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Histórias de Metrô e Ônibus (II)

É muito raro eu pegar ônibus na Paulista. Não faz mesmo muito sentido, já que o metrô é muito mais rápido. Mas, bem naquele dia, eu vinha de um lugar extra-rotina e calhou que o ônibus que tomei me deixaria exatamente na esquina de que eu precisava, na Bela Cintra. Além disso, eu estava adiantada de horário – evento que, em São Paulo, chega a dar um pouco de medo, pois as forças cósmicas do trânsito paulistano seguem a lógica dos cassinos: você pode até dar sorte um dia ou outro, mas a casa sempre ganha no final. Então, naquele dia em que tudo dá certo, quando o metrô não apresenta falhas técnicas e o ônibus recebe a visita de um vendedor de trufas, pode ter certeza de que no dia seguinte o mínimo que lhe irá acontecer será deixar o bilhete único em casa.

Mas aquele foi o dia em que o jogador ganha da casa, Davi vence Golias e a cidadã paulistana chega ao seu compromisso com quinze minutos de antecedência, tranquila e descansada: para além do milagre do horário, o melhor lugar do ônibus estava vago. Você sabe qual: o mais alto de todos, que lhe dá ímpetos de I’m the king of the world apesar de você estar longe, bem longe da menina Winslet ou do menino DiCaprio.

Então lá estava eu, adiantada e empoleirada no meu trono de rainha do busão, quando o fato que transformei em pretexto para escrever esta história enfim aconteceu. Pela janela, aparece uma bailarina naquela pose de bailarina de caixinha de música que vocês seguramente sabem qual é: mãos erguidas para cima em arco, pernas cruzadas, tronco ligeiramente inclinado para o lado. Não sei se isso tem algo a ver com padedê, ou mesmo se a bailarina sabe o que é um padedê, pois provavelmente ela não era mesmo bailarina: era artista de rua, atriz alternativa, militante, provocadora, enfim, uma dessas coisas modernetes e fofas que a Paulista sempre foi pródiga em abrigar. Ela estava toda de branco, rosto, pescoço, braços, tutu, meia e sapatilhas, mas não como aqueles caras tipo Blue Man Group que se pintam inteiros de dourado ou prateado. Assim como eles, porém, ela estava imóvel, e vinha sendo retumbantemente ignorada pelos passantes, naquela triste indiferença blasée que assola os moradores das grandes cidades.

Esquina da Paulista com a Brigadeiro, a bailarina imóvel em seu pedestal e eu me perguntava o que levava aquela moça a estar ali, às cinco da tarde, em meio à multidão indiferente, sorrindo toda de branco e pairando com leveza em meio às pessoas que corriam para pegar o metrô antes do horário de pico. Seria uma proposta de intervenção (ou instalação, nunca sei a diferença) artística para provar que existe, sim, amor em São Paulo? Para fazer as pessoas pararem e refletirem sobre a paralisante pressa das cinco da tarde? Estaria ela fazendo seu doutorado na ECA sobre arte interativa? Teria rejeitado um emprego 9-às-5 para estar ali fazendo aquilo em que acredita? Seria sustentada pelo papai? Ou, ao contrário, teria deixado a casa dos pais justamente por não ter se disposto a cursar Administração e preferido fazer o curso de Arte e Dança na Unicamp, sendo um dos estágios obrigatórios pagar mico na Paulista?

Felizmente, o trânsito colaborou e deixou o ônibus parado naquela esquina por cinco minutos, ao longo dos quais – eu contei – as únicas pessoas que prestávamos atenção na bailarina eram o motorista, a cobradora e eu. Até que uma quinta pessoa entrou em cena.

Eu estava esperando que alguém, mais tarde ou mais tarde, fosse parar e olhar para a bailarina. Felizmente, a vida é menos previsível do que as tretas do tuíter, e em vez disso uma mulher, ao passar pela bailarina, deu corda numa caixinha ao lado do pedestal que eu, até aquele momento, não havia visto. Foi um momento meio eureca e meio sorvete-na-testa para mim: a bailarina estava parada porque ninguém lhe dera corda, