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Questões existenciais

Sou rápida para uma série de coisas. Digito numa velocidade que me permitiria transcrever locuções de partidas de futebol no rádio e decoro melodias longas e acidentadas após uma ou duas audições. Não que qualquer dessas habilidades já tenha me rendido um centavo sequer, mas a vaidade me leva a divulgá-las sem medo do ridículo.

Em compensação – para questões existenciais, sou lenta.

***

Na verdade, não é bem isso. Não é que eu seja propriamente lenta. Sou só atrasada. Explico.

Aos dez anos, penso, eu deveria estar preocupada com coisas de garotinhas de dez anos que já estão deixando de ser garotinhas mas ainda não entenderam nada do que significa ser mulher. Eu deveria estar me preocupando com o que é, no que consiste, o que faz uma mulher adulta: desde coisas singelas como maquilagem e depilação até coisas bem mais complicadas – e, felizmente, bem mais divertidas – como namorados e trabalhos. Como vivem e o que fazem as mulheres, afinal? Fazem as unhas toda semana? Deixam o esmalte lascar? Vão ao ginecologista todos os anos? Fingem esquecer que o ginecologista existe? Trabalham o dia inteiro, chegam em casa e ainda fazem a janta? Trabalham um pouco, perdem horas no Facebook e, chegando em casa, fritam um bife e chamam aquilo de cozinhar? Namoram firme? Dão (desculpa aí que sempre quis usar esta linda metáfora e finalmente chegou o momento) que nem chuchu na cerca?

Eu deveria, mas o que mais tem por aí são coisas que a gente deveria e nunca fez. Porque, enquanto eu deveria estar pensando nessas coisas, minha mãe morreu. E aí todas as questões acima, supostamente questões de dez ou quinze anos de idade, tiveram de ser adiadas. Em seu lugar, impuseram-se questões de vida e morte, mais ou menos nesta linha:

Até onde vai a vida? Em que ponto começa a morte? A gente morre, e vai pra onde? A gente morre, e vai? Ou morre e fica por aqui mesmo? Ou, na verdade, nem morreu e a vida mesmo começa depois? Começa logo depois e a gente vai morar num gramado bem bonito, cheio de espíritos de luz?

Graças a deus, naquela época tive a sorte de encontrar livros espíritas que, mais do que qualquer pessoa, me salvaram a vida. Com sua bem-acabada lógica do senso comum, Kardec, André Luiz e Emmanuel (sim, até hoje falo os nomes dos espíritos em vez de Chico Xavier) me deram todas as respostas de que eu precisava. Tudo no universo se encaixava e fazia sentido. Minha mãe estava bem, feliz e protegida, olhando por mim e cuidando para que tudo desse certo, não só na minha vida como no mundo todo (ou vocês acham que o tetra foi mérito exclusivo do Romário? Tsc, tsc). Em suma, tudo fazia parte de um plano maior. Eu podia dormir tranquila.

***

Com mais graças a deus ainda, os livros espíritas, depois de algum mínimo amadurecimento intelectual e emocional (amadurecimento este que só foi possível, é claro, pela leitura destes mesmos livros) se foram – as questões de vida e morte puderam então ser trabalhadas (e nunca totalmente respondidas, como eram antes) de um modo que não envolvia gramados nem espíritos de luz. Mas isso não vem ao caso agora: fato é que, com ou sem espíritos, essas questões de vida e morte foram centrais para mim por muito tempo, adiando questões mais prosaicas de mulheritude para um ponto em que a maioria das mulheres já as resolveu faz tempo.

Então, aos vinte anos de idade, de repente me percebi mulher – uma mulher que não sabia o que era namorado, trabalho e muito menos depilação.

Em parte, é claro que isso é mentira. Aos vinte anos, eu namorava, trabalhava e me depilava – não nesta ordem de prioridades. Mas este não é um texto sobre as coisas que eu fazia ou faço. Este é um texto sobre coisas que me ocupam, me tomam, povoam e movem.

E, infelizmente, essas coisas são exatamente aquelas que não sei explicar direito – se soubesse, este texto não seria necessário.

