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Histórias de Metrô e Ônibus (I)

Não sei se isso se repete em outras cidades brasileiras, mas aqui em São Paulo, em horário de pico, alguns pontos de ônibus têm o que chamo de fila A e fila B. O que eu e não nós chamamos porque o fenômeno é apenas semi-institucionalizado: ele se repete todos os dias, muitos sabem de sua existência e promovem seu funcionamento, e no entanto não é reconhecido pelos canais oficiais. Não tem nome. Não há placas explicativas no ponto do que sejam as duas filas (A e B, 1 e 2, Tonico e Tinoco, vocês é quem sabem) e nem você irá encontrar no site da Secretaria de Transportes um Manual de Etiqueta da Fila Dupla, com regras do tipo não impeça o fechamento das portas. Talvez o que estou para explicar seja bem óbvio e notório, mas como conheço muita gente que não sabe nem que as cordinhas dos ônibus de São Paulo foram há muito substituídas por botões, menos conhecimento ainda elas devem ter, suponho, da Ética da Fila Dupla.

Funciona assim: a fila A é a fila por excelência. Manja o “não pense numa maçã vermelha?” Pois bem: “não pense numa fila” e é na fila A que você estará pensando. As pessoas esperam, uma atrás da outra. O ônibus chega. Os passageiros descem. Os da fila A sobem e sentam-se. Até aqui, tudo muito emocionante.

A fila B, por sua vez, é destinada a todos aqueles que, uma vez acomodados no ônibus os passageiros da fila A, não se importam em ir de pé e esmagados até seu destino final.

A consequência prática disso é que a fila A é sempre maior, mas anda mais rápido (mais pessoas entram no ônibus); e a fila B costuma ser menor, mas em compensação é um pouco mais lenta. Vai daí que, quando os futuros passageiros vão se aproximando da bifurcação de filas, quase sempre é possível ver aquele meio segundo de hesitação em que 1) a pessoa desconhece o sentido daquilo e se pergunta se uma das filas a levará por engano até Guarulhos, Paquetá ou Osasco; ou, mais provável 2) faz complexos cálculos de custo x benefício, considerando se vale a pena esperar um pouco mais e ir sentado ou encoxar e ser encoxado a viagem inteira e pegar logo o próximo ônibus.

Este é o ponto em que os leitores que acham que ônibus tem cordinha irão perguntar: mas qual é o momento preciso em que se interrompe o fluxo da fila A e começam a subir os passageiros da fila B? Não acontece de aparecer um engraçadinho na fila A que, com o jeitoso argumento do “sempre cabe mais um”, usurpa o direito inalienável do passageiro da fila B de encoxar e ser encoxado a viagem toda?

E, realmente, sou obrigada a conceder que, se os passageiros fôssemos deixados à nossa própria sorte, esse tipo de divergência provavelmente ocorreria. E isso porque somos um povinho incivilizado, tataranetos de portugueses e índios, e nunca seremos educados como os europeus e americanos? Pode ser, mas pessoalmente prefiro a hipótese de que, depois de alguns não-breves momentos entaladas no sistema de transporte público de nossa cidade (praticamente todos os que tomam ônibus no ponto desta história vêm do metrô), a maioria das pessoas considera bem difícil sustentar o altruísmo e privilegiar o bem comum.

Felizmente, porém, estas são questões apenas teóricas, porque para a nossa alegria e contribuindo para o baixíssimo índice de desemprego do país, existe um funcionário da empresa de ônibus designado para controlar o fluxo de entrada das filas. É um senhor muito sorridente e muito banguela, que gesticula mais do que controlador de tráfego aéreo (me refiro ao pessoal que fica na pista, claro, não aos caras com foninho-da-Madonna que orientam da torre). Quando o ônibus para no ponto e os passageiros terminam de descer, não existem mais na fila estudantes e bancários, manicures e encanadores, faxineiras e advogados: somos todos, por alguns minutos, funcionários do senhor controlador, todos nos esforçando para cumprir suas ordens com rapidez e eficiência. Porque às vezes ele também inventa de mudar o lugar das filas, deslocando-as para lá ou para cá. “Por aqui, jovem!”, “Um passinho à frente, freguesia!”, e obedecemos todos sem hesitar, porque ele é esse tipo de pessoa. Nunca vi ninguém se atrever a entrar no ônibus antes de ele se curvar para frente, dobrar ligeiramente os joelhos, tirar um chapéu invisível da cabeça e indicar a porta com os dois braços. Quem acha que cabelos brancos são respeitados não conhece o poder da banguela.

Mas é claro que seu gesto mais importante, longe de ser o “liberô, pessoal!” pra entrar no ônibus, é aquele que indica o fim da entrada da fila A e o começo da fila B. Como desço logo no segundo ponto, sempre estou nesta última, e sempre fico extremamente atenta a qualquer sinal do controlador. Isso uma ou duas vezes por semana, há mais de ano.

Até que, outro dia mesmo, todo esse delicado equilíbrio operacional quase foi posto a perder.

Metade do ônibus já estava ocupada pela fila A quando, saído de algum protetor de carter das redondezas, um minúsculo gato, menor do que muito rato, se posta um metro à frente do ônibus e começa a miar. E mia e mia como se estivesse diante de uma tigela de leite gigante.

A maioria das pessoas da fila B nem nota. Outras, porém, já estão desenhando coraçõezinhos internamente quando o sinalizador, sem aviso prévio, larga o posto e vai atrás do gato.

Os que não haviam reparado agora reparam. E os que esboçavam coraçõezinhos largam mão do sentimentalismo e observam a cena, preocupados.

O controlador cerca o gato, que pula e se aproxima do ônibus em vez de se afastar. A fila A continua se mexendo. O gato fugindo do homem e se aproximando do ônibus. O ônibus quase lotado. A fila B se agita. Lá se vai a nossa chance! É agora que a gente não entra nesse busão! O controlador concentrado no gato. O gato na tigela de leite gigante. A fila A fingindo que não é com ela.

E então, como nos filmes, no último segundo o gato dá um duplo mortal carpado e volta para o protetor de carter que lhe era de direito, liberando o controlador no momento exato de bloquear a fila A e sorrir para nós, os eleitos da fila B, enfim agraciados com a bênção de voltar para casa.

Ninguém pergunta nada, mas ele se explica:

- Sabe o que é. Criação assim, em casa, eu tenho é três. Tem que cuidar.

Entre manicures e encanadores, faxineiras e advogados, passo meu curto trajeto pensando nisso. Ele está certo.

Tem mesmo é que cuidar.

7 Comentários on “Histórias de Metrô e Ônibus (I)”

  1. #1 googala
    on Apr 4th, 2012 at 6:53 pm

    !!!

  2. #2 Tiago F.
    on Apr 5th, 2012 at 7:49 am

    Nos trólebus do Jabaquara tem duas filas institucionalizadas (com placa e tudo na hora do rush), uma pra quem quer ir sentado e outra pra quem quer ir de pé. Geralmente a fila dos sentados é maior e a fila dos que vão de pé e esmagados é mais rápida.

  3. #3 Marcos
    on Apr 6th, 2012 at 1:26 am

    Eu sempre vi um fenômeno parecido.

    As pessoas saíam da fila principal e começavam a formar uma nova fila quando viam que o ônibus já não tinha mais banco vago. Quando essas pessoas, que querem ir sentadas e vão pegar o próximo ônibus, cedem o lugar e vão para a fila do próximo ônibus, as pessoas que estavam atrás delas e não se importam de ir esmagadas ganham o direito de entrar no ônibus.

    Não precisa de funcionário interromper o fluxo de uma fila e permitir a entrada de outra. É só seguir o movimento e decidir que tipo de pessoa você é.

    Existe alguma coisa nas filas que diz muito sobre a nossa sociedade. Não sei bem o que é, mas existe.

  4. #4 olivio
    on Apr 9th, 2012 at 10:05 am

    O interessante é que a pretexto de falar de filas de onibus, voce acaba fazendo um interessante painel de nossa sociedade. Imagino a fila debaixo de chuva…

  5. #5 camilalpav
    on Apr 14th, 2012 at 10:06 pm

    Tiago, valeu pela informação sobre o Jabaquara – aqui na ZN ainda não chegamos nesse nível de sofisticação com as placas. E, Marcos, eu também acho que alguma coisa nas filas diz muito sobre a nossa sociedade – a hora que eu descobrir o que é, prometo vir aqui contar. Googa: só queria te dizer que o corretor do Mac quer que eu te chame de Gogó. :-P

  6. #6 Carla Gottschalk
    on Apr 17th, 2012 at 9:33 am

    Camila, Sao Paulo e’ um lugar estranho. Minha alma de baiana nao consegue compreender esse negocio de fila A, fila B, controlador de fila e o escambau! Se essas filas de onibus dizem algo sobre a nossa sociedade, eu nao quero nem saber o que significa o bolo de gente querendo entrar no onibus ao mesmo tempo, todo o tempo, em todos os pontos, todos os onibus, que se ve na minha Bahia.
    Saudacoes soteropolitanas.

  7. #7 camilalpav
    on Apr 17th, 2012 at 9:17 pm

    Carla, tenho uma amiga que acabou de passar 6 meses na Bahia e disse que o transporte público lá é realmente desesperador, de ônibus leva-se duas horas pra chegar até a esquina. :-( Beijos paulistanos!

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