Melhores Discos de 2011: top 7 + top 3

Porque Top 10, amigos, é para os fracos.

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Top 7 discos lançados em 2011, na ordem em que fui lembrando:

Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project – Quando se trata de arte, eu sou, a princípio, a pessoa mais anti-cotas do mundo. E este é um disco só de mulheres e aqui estou eu, dizendo que é o disco do ano. Ocorre que ele não me atrai pelo princípio girl-power da coisa. Ele me atrai por seu musician-power. Eu diria que praticamente um terço dos meus musicistas favoritos do mundo, homens ou mulheres, está neste disco: Esperanza, Helen Sung, Ingrid Jensen, Gretchen Parlato. E o resultado disso é que a gente tem não apenas o disco do ano, mas a) a Melhor Canção que Cassandra Wilson Já Cantou (em todos os anos); b) a Melhor Composição de Geri Allen, que é também o Melhor Cover que Esperanza Já Tocou (sim, eu conheço Ponta de Areia); c) o Melhor Arranjo de Jazz para Música dos Beatles; d) o Melhor Riff de Guitarra-Saxofone-e-Voz; e) a Melhor Inclusão de Causa Social em Disco de Jazz Sem Deixar o Disco Chato e eu poderia continuar inventando prêmios oscar-de-pobre para este disco que vai muito além do jazz e muito além das musicistas que o produziram. É o que acontece quando uma obra de arte funciona, não? Ultrapassa sua autora. Por isso este disco também funciona, acho, como manifesto feminista. Porque as mulheres muito obviamente estão ali, como diriam os apreciadores de Hermeto, quebrando tudo. Mas, menos obviamente – e mais importante – do que isso, elas igualmente não estão. Porque a última coisa em que você pensa enquanto ouve – vamos lá: a) Simply Beautiful; b) Unconditional Love; c) Michelle; d) I Got Lost In His Arms; e) Echo – é no gênero de quem calhou de tocar e compor essas coisas. Você vai ouvindo e pensando em timbres e acordes e sutilezas e polirritmias e poesia. Como deve ser.

Vince Mendoza, Nights on Earth
– Não é só que Vince Mendoza seja o grande mestre e mago e inovador e campeão dos timbres, no sentido de dominá-los e mesclá-los melhor do que qualquer outra pessoa no mundo (e as harpas, então? harpa é com ele mesmo). Ele é também a pessoa que mais sabe adequar a própria personalidade musical a todo e qualquer estilo pelo qual decide se aventurar. Então, seja flamenco ou bossa nova, tudo o que ele compõe ou arranja tem a cara dele, com as cordas mais incríveis e mais imediatamente identificáveis que há, mas sem perder a cara do seu lugar de origem. Um disco lindo e variado – o título não é apenas poético, de fato cada uma das músicas remete a um lugar diferente, como se cada uma delas remetesse à experiência de viver uma noite num lugar distinto – cheio de improvisadores brilhantes (solos mais memoráveis: Scofield, Ambrose Akinmusiree, novo trompetista queridinho de todo mundo, Bob Mintzer) e composições que será necessário ouvir pelo menos uma vez por ano por todos os anos daqui em diante.

Paul Motian, The Windmills of Your Mind – Eu não consigo pensar num modelo-de-vida melhor do que uma pessoa que morre semanas depois de ter gravado um dos melhores discos de toda a sua carreira, isso depois de ter gravado dezenas de discos que estão entre os mais importantes e grandes de tudo o que já se fez em música (Keith Jarrett, Bill Evans, Paul Motian Electric Bebop Band). Charlie Haden e Bill Frisell, lindos como sempre. Petra Haden me relembrando de uma coisa que eu mesma sempre esqueço: é possível, sim, ser uma grande cantora com voz de menininha (mas não espalhem). I’ve Got A Crush On You. Enfim, tudo neste disco me atrai. Mas isto também poderia ser dito de quase todos os discos dele, que é um cara que, como poucos, conseguiu estar sempre na vanguarda, a vida toda. O ano que vem não terá um disco dele entre os melhores do ano e isso me entristece.