Era como se, em tudo o que cheirasse a ser mulher – no caso, todas as coisas que minha mãe representava: elegância (vocês teriam de ver fotos), sensualidade (vocês teriam de vê-la fazendo tópiléssi na praia), competência (ela foi a primeira mulher diretora de uma Aliança Francesa no Brasil) -, pairasse uma ligeira dúvida: será que é isso mesmo? Estou fazendo certo? É por aí? É assim que as mulheres do mundo fazem? E eu olhava, olhava desesperadamente em todas as direções, em busca de parâmetros, de modelos pelos quais me balizar. Avó e tias. Amigas e mães de amigas. Professoras de inglês e amigas da minha mãe. Cantoras da banda do Tom Jobim e jogadoras da seleção feminina de vôlei. De todas elas, eu buscava alguma coisa. Eu precisava aprender, entende? E eu não tinha uma mãe para me ensinar. Então – o que mais? – fiz o que tantas empresas fazem: terceirizei. E fui pegando de cada uma uma coisa – desta, o batom passado cuidadosamente com pincel; daquela, a sutileza ao corrigir a pronúncia de um aluno; daquela outra, a coragem de se levantar e ir embora.

Quando menstruei pela primeira vez, foi minha tia quem estava lá para me explicar coisas de óvulos e discorrer sobre a diferença entre o sempre livre normal e o sempre seca. Quando me meti na primeira monstruosa enrascada sentimental, foi minha melhor amiga que ouviu minha lenga-lenga com paciência infinita, mesmo sabendo que tudo daria errado no final. Quando passei no vestibular. Quando detestei o primeiro ano da faculdade. Quando adorei o segundo. Quando comecei a atender. Quando.

***

Então, se aos vinte eu estava preocupada com assuntos que tinham cerca de uma década de atraso, nada mais natural que, aos trinta, eu esteja me ocupando de coisas que deveriam ter sido centrais por volta dos vinte.

Vou usar o método covarde de dizer primeiro o que uma coisa não é para só depois me aventurar pelo que ela é. Assim, uma coisa que _não_ me preocupa é saber o que faz de uma pessoa que admiro – intelectualmente, musicalmente, a-nível-de-pessoa-mente – ser assim admirável. “Como é possível Marilena Chaui saber tanto e escrever tantos livros” – ou Maria Schneider com seus discos ou minha avó com suas festas. Isso, gente, tudo bem. A resposta para isso tudo é bem simples: trabalho. Porque por mais que a gente dê páginas e páginas de desculpas nos nossos projetos FAPESP explicando em detalhes a “metodologia” da pesquisa, eu, você e o parecerista sabemos que a pesquisa em si consiste numa coisa só: ler, pensar, escrever, repeat. No caso da Maria o processo também envolve ouvir e, no da minha avó, envolve constantes idas ao supermercado – mas, a despeito das variações circunstanciais inevitáveis e mínimas, o cerne do processo é um só: para ser bom (o que é diferente de se dar bem), trabalhe e esqueça-se da passagem do tempo.

O que me preocupa, hoje em dia, não é saber como Marilena Chaui escreve textos tão iluminadores ou Maria Schneider compõe peças tão iluminadas. Isso é com elas. Aliás, danem-se elas. O que me preocupa – mais do que preocupa, acho que intriga é a palavra – é como pessoas comuns, não-geniais porém felizes e bem-sucedidas, resolvem as seguintes questões:

Enquanto tais pessoas leem, escrevem, compõem (isto é, levam uma vida rica e interessante) – quem limpa a casa para elas? Elas têm uma faxineira que vem uma vez por semana? Outros membros da família cuidam da casa enquanto elas trabalham? Elas mesmas fazem a faxina ao fim do dia? Comem em casa? Cozinham a própria comida? Têm quem cozinhe para elas? Não cozinham e almoçam no quilão da esquina? Conseguem pagar as contas com o próprio trabalho? Sempre conseguiram? Já foram sustentadas por pais ou cônjuges por longos períodos? Pagam o imposto de renda direitinho? Tentam sonegar? Pedem nota fiscal paulista? Têm fundo de renda fixa? Pagam aluguel ou prestação de carro? Pagam o IPTU antecipado? Dividem em dez prestações? Usam cartão de crédito para acumular milhas? Não usam cartão de crédito para não estourar o orçamento? Fazem orçamento?

Questões nada filosóficas, como vocês podem ver. Nada sexy. Em vez de “o que é a morte” ou “como ser mulher”, chegamos a “como pagar as contas no fim do mês”.

E, vocês vão me desculpar, mas estas questões atuais são as mais interessantes e importantes que já enfrentei. E, no fundo, me parecem muito mais filosóficas e sexy do que todas as minhas mais sexy e filosóficas dúvidas anteriores. Não sei direito por quê. Talvez por serem bastante práticas – coisas de quem já passou bastante tempo lidando com a finitude humana e com a diferença entre os sexos. Coisas de quem, embora saiba com muita tranquilidade que nenhuma questão jamais será plenamente resolvida e todas serão sempre retomadas mais dia menos dia, está enfim começando a viver a própria vida sem ter de pedir licença. A vida é minha, afinal. Sou eu quem cuido. E estou aprendendo a lidar com o paradoxo de que o momento mais incrivelmente egoísta da minha vida, em que mais e melhor cuido de mim mesma, meu corpo, minha casa, meu trabalho, minhas coisas – é também o momento em que me dedico com um afinco sem precedentes a cuidar de outra pessoa.

***

Meus quarenta anos prometem. É mais ou menos por aí que as pessoas começam a lembrar que vão morrer – mas eu, ih, já pensei nisso tudo bem antes.

Em suma: esperem grandes coisas de mim daqui para frente. Nem que sejam novos posts ruins toda semana.

8 Comentários on “Questões existenciais”

  1. #1 Luciano
    on Apr 4th, 2012 at 3:25 am

    Usar “janta” ao invés de “jantar” já mostra que você tem, creio, menos uma questão existencial para lidar. Para as questões “nada filosóficas” atuais, acho que ajuda ouvir “Lady Madonna” de vez em quando.

  2. #2 renato
    on Apr 4th, 2012 at 12:10 pm

    Camila, não é pessoal, mas fazendo uma análise sociológica é mais ou menos quando essas questões aparecem que a pessoa em geral anda para a direita no espectro político, fazendo número à máxima do Paulo Francis: “quem não foi de esquerda quando jovem, não tem coração, quem continua sendo quando adulto não tem cabeça”.

    Portanto, se quiser uma dicas de candidatos tucanos, me avise :-)

  3. #3 googala
    on Apr 4th, 2012 at 6:48 pm

    imagino então um poste seu daqui a 10 anos. :>)
    Demais.

  4. #4 Manuel
    on Apr 5th, 2012 at 2:57 pm
  5. #5 olivio
    on Apr 9th, 2012 at 9:50 am

    Excelente post, para variar. Beijos! E veja só Camila: A Marilena Chauí cozinha e ainda sai publicada!

  6. #6 camilalpav
    on Apr 14th, 2012 at 10:09 pm

    Googa, obrigada pelo seu comentário, mesmo. Manuel: conheço bem esse livro, é bem divertido! Mas tem várias falhas, tipo receita cujo modo de preparo não faz uso de todos os ingredientes listados. Ainda assim, bem, as autoras têm moral…

  7. #7 Ligia
    on May 16th, 2012 at 9:47 am

    Camila, tb sou lenta p questoes existenciais, e babo de inveja da Marilena Chauí…. Nao sei quem limpa a casa dela, mas, já desencanei sobre essas questões histerohigienicas. Prefiro ler blogs no meu tp livre, e…meus 50 prometem (espero pequenas coisas daqui prá frente)… bjs

  8. #8 camilalpav
    on May 16th, 2012 at 5:15 pm

    50 anos e pequenas coisas – rá. Esse texto eu escrevi num momento claramente muito empolgado. Sua previsão é bem mais realista inclusive para a minha própria pessoua. :-)

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