o espírito firme e forte pra não começar a escrever letra de música ou desenhar coraçõezinhos.

    P.S.: Eu quero o bacalhau do Sarney!

    [Reply]

  5. #5 daniel
    on Mar 9th, 2010 at 8:47 am

    A solução é bolo de rosca com caroço e café preto… hum, que delícia!

    [Reply]

  6. #6 Ulisses Adirt
    on Mar 9th, 2010 at 9:18 am

    Sempre adoram minhas palestras; mesmo assim, eu fico nervoso quando estou dando palestras… Eu precisava de dicas para saber como não ficar tão nervoso. :-)

    Quanto a palestras lidas, a não ser q seja uma aula magna, eu levanto e vou embora. Se o palestrante não tem respeito pelo público, não preciso ter respeito por ele. Caso a produção acadêmica do infeliz seja interessante, mais tarde eu leio o texto da palestra. O tempo q eu perco vendo palestras-lidas-chatas, eu posso ganhar lendo eu mesmo na biblioteca.

    Ops… dei uma anti-dica… sorry.

    P.S.: Caí de dar risada com a sua narração da palestra-lida.

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    É isso que o Alex sempre me fala, Ulisses. Mas é que às vezes pega mal não estar presente em determinadas palestras… Beijos e obrigada pelas suas risadas!

    [Reply]

    Carla Reply:

    Camila, eu to com o Ulisses. No caso da palestra lida, nao e sua culpa nao ter prestado atencao, mas do palestrante. Se precisa estar fisicamente presente, joga paciencia no celular. O que tem de professor respeitado na minha universidade que dorme a palestra inteira, nao e brincadeira. Quando eles saem, falam mal do palestrante e fica tudo certo. A culpa e sempre de quem nao conseguiu lhes prender a atencao.

    [Reply]

  7. #7 jorge
    on Mar 9th, 2010 at 3:56 pm

    os congressos acadêmicos terminam no fundo sendo um auto-engano, da ideia da troca de informações e da crença os tantos e inadivertidos trabalhos tem alguma relevância…

    Ah meditação ajuda na concetração, …. mas precisa dela para começar

    abç

    [Reply]

    camilalpav Reply:

    Pra mim, pela minha dificuldade de concentração, acabam sendo o maior engodo mesmo. Eu ganho muito mais lendo sozinha na minha casa o texto do palestrante do que ouvindo-o falar. Mas é bom lembrar que sou a exceção, não a regra – não dá para descartar sumariamente os congressos acadêmicos com base na experiência de uma desconcentrada como eu…

    [Reply]

  8. #8 Olivio
    on Mar 10th, 2010 at 1:12 pm

    Camila, voce é uma “sigura”!

    [Reply]

Deixe um comentário