A decadência progressiva do homem vista através dos livros

Dia desses, perdendo tempo em sites de livrarias quando este precioso tempo poderia ter sido mais bem utilizado lendo um livro, pude ao menos comprovar uma das minhas teorias sobre a natureza humana: todos nascemos gênios e vamos emburrecendo progressivamente com o passar dos anos. Acho que todo mundo que conviveu um pouco que seja com um bebê ou uma criança pequena há de concordar com essa teoria: um dia você tem uma menininha esperta e questionadora que quer saber por que as formigas não caem ao subir pelas paredes, e no dia seguinte esta mesma menininha está ativamente desejando saber o que aconteceu com os saudosos personagens de The Bachelorette, um reality show que faz o BBB parecer uma daquelas peças bem cabeçudas de Brecht (vamos preservar a identidade da menininha para não criar constrangimentos).

Fato é que, fuçando pelos sites de livrarias diversas (vamos preservar também a identidade dos livros, que um post que fala mal de BBB já esgotou sua cota de mal-falar pelo resto do ano), deparei-me com um padrão que, não fosse deprimente, seria interessante.

Os livros infantis em destaque, frequentemente e em primeiro lugar, são lindos e atraentes. Isso não fica tão evidente pelos sites, é verdade – mas, em qualquer livraria física dessas com um cantinho para as crianças, é possível encontrar rapidamente diversas capas bonitas que, ao serem abertas, abrigam histórias feitas sob medida para receberem as identificações e projeções das crianças, vistas como seres altamente criativos e predispostos a se envolverem emocionalmente com o livro. Já os livros de adolescentes, bem, foram feitos para adolescentes: costumam ser bobinhos, previsíveis, cheios de clichês e diálogos desnecessários – e também, por outro lado, costumam ter histórias movimentadas, cheias de peripécias emocionantes envolvendo personagens facilmente empatizáveis que falam o tempo todo. No mínimo, são livros que parecem ter sido escritos para pessoas em plena posse de suas capacidades cognitivas. Dificilmente você irá encontrar alguma grande maravilha literária ali, mas tampouco terá vontade de jogar o livro pela janela e fazer o sinal da cruz. São histórias de aventura, geralmente, vividas por personagens gente-como-a-gente que um belo dia se descobrem excepcionais. Em suma: a trajetória do herói, uma paixonite que só é consumada no final e vamos que vamos.

Agora. Quando chegamos aos livros de adultos.

A impressão que dá é que os escritores escrevem para as crianças como se elas fossem gênias (no que estão corretíssimos), para os adolescentes como se eles fossem pessoas normais e apenas ligeiramente chatas (corretos de novo)…

… e para os adultos como se fossem retardados mentais (como eu gostaria que estivessem errados).

Sério. Livros de padres coexistem com livros de quase-padres e de senhoras ensinando a comer e a vestir – e quando você chega no segundo livro de padre, a única coisa a fazer é voltar correndo para a seção infantil.

Ao longo da vida, passamos de Lygia Bojunga para Harry Potter para Gabriel Chalita.

Fica difícil manter o otimismo.

6 Comentários on “A decadência progressiva do homem vista através dos livros”

  1. #1 aiaiai
    on Mar 28th, 2012 at 1:44 am

    verdade verdadeira e triste.

  2. #2 Daniela
    on Mar 28th, 2012 at 1:56 am

    Olá, moça, tudo bem? Eu tenho sofrido MUITO para encontrar um bom livro para ler. Uma história que não seja sobre mulheres mutiladas, violentadas, desaparecidas; alguém com doença terminal, ou que perdeu tudo e todos que podia perder. Ou que não seja um chick lit sem graça, ou uma saga familiar formulaica, ou uma trama internacional com descrições sórdidas e violentas, ou um fluxo de consicência datado (Michael Cunningham me decepcionou muito com o último livro, muito), ou que não seja a biografia de uma sub-celebridade de 15 anos, ou ainda, um livro para adolescentes a que adultos sem nada para ler têm de recorrer no desespero. Não está fácil para ninguém. Baixei várias amostras pelo Kindle e acho que vou de The Paris Wife que, até agora, pareceu-me despretensioso e vagamente interessante.
    Beijos!

  3. #3 Cintia
    on Mar 28th, 2012 at 6:57 am

    Daniela,
    Sem querer passar por cima de uma indicação (sempre preciosa) da Camila, já tentou “A visita cruel do tempo” (Jennifer Egan)? Foi o livro que me veio assim que li seu comentário.
    Boa sorte.
    Cá, saudade, saudade, saudade.

  4. #4 Camila
    on Mar 28th, 2012 at 4:53 pm

    Daniela, eu sei que provavelmente não era a intenção, mas seu comentário ficou engraçado pra caralho. Tudo o que posso fazer é imitar a Cintia (ô querida, me atropele sempre) e te dizer qual livro me ocorreu ao ler seu desabafo. Chama-se The Imperfectionists, livro de estreia dum tal Tom Rachman. É um romance que pode ser lido como uma série de contos independentes, cada um focado numa pessoa que trabalha na redação de um jornal – então tem os repórteres, o obituarista, a moça do Accounts Receivable etc. E olha. Como todo livro bom – foda-se o tema, o jornal. Não importa se vc se interessa ou não pela decadência do jornalismo impresso na contemporaneidade e bláááá blá blá. O que é incrível no livro é a caracterização dos personagens. Em duas ou três páginas, o cara constrói personagens pelos quais é impossível não sentir uma empatia profunda – a gente realmente sente que conhece todas as fraquezas, inseguranças, anseios e temores dos fios, e segura na mão deles e segue agarradinho neles até o final. Só não foi o melhor livro de ficção que li o ano passado porque li também Um Defeito de Cor. :-P Boa sorte aí, querida.

    (P.S.: Me chegam notícias do tuíto que The Paris Wife parece meio fraquinho, hein)

    aiaiai – não é? Impossível ser otimista diante de uma seção de best-sellers para adultos.

  5. #5 Daniela
    on Mar 29th, 2012 at 2:39 am

    Oi, Cintia!

    Então, eu li o livro da Jennifer Egan, gostei muito, foi uma das leituras “top” do ano que passou. Também li dois livros excelentes de um sul-africano, Damon Galgut, um autor de quem nunca tinha ouvido falar.

    Camila,
    Bom, como disse, o livro é “leve” – o que talvez signifique que seja fraco, concordo, ainda não entrei no “cerne” da história que, afinal, é sobre Ernest Hemingway, a tal esposa (sic) parisiense é a do próprio. Não estou esperando muita coisa, só queria uma “historinha” (sic) para ler descomplicadamente nos 15 minutos em que consigo me manter acordada assim que vou para a cama. Mas vou anotar a sua sugestão para a semana que vou passar em Málaga e, o tempo permitindo, sentar na praia com algo legal para ler.

    Beijos!

  6. #6 Pequenas anotações de viagens virtuais 64 - Uma Malla Pelo Mundo
    on Oct 23rd, 2012 at 2:57 pm

    [...] a árvore mais velha da Flórida morreu. De overdose, pra deixar a gente com mais cara de descrédito na humanidade [...]

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