“Eu estava, por um grato acaso, numa mesa cheia daquelas alunas [de Psicologia da PUC], num bar da Vila Madalena. Como havíamos lido Mal estar na civilização aquele semestre, achei que poderia ser um assunto interessante. Que nada. Foi só começar a falar e elas me olharam com profundo desdém. “Vocês não gostam de Freud?”, perguntei, sem entender. “Não”, elas disseram, em coro. “Mas então, do que vocês gostam?” “Fenô”, responderam, sempre unidas. Fenô??? What the hell is fenô?!. “Fenomenologia”, disse uma delas, ajeitando graciosamente os cabelos atrás de uma orelha. E do que trata a fenomenologia? “Tipo assim… Imagina um chinelo”. Um chinelo??? “É, um chinelo jogado num canto. Freud vai olhar pra esse chinelo e perguntar quem é a mãe do chinelo, o pai do chinelo, os avós do chinelo” – e nesse ponto todas faziam cara de fastio diante do laborioso escrutínio freudiano acerca da genealogia do chinelo – “já a fenô, não.” A garota sorriu, arrumou mais uma vez o cabelo e, como um toureiro que dá o golpe de misericórdia no touro moribundo – eu – terminou de explicar: “A fenô olha pro chinelo e tenta entender o chinelo mesmo, tá ligado? O chinelo do jeito que ele é, do jeito que ele tá. O chinelo enquanto chinelo. E só.” Olé!” (Antonio Prata, O Chinelo)
Antonio Prata já disse tudo literariamente, mas como sou blogueira e sempre acho que tenho algo a dizer, hoje vou dizer o que tenho em linguagem semi-acadêmica.
A crítica da Fenomenologia – aquela que os estudantes paulistanos de classe média aprendem nos cursos de Psicologia da USP e da PUC – à Psicanálise vai além da insistência freudiana em investigar as relações familiares dos pacientes. Condenável mesmo, para esta Fenomenologia, é a insistência de Freud em recorrer a modelos mecânicos e hidráulicos diversos para explicar o funcionamento do psiquismo, como se o sistema psíquico fosse uma máquina. A Psicanálise fala, por exemplo, em um desejo que se acumula no inconsciente e precisa ser descarregado. Repare que se esse mesmo pensamento é formulado em termos puramente hermenêuticos, sem fazer referência a quantidades, lugares e sistemas de descarga – “o desejo precisa ser realizado (ainda que inconscientemente)” -, está tudo bem para a Fenomenologia. O problema são mesmo essas maquininhas imaginárias chatas e bobas, que nos afastam do plano do sentido (a realização do desejo) e nos forçam a pensar em termos econômicos (quantidades, acúmulos, descargas), dinâmicas (deslocamentos, condensações, transferências) e tópicos (inconsciente, ego, superego).
Os próprios termos “funcionamento” e “sistema” já entregam as raízes cientificistas do pensamento freudiano: se a Biologia já recorrera à Física para explicar o corpo, agora vinha Freud com a mesma pataquada reducionista. E, com isso, perdia-se justamente o mais fundamental do chinelo: o chinelo-enquanto-chinelo, o chinelo no seu devir chinelo, o chinelo na sua mais pura existência. Mas esta Fenomenologia, que não é nada boba, sabe desculpar o Freud original em alemão, o Freud roots, o Freud moleque, pois este se expressava numa linguagem muito mais cotidiana (e, portanto, menos impregnada de maquinarias) do que seu tradutor para o inglês gostaria de admitir. Ainda assim, essas desculpas não são ilimitadas: não é possível ignorar toda a metapsicologia freudiana; não é possível ignorar o conceito de pulsão.
Ignorar, porém, é justamente o que uma certa corrente da Psicanálise – auto-intitulada winnicottiana – faz: jogam fora a parte chata do Freud, e ficam com a parte legal. A parte legal, para estes psicanalistas, é a dos sentidos; a chata, é a dos afetos, tão difíceis (talvez impossíveis?) de serem colocados em palavras. Tão difíceis, que Freud teve de recorrer às maquininhas para tentar manejá-los como conceitos.
Resumindo até aqui para ninguém dizer que não sou boazinha: para fenomenólogos e para alguns psicanalistas, tudo quanto é elucubração metapsicológica calcada em sistemas hidráulicos e mecânicos é puro engodo cientificista. Devemos mesmo é nos preocupar com as histórias, as narrativas, as produções de sentido.
Mas eis que de repente eu me deparo com o engodo cientificista no mais insuspeito dos lugares: num estudo antropológico de comunidades andinas, que não podem exatamente ser acusadas de adesão aos ideais cartesianos. Para tais comunidades, o coração é sede tanto das emoções quanto das recordações – isto é, as capacidades afetivas e intelectuais não pertencem a domínios distintos.
Agora vejamos como as emoções são compreendidas neste contexto:
“Notamos que hay un ‘modelo hidráulico’ de las emociones, es decir, las emociones suben, pesan, aplastan, tapan. Pensamos en una expresión muy fuerte que hemos escuchado: ‘Yuyaynipas tapawan’, ‘mis memorias me tapan’. Bajo el peso de estas memorias, la persona no puede respirar y su corazón le duele.” (Kimberly Theidon, Entre prójimos, p. 65)
De novo, pois, as quantidades: emoções que entopem, transbordam, encontram escoamento – e, se não encontram, oprimem o coração. Emoções que só podem ser expressas através de uma metáfora. E é curioso que, na Viena do século XIX e no Peru do século XXI, as pessoas tenham recorrido à mesma metáfora: o modelo hidráulico.
