Kindle, minha camisinha

Lá nos idos dos anos noventa (ou seja, dez anos atrás) a MTV ou o Governo Federal (eu sinceramente não consigo diferenciar a MTV do Governo Federal – e sinceramente acredito que isso diz mais sobre o nosso país do que sobre mim) tinha um slogan muito curioso sobre a camisinha. Era mais ou menos assim:

“Camisinha: você nunca sabe quando pode precisar de uma”

Eu não sei que tipo de vida louca e emocionante vocês levam, mas eu, mesmo lá nos anos noventa, sempre soube exatamente em que tipo de situação eu poderia precisar de uma camisinha. Quer dizer, nunca aconteceu de eu estar na fila do banco, na sala de espera do consultório, no vagão do metrô e pensar “puxa vida, bom mesmo seria se eu tivesse uma camisinha na minha bolsa agora”. Nestas situações e em muitas e muitas outras – exceto aquelas em que o objeto de necessidade de fato foi uma camisinha -, o que aconteceu foi eu desejar, profunda e ardentemente, ter em minha bolsa um livro.

Não que antes do kindle eu não andasse com livro na bolsa. Eu andava, muitas vezes, mas acontece que sempre tive um costume que, se bobear, capaz até de já ter um verbete só para ele no DSM-IV: o costume de ler um mínimo de dez livros ao mesmo tempo, sendo que metade destes abandono pelo caminho e a outra metade levo meses para terminar. Aí era bem frequente acontecer de eu ter um livro – fininho, sempre – na bolsa e ter vontade de ler o livro grossão que ficara em casa. Ou mesmo de não ter livro nenhum (lembram a moda das bolsinhas minúsculas?) e ficar micada no vagão lendo disfarçadamente os livros de outras pessoas*.

Agora, com o kindle, nenhuma fila é páreo para mim. Devido a uma falha técnica os trens estão circulando em velocidade reduzida e com maior tempo de parada entre as estações? Tolstói na cabeça deles, mermão. Saco meu kindle e retomo a leitura de Guerra e Paz, um livro excelente porque sei que não vai terminar nunca, e tento relembrar quem é quem naquela confusão napoleônica enquanto todos nos estapeamos para entrar no próximo vagão. Aliás, o próximo livro que pretendo ler no kindle é a Bíblia, porque, depois de Guerra e Paz, qualquer texto com menos de quatrocentas páginas fica parecendo um post vagabundo como este.

O kindle, pois, é a camisinha que encomendei à MTV – ou ao Governo, vai saber. Com a vantagem de não causar escândalo – apenas, às vezes, surpresa – ao ser sacado da bolsa em pleno metrô.

* Prática que, às vezes, pode ser bem divertida. Aquela senhorinha com cara de crente, quando você vai ver, está lendo “… então Mariana entregou a flor de sua feminilidade sem pudor…”, enquanto que sobre o colo do adolescente gótico se lê “… sua alma desencarnou e foi habitar o Reino dos Céus”.

13 Comentários on “Kindle, minha camisinha”

  1. #1 Deborah Leão
    on Mar 25th, 2012 at 8:05 pm

    Tudo, tudo igual. Até a mania de ler o livro do coleguinha do lado. E a alegria porque estou lá no Kindle encarando um livro cabeçudão sobre feminismo e psicanálise, e de repente resolvo que quero derreter o cérebro em um capítulo de Game of Thrones, e tamo junto.

    Depois do Kindle eu deixei de ser uma fetichista do livro. Passei por cima de todo o discurso de “ah, mas eu gosto do cheiro do papel, mimimimimi”. Cabô. O único problema é que a bateria dura tanto, mas tanto, que eu esqueço de carregar. E quando de manhã, no metrô, tento ligar e ele avisa que ops, não vai rolar, a sensação é bem parecida com aquela de procurar uma camisinha na hora da necessidade, e descobrir que acabou.

  2. #2 Marcos
    on Mar 25th, 2012 at 8:09 pm

    Também me sinto assim, ainda mais quando tenho que esperar por algo. Sempre penso: poderia estar lendo aquele livro abandonado na minha estante que desisti de carregar porque é muito pesado (sim 2666, estou falando de você).

    Ler livros alheios é realmente uma prática bem divertida, só é ruim quando queremos descobrir o que a pessoa tá lendo (para colocar naquela lista de livros que queremos ler, mas sabemos que não iremos) e a bendito livro não tem o nome nas páginas, aí sempre tento memorizar meia dúzia de personagens para descobrir depois o que é, apesar de nunca o fazer.

  3. #3 Marcos
    on Mar 25th, 2012 at 8:22 pm

    Ah, que boa surpresa foi ver 5 itens do seu blog não lidos no Reader. Continue assim :)

  4. #4 Deborah Leão
    on Mar 25th, 2012 at 8:53 pm

    Marcos, sabe qual a minha tristeza com o 2666? Não tem versão Kindle pra ele na Amazon, ainda. O tijolão tá ali na estante me encarando há meses.

