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Nova York em parágrafos e listas (IV)

Livros

- Incidents in the Life of a Slave Girl, Harriet A. Jacobs. Lindo e certeza de que a Ana leu. Muitas coisas em comum com a história da Kehinde, mas teve uma que me marcou especialmente por motivos totalmente egoístas. Acho que toda criança que perde pai ou mãe fica com uma fantasia de que na verdade a pessoa está apenas viajando e logo vai aparecer pra vir te resgatar, tipo Harry Potter te chamando pra Hogwarts. Não que adultos também não passem pela mesma experiência, mas quando acontece com uma criança tenho a impressão de que é tudo mais forte e real. Enfim, a narradora-personagem do livro, fugindo da escravidão, passa sete anos escondida no sótão da casa da avó. Para saber como é passar sete anos vivendo num buraco escuro, vendo a vida por um buraquinho, e saber do frio e da chuva e dos bichos, leia o livro que disso não vou falar aqui. O que vou falar e que tem a ver comigo é que o filho e a filha da narradora moravam na casa onde a mãe estava escondida, pois eram criados pela bisavó, e a mãe acompanhava tudo da vida deles silenciosamente pelo sótão. Só que eles não sabiam disso; achavam que ela tinha fugido para o Nordeste e que um diria voltaria para buscá-los. Até o dia em que surge de fato uma oportunidade de ela ir para Nova York. E aí ela faz questão de se despedir dos filhos. O menino já fazia uma ideia, mas a menina, menorzinha (sete, oito anos) nem desconfiava. E aí eu chorei. Porque é o momento em que as crianças ficam sabendo que, naqueles anos todos em que eles acharam que a mãe estava longe, ela estava lá, velando por eles, tricotando coisinhas para eles. É basicamente a minha fantasia tornada realidade. Chorei, chorei, chorei.

- Beneath the Underdog, Charles Mingus. Valeu pelo primeiro capítulo, que – fui descobrir só agora – deu origem à letra de God Must Be a Boogie Man, do disco da Joni (Mingus chamou-a para gravarem este disco juntos, mas morreu antes que ele fosse concluído). Ela faz um resumão do primeiro capítulo e passa a narrativa da primeira para a terceira pessoa – “I am three” vira “he is three” – e é isso, e é genial. Acima de tudo, é impossível ler aquelas palavras desvinculadas da melodia a que estão atreladas. Com muito esforço, consegui desvincular o texto da voz da Joni, mas aí era a minha própria voz interna que cantava “one’s in the middle unmoved” – ou seja, com a Joni era melhor. Enfim, tirando essa parte, trata-se basicamente de um livro de putaria – e para isso, como todos sabemos, Deus inventou a internet. É bastante decepcionante porque, para as composições mais lindas, malucas e caóticas para big bands Deus inventou Mingus. E Mingus, em vez de escrever sobre música, acabou escrevendo sobre putaria, deixando-nos apenas com a internet para descobrir mais coisas sobre ele. (Toda uma ironia aí.) Felizmente o livro vai um pouquinho além disso e fala também sobre o racismo e seus efeitos perversos sobre o business do jazz. Mas assim. Se você não tem interesse nem por racismo nem por putaria, corra.

- Kind of Blue: The Making of the Miles Davis Masterpiece, Ashley Kahn. Esse é um dos muitos típicos livros que passei a vida toda querendo ler e fui adiando porque, bem, a única conclusão a que posso chegar é que fui adiando a leitura porque sou uma boba. Mas tinha esse livro na casa do primeiro e incrível casal que nos hospedou, e foi a leitura mais animada que vivi em muito tempo – só que aí a gente ficou hospedado em outra casa, e o livro continuou na casa anterior, e não tinha no kindle, não tinha na amazon pra entregar, não tinha em livraria nenhuma da cidade pra comprar e assim que interrompi a leitura na metade, tendo chegado apenas até o início do segundo dia de gravações. Mas foi lindo, lindo, lindo ler sobre o renascimento pós-heroína do Miles, sobre a indivisibilidade entre jazz e música pop naquela época, sobre a importância do Bill Evans para aquela música, sobre as idas e vindas das diversas formações do quinteto até virar o sexteto que gravou o disco. Pretendo o terminar este livro assim que puser as mãos nele de novo. Provavelmente em alguma biblioteca.

- Cês repararam que só li livrinhos que tinham a ver, ainda que marginalmente, com Nova York? Cês tão me achando boba?

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