David Binney, Graylen Epicenter – Pros que conhecem: sim, este é mais um disco loucão do David Binney. Só que desta vez tem a Gretchen, o que acrescenta muito em beleza à insanidade geral da coisa. Melhor disco dele até hoje, e olha que eu gosto de todos. Acho que os principais responsáveis disso são ele mesmo (dã), que está compondo de forma cada vez mais intrincada e complexa (e, olha, eu não sou muito fã de sax alto e o timbre do David Binney chega até a ser um pouco incômodo, mas é um incômodo bom, se é que me faço entender – que nem quando o massagista pega naquele ponto que é o ponto), e a própria Gretchen, que é a cantora mais criativa que apareceu desde, sei lá, a Björk. Então é um disco difícil, complicado, que exige a concentração de um matemático diante de um problema de álgebra. Ocorre que existe beleza, prazer e recompensa na complicação e na dificuldade. Bom, eu acho.

Miguel Zenón, Alma Adentro – Isso porque eu falei que não gosto de sax alto, hein. Músicas tradicionais de Porto Rico com arranjos incríveis e uma baita sonoridade. Um disco, eu diria assim, com sustância. Com muito conteúdo, muita informação musical. E das capas mais incríveis que já vi.

Mike Moreno, First in Mind – Meu segundo guitarrista preferido atualmente, depois do Kurt Rosenwinkel. Neste disco ele fez tudo certo, e gravou, pra minha alegria, duas das minhas músicas preferidas: Milagre dos Peixes e A Flor e o Espinho. Aliás, eu vou dizer. Esta é a minha versão favorita de uma música de Nelson Cavaquinho. É instrumental e diz tudo. É muito respeitosa com a canção original, recriando aquele clima sombrio que só quem ama o Nelson sabe o que é. E é também muito, muito lírica, realçando os contornos da melodia sem nenhuma pressa de concluir que o sol não pode viver perto da lua. Eu gostei demais do tempo dessa música. E do som de guitarra do disco todo. Recomendo para não-músicos mais até do que para guitarristas, graças a deus.

Gretchen Parlato, The Lost and Found – Eu falei da Petra Haden anteriormente, que tem voz de menininha. Gretchen, a princípio, também parece ter voz de menininha e ser uma cantorinha fofinha. Ouça de novo. Ela é chique. E não é nem um pouco inha. Ela sabe exatamente o que está fazendo e o que está fazendo é, pelo que venho ouvindo, criar uma nova linhagem de cantoras de jazz que pela primeira vez, e de forma bem-sucedida e consistente, incorpora a música brasileira e o pop à sua arte sem deixar tudo coxinha, brega e Diana Krall. E, ao fazer isso, ela consegue cantar qualquer coisa e deixar aquilo com cara de que foi composto ontem, seja Herbie Hancock ou Dorival Caymmi (se bem que, convenhamos, tudo do Dorival tem cara de que foi composto amanhã). Butterfly, de seu disco anterior, é a minha preferida, se bem que Holding Back The Years, com aquela modulação super matreira, também me dá arrepios toda vez.

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Top 3 coisas de outros anos que descobri em 2011:

Jonatha Brooke & The Story, Plumb – Melhor coisa pop que ouvi desde a Shawn Colvin. Todas as músicas são perfeitas, letra e música e arranjos. Fora que a vida tem dessas coisas: põe a gente pra ler um livro e depois resume o livro pra gente com uma canção.

Nguyen Lê, Bakida – Dding Dek é a música mais bonita e estranha e inexplicável que ouvi em 2011, sem dúvida.

Neymar Dias, Intervalo – Um quarteto de cordas com groove. Com músicas que você tem certeza de que desconhece, mas ao mesmo tempo reconhece, de fontes várias. Ecos de Pat Metheny, Jerry Douglas e música celta. O disco mais surpreendente que ouvi em muito tempo. Ele é de um gênero novo, para o qual ainda não inventaram um nome e uma prateleira adequados. Você o verá classificado nas categorias “quarteto de cordas” e “música instrumental brasileira”, títulos que não deixam de ser verdadeiros, mas também são falsos. Porque o quarteto é de cordas, mas é também extremamente percussivo, e tem viola caipira e violão, e tem o baixo como solista e, sobretudo, não corresponde à ideia que geralmente fazemos de música de câmara – porque, vai por mim, isto é música para se cantar junto, cada uma das vozes. E a música é brasileira, claro, mas não naquele sentido “música brasileira = samba & maracatu” – sinceramente, ela me soa tão brasileira quanto escocesa ou texana. Fãs do Pat: imaginem um A Map of the World, só que estupidamente melhor. Porque é essa a sensação que eu tenho: Neymar pegou a parte mais legal dos últimos quinze anos de Pat – as coisas de violão de aço folk ou, em bom português, caipira – e levou aquilo para um lado inteiramente seu. Pat e muitas outras influências que não conheço tão bem. Este é um disco inteiramente solar, upbeat e com as melodias e solos mais memorizáveis do mundo. É um disco que me acompanhou com muita frequência na esteira da academia, porque é uma música que realmente impulsiona, te leva para a frente, te comove e te levanta. É um disco que me acompanhará pela vida toda.