  5. #5 camilalpav
    on Mar 25th, 2012 at 10:17 pm

    Deborah, eu nunca tive esse fetiche, apesar de achar livro uma coisa bem bonita. Infelizmente, eles têm a grande desvantagem dos ácaros e do peso (uma amiga tem uma teoria brilhante e muitas vezes comprovada na prática: os livros, uma vez encaixotados, ocupam um espaço três vezes maior do que o previamente ocupado na estante).

    Marcos e Deborah: o 2666 tá na minha fila também, claro, mas antes dele tenho vontade de ler os Detectives Salvajes, por conta da recomendação do Fabiano Camilo. Já leram esse?

  6. #6 renato
    on Mar 26th, 2012 at 5:22 am

    Será que a migração pro kindle é inevitável, inexorável, inapelável, irreversível? Ainda não consegui…

  7. #7 cintia ruiz
    on Mar 26th, 2012 at 7:08 am

    Camila,
    Estou num frela do Itaú, dezenas de pessoas ao meu lado e eu rindo que nem uma maluca… Faz isso comigo não.
    bjs querida

  8. #8 anna v.
    on Mar 26th, 2012 at 5:50 pm

    Tudo igual aqui também. Não tem fila nem sala de espera que me assuste mais hoje em dia, valei-me o Kindle. No meu caso, tenho Atlas Shrugged (que, como Guerra e Paz, não acaba nunca) e Hunger Games em convivência pacífica. E estou com a Deborah e não abro: acabou o mimimi do cheiro de livro, alisar papel etc. Sobre o 2666, pena que não tem o Kindle, porque eu comprei o tijolo, li uma parte, achei um saco e abandonei. Por sorte já passei adiante!

  9. #9 olivio
    on Mar 27th, 2012 at 12:15 pm

    Mais uma vez um texto adorável, Camila. Muito boa sua afirmação de não ver distinção entre a MTV e o Governo Federal, morri de rir!…
    Um beijo!

  10. #10 camilalpav
    on Mar 27th, 2012 at 4:26 pm

    renato: não acho que o kindle seja alguma dessas palavras que começam com i e terminam com vel. Como diria a Fal, é apenas uma maquininha de ler livro, só isso. É útil principalmente para quem se locomove pela cidade e prefere fazer musculação na academia em vez de no metrô.

    cintia e papai: agora só falta a Bel comentar aqui para ficar que nem nos velhos tempos! \o/

    anna, eu também tenho certo medo do 2666 – desconfio de que deve ser meio sacal mesmo. Já assisti a uma palestra bem boa sobre ele, de um ex-colega da pós-graduação, e fiquei com a impressão de que a leitura deve ser propositalmente tediosa em alguns momentos. E que legal que você está lendo Atlas Shrugged – não sou espiritualmente desenvolvida o bastante para passar por cima da canalhice da autora e me aventurar por esse tijolão (o Alex que adora).

  11. #11 jorge
    on Apr 1st, 2012 at 1:33 pm

    Eu sempre tenho uma resistência em comprar coisas que eu acho a princípio que não preciso, ou que parece mais uma moda. Mas há tempos que tenho a impressão que estou perdendo uma grande oportunidade ao não ter comprado ainda um kindle, principalmente para ler artigos e até livros em pdf, eu ainda não sei o quanto de literatura brasileira tem para kindle, e o aparelho ainda é caro nestas bandas. Esse seu texto gostoso foi um ponto para eu me arriscar neste investimento, sempre ando com a bolsa pesada por ter esse hábito de ler onde der, nada mais útil e divertido do que ler numa maldita fila de banco.

  12. #12 Carla Gottschalk
    on Apr 6th, 2012 at 11:36 am

    Se voce que e’ meio intelectual e meio de esquerda le dez livros ao mesmo tempo, sendo que a metade vai pro saco, entao eu to bem, to muito bem. Eu nunca tinha contado pra ninguem que faco isso, agora posso sair do armario, a Camila tambem faz!

  13. #13 camilalpav
    on Apr 14th, 2012 at 10:30 pm

    Jorge, de fato posso lhe dizer que, mais do que uma simples maquininha de ler livro, o kindle é também uma maquininha mágica de fazer aqueles pdfs que mofavam no computador serem lidos, anos depois de terem sido baixados.

    Carla, sabe o que descobri? Seja com livro ou com qualquer outra coisa, se me programo para fazer 10X sempre acabo fazendo 5X. Ou seja, não adianta me programar para fazer 5X para que os 5X sejam feitos direitinho e eu fique satisfeita: não, se eu quiser 5 a verdade é que farei apenas 2,5 e olhe lá. Então, mais vale ler dez ao mesmo tempo e terminar cinco do que não ler porra nenhuma, né mêss? Filosofia de vida, você vê por aqui.

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