Na época em que eu estudava Psicologia, a crítica que igualava metapsicologia e cientificismo me soava perfeitamente razoável. Até porque ninguém desconhece as pretensões freudianas de que a Psicanálise fosse, um dia, reconhecida como Ciência – e, para isso, a metapsicologia era uma peça fundamental.
Hoje penso que a metapsicologia vai muito além das pretensões cientificistas de Freud (ou das críticas de cientificismo feitas por fenomenólogos e certos winnicottianos). A metapsicologia, afinal, nada mais é do que… Metáfora. Para dar conta daquilo que não pode ser dito. Do que jamais se integrará perfeitamente a uma narrativa.
Você pode até achar as metáforas freudianas (ou, no caso, andinas) meio banais e desgastadas. Neste caso, por que não criar outras? Por que se revoltar contra metáforas?
Desde que não nos esqueçamos de que se trata apenas disso – metáforas -, não correremos nunca aquele terrível risco: o de desprezar o chinelo-enquanto-chinelo e pirar em quantidades que transbordam de sua sola inconsciente.
É possível pensar metapsicologicamente e interagir com os chinelos do mundo. Fenomenologicamente.
(* yuyay – recordar em quechua)








on Mar 16th, 2010 at 11:45 pm
Fascinante!
Minha relação com a psicologia se restringe a apenas “paciente”. Desde a adolescência quando me ‘receitaram” terapia que decidi ler sobre o assunto. Até mesmo li Freud e claro, correndo todo risco da incompreensão. E agora aos 27 (humpf) ao ler o seu texto, esse abismo de desconhecimento só me pareceu mais vertiginoso…
Terei de recomeçar terapia mas dessa vez farei diferente, vou esquecer meus dilemas e fazer perguntas sobre chinelos e quem sabe a respeito do meus dedos calejados. E espero que sejam apenas “calos”…. (=
Reply
camilalpav Reply:
March 19th, 2010 at 8:13 pm
Nossa, paciente nunca é “apenas”. E ainda bem que não é preciso manejar conceitos teóricos para se beneficiar de uma boa análise… :-)
Reply
on Mar 17th, 2010 at 4:24 am
Sabe, a pessoa chega pra trabalhar no espírito “braços e pernas da revolução digital”, decide dar só uma abridinha no Reader, só pra engatar o trabalho. Mas sempre aparece alguém pra estragar tudo. Obrigado, Camila.
Essas metáforas nunca me incomodaram. No fim das contas, não são muito diferentes do que a gente usa pra entender a própria física. E se você não se esquecer que são só modelos, acabam sendo bem úteis…
Muito mais díficil pra minha cabecinha de exatas são os matemas do Lacan, que não me acrescentam muito. Tenho sempre a impressão de que ele está fingindo um pseudo rigor matemático em troca de soar mais analítico e tentar se aproveitar de uma certa “legitimidade matematica”… mas com uma certa dose de arrogância (necessária para qualquer interação com franceses) dá pra gente pular essas partes e pensar “coitado, tão bonzinho, pena que louco…” :)
Reply
camilalpav Reply:
March 19th, 2010 at 8:16 pm
Na mosca, Fernando. Os matemas não me ajudam justamente porque não têm aquela concretude própria das metáforas. Você fica me agradecendo, e é tão o contrário – eu é que preciso te agradecer por vir aqui conversar comigo. Um beijo pra você.
Reply
on Mar 17th, 2010 at 9:01 am
daí a irreverência e ousadia, para dizer o mínimo, da metapsicologia kleiniana: uma metapsicologia que seja um pouco menos metáfora e se aproxime mais da experiência – dochinelo enquanto chinelo na e da clínica. E o notável é que, para tanto, e sem abdicar da condição de metáfora, ela não ficou mais “simbólica” e abstrata, mas ainda mais concreta, crua e direta. Como os afetos, intensidades e pulsões tão difíceis de nomear.
o problema, eu acho, não é a existência ou não existência de modelos metapsicológicos – mesmo os mais hidráulicos ou mecânicos podem nos servir de alguma coisa. O problema é o que a gente faz com eles, como se interpõem ou não em nosso contato com os pacientes e com as teorias. Se usamos para obstruir, uma pena, pois podem bem servir para movimentar o pensamento e propiciar ambiências mentais criativas e frutíferas.
sabe aquela história: relações entre teoria e prática…?? ;-)
Reply
camilalpav Reply:
March 19th, 2010 at 8:20 pm
Acho que sei um pouquinho daquela história sim. :-) E também acho que compreender Melanie Klein “metaforicamente” é a melhor leitura que podemos fazer dela, e isso independe das intenções originais da autora. Beijos e FELIZ ANIVERSÁRIO (aqui ainda é)!!
Reply
on Mar 18th, 2010 at 9:09 pm
Um salve de chineladas. O grande mal estar dos estudantes dessa civilização é simplesmente a incapacidade de não entender metáforas e levar tudo ao pé da letra. Relax, people. Eu mesma já tive raivinha de Freud por conta de discípulos com falta de imaginação e abstração suficientes que só faziam encaixar as coisas nos modelos metafóricos como se eles fossem leis, e não metáforas. Mas li o “Mal Estar da Civilização” e tirei o chapéu prum dos austríacos de bigode que figuram ilustremente na História.
Reply
camilalpav Reply:
March 19th, 2010 at 8:23 pm
“… discípulos com falta de imaginação e abstração suficientes que só faziam encaixar as coisas nos modelos metafóricos como se eles fossem leis, e não metáforas.”
Nossa, Camila, cada comentário que você deixa aqui é tão precioso! É bem isso mesmo, a mania de levar o legislador mais a sério que a lei, a dificuldade de brincar com as teorias… Beijos e mais beijos pra você.
Reply