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Se você gosta de coisas nessa mesma onda que eu, apareça aí na caixa dos comentários, vamos conversar. E se você acha que o grande disco de 2011 foi mesmo o da Adele, sem problemas, vamos conversar também. :-)

18 Comentários on “Melhores Discos de 2011: top 7 + top 3”

  1. #1 camilalpav
    on Feb 1st, 2012 at 9:00 am

    Caros, o blog comeu o post. Felizmente o google reader ainda serve pralguma coisa e taí ele inteirinho de novo. Da última vez que o vi, havia 3 comentários:

    1) Bel me sacaneando por conta da Adele –> R: Fia, isso que eu nem falei da Alpha FM! :-P

    2) Pessoa simpática com uma dica exatraordinária de uma pianista argentina, Paula Shocron –> R: Muito obrigada! Fui atrás e já botei pra baixar – não conhecia e foi uma surpresa muito boa. A Argentina tá cheio de músico bom que a gente não conhece, é impressionante.

    3) Outra pessoa simpática dizendo que gosta de MPB e que, portanto, não consegue fazer uma lista dessas desde 1994 –> R: Me identifico e solidarizo. Foi mais ou menos por esta época – não por acaso, creio, 94 é o ano em que Tom morreu – que passei a me interessar por djéz e fui progressivamente desencanando dos lançamentos de MPB. Hoje em dia, quase tudo de música brasileira que ouço é das antigas, de 70 pra baixo. Felizmente e como tudo na vida, há exceções – é por elas que eu vivo.

  2. #2 Luciano
    on Feb 1st, 2012 at 9:21 am

    A dica da Paula Shocron foi minha, que bom que gostou :-)

    Outras coisas boas do ano passado que ouvi e talvez você goste (sem muito método):

    - Hiromi, Voice – pianista japonesa que conheci em Newport, muito criativa – http://www.allmusic.com/album/voice-r2106274

    - Rudresh Mahanthappa, Samdhi – fiquei meio com o pé atrás com a ideia (sax + laptop, brrrr), mas o disco quase todo é a velha e boa banda acústica, com a execução excepcional de costume – http://rudreshm.com/projects#samdhi

    - André Mehmari & Hamilton de Holanda, Gismontipascoal – você deve ter ouvido ou visto o show, muito bom.

    Dos que você listou, já comprei o da Gretchen Parlato e o Mosaic Project, mas ainda não ouvi. O Miguel Zenón vi em Newport, também (esnobe…), showzaço (e a banda tem a flautista mais charmosa da história, de olhos claros e cabelo estilo Esperanza Spalding). E o do Keith Jarrett no Rio também está na fila pra ser ouvido.

  3. #3 renato
    on Feb 1st, 2012 at 10:58 am

    sim, o pessoa simpática II – (obrigado) fui eu.

    Exato: mais precisamente de 58 a 94 com auge na década de 70. O que nos (me) salva é a prolixidade da produção, a gente não precisa de um disco recente, basta por exemplo descobrir um Sérgio Sampaio desconhecido e pimba!

  4. #4 Junior
    on Feb 1st, 2012 at 12:40 pm

    Não conhecia o Mosaic Project nem a Gretchen Parlato, tuas indicações tem crédito eterno comigo por causa do Milton & Belmondo. Mas tenho que dizer que gosto da Diana Krall. Talvez não seja uma preferência somente musical, mas também estética, rs. Sobre a Adele, a conheci antes de tocar insistentemente (e obviamente ficar chata, quase como um Michel Teló), por meio de um link do Inagaki (do Pensar Enlouquece). E assim como ele, fiquei impressionado com a perfomance dela no palco, ali percebi que ela não era mais um dessas cantoras pré-fabricadas. Quando sobrar um tempinho, assista no YouTube às perfomances dela, acredito que te surpreenderá positivamente. Obrigado pelas ótimas dicas, como sempre.

  5. #5 Van
    on Feb 1st, 2012 at 12:57 pm

    Caí aqui nesse blog e meu, que legal encontrar gente a fim de falar de música.

    Parabéns pelo blog e pelo gosto musical, vai entrar nos meus favoritos :)

  6. #6 Van
    on Feb 1st, 2012 at 12:58 pm

    (pra mim a Diana Krall é a Paula Toller do jazz americano mas ok rs)

  7. #7 Luciano
    on Feb 2nd, 2012 at 2:48 am

    Tô imaginando ela cantando uma versão em inglês de “eu quero você, como eu quero”… hahahaha… Acho que o Elvis Costello ia gostar.

  8. #8 Jeferson
    on Feb 3rd, 2012 at 10:12 am

    De fato, Neymar é um craque…

  9. #9 Afonso Félix
    on Feb 3rd, 2012 at 3:58 pm

    Oi Camila

    Eu gosto bastante de música instrumental.
    Não é meu primeiro estilo musical, mas ouço muitas coisas que prezo muito.

    Recentemente a minha descoberta foi Portico Quartet, que grava pela Real World, a gravadora de Peter Gabriel. Jazz com toques de contemporaneidade e portanto inovadores nos ritmos e tempos.

    Deixo o endereço de minha coluna no Pensador Selvagem, Rotas Alteradas, onde escrevi esta semana sobre minha outra mais nova paixão: Sufjan Stevens.

    Adorei a sua lista principalmente porque não conheço nada ainda. Gosto muito de garimpar coisas novas (para mim) e essas páginas com indicações pessoais são meu principal combustível,

    Um abraço

    Afonso

  10. #10 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 8:51 pm

    Oi, Luciano, gostei sim, super obrigada. Quanto às suas outras recomendações:

    - Hiromi: ouvi uma vez, anos atrás, não gostei e a partir daí ela passou pro fim da minha lista de coisas-a-ouvir, por um puro – eu não diria preconceito, porque afinal já ouvi o trabalho dela – “conceito precipitado” meu. Sim, sim, preciso dar outra chance. Me aguarde.

    - Rudresh Mahanthappa – amoamoamo e só não incluí este disco nesta lista porque não lembrei, portanto não confie em mim para mais nada na vida.

    - Mehmari & Hamilton – Eu ouço absolutamente tudo o que ambos fazem com muito carinho e atenção, e com este disco não foi diferente – mas, apesar de lindo e foda e obviamente incrível, não está entre os que mais falaram ao meu coração, não. #fuóinfuóinfuóinfuóóóóin

    - Jarrett – ainda não ouvi com atenção apesar do xôu de São Paulo ter sido *o* xôu, escrevi aqui no blog e tudo. Eu já falei que não era pra confiar em mim, não?

  11. #11 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 8:52 pm

    É. Eu diria que pra mim é mais ou menos isso também. Do primeiro campeonato ao tetra.

  12. #12 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 8:58 pm

    Oi, Junior, há quanto tempo! Olha, eu te entendo: se alguém tivesse me recomendado Milton & Belmondo, esta pessoa também teria crédito eterno comigo. :-P Eu também acho a Diana Krall super boa e competente e ainda por cima fofa, é só a estética jazz-com-uísque da coisa que não me agrada (a estética sonora mesmo, acho lindo ela ser linda & loira). Quanto à Adele, cara, acho ela tão boa ou melhor que a Diana Krall e tem o mérito infinito de ser a única coisa não-odienta que toca na minha academia. Já vi vídeos dela sim (e de crianças fofas dublando a musiquinha dela também) e de fato ela é muito boa. Só não é o que eu mais gosto de ouvir, nem de muito longe, mas fico feliz por ela estar fazendo tanto sucesso. :-)

  13. #13 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 8:59 pm

    Hehehe, você começou melhor-impossível!! :-)

  14. #14 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 8:59 pm

    melhor. comparação. da história. do blog.

  15. #15 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 9:00 pm

    Já eu prefiro aquela que relaciona bermuda a seriedade. Um clássico.

  16. #16 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 9:02 pm

    Oi, Afonso! Obrigada pela visita, vou lá ler sobre o Sufjan Stevens. E Portico Quartet, nossa, estou me sentindo como as pessoas que vêm aqui e não conhecem nada da lista – gugo no quarteto djá!

  17. #17 camilalpav
    on Feb 5th, 2012 at 9:12 pm

    Poxa, gente. Eu fui respondendo nos bastidores do blog, no sisteminha do wordpress, e antes quando você clicava em “responder comentário do fulano”, tchã-rã, sua resposta ficava imediatamente abaixo do comentário do fulano. Seemed simple enough, mas, bom, cabou isso. Divirtam-se brincando de adivinhar a ordem dos fatores. :/

  18. #18 Luciano
    on Feb 6th, 2012 at 1:27 pm

    Hahaha, apesar da “confiabilidade”, as dicas são sempre ótimas, vou continuar aproveitando.

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