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Nova York em parágrafos e listas (III)

Restaurante caído do céu

Sim, é cafona ficar falando daquele restaurantezinho escondidinho que só você e mais ninguém conhece, mas, fazer o quê, às vezes acontece. Chama-se Scalino e fica em Park Slope, no Brooklyn. É tudo que um restaurante tem que ser: bom, bonito, agradável, barato. Pão com azeite e aquele salzinho e pimenta que você mói (acho que é a primeira vez que conjugo o verbo moer). Salada com tempero perfeito com um tiquinho de alho. Massa com molho de sálvia. Queria pôr o Scalino montadinho bonitinho num caminhão da UPS e vir dirigindo até umas duas quadras da minha casa, para instalá-lo bem ali no lugar da padaria ruim.

Restaurante caído

Se você é classe média como eu e viaja para os EUA uma vez por ano, este parágrafo é para você: é provável que em algum momento você viaje pela Avianca, que tem voos baratos, assentos ultra-confortáveis e faz escala em Bogotá. Até aí, está tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente eu preferia, oh wait. Mas realmente, eu dizia, realmente não há o que comer no aeroporto de Bogotá, colega viajadeiro. Só lanchonetinhas com salgados de anteontem que fazem de qualquer coxinha de rodoviária uma iguaria verdadeiramente apetitosa. E tem também o (aham) Café Gourmet. Então, como eu sou uma pessoa fina, em vez de ir na sub-lanchonete de rodoviária eu vou no Café Gourmet e peço uma salada de atum, porque, pensa comigo, o que poderia dar errado numa salada feita de alface, tomate e atum? E, mais uma vez, vem a vida – encarnada num punhado de milho, ervilha e cenoura – me provar que tudo sempre pode dar errado, ou mais errado do que você jamais ousou imaginar. Olhei para o já mencionado trio de legumes e, vendo que todos os três estavam meio branquinhos, logo concluí que nego tinha carcado no sal. Mas amigos. Amigas. Irmãos caminhoneiros. Não era sal. Era GELO. Nunca vi nada parecido. Todo mundo já comeu muita coisa ruim e todo mundo certamente tem uma história pra contar de mosca ou cabelo na sopa, arroz mal cozido, barata correndo pelo restaurante. Mas isso eu nunca tinha visto. E me deixou tão triste, sabe, pensar que existe uma pessoa no mundo que acha óquei servir legumes com gelo pros clientes. Aliás, esqueça os clientes. Eu pergunto: exatamente que tipo de pessoa é capaz de servir comida congelada, congelada, para uma outra pessoa companheira do gênero humano? Eu pergunto e eu mesma respondo que é o tipo de pessoa que eu não gostaria de conhecer. Aí de repente eu, que tenho uma série de ideias estereotipadas sobre a Colômbia – García Márquez, Botero, cocaína, cartéis, violência, literatura chata de violência, violência meio que superada ou pelo menos melhorada nas grandes cidades, uma biblioteca pública foda, um presidente de direita, Shakira – de repente todas essas ideias genéricas foram substituídas por uma ideia bastante específica e bastante deprimente: Colombia, la tierra del maíz congelado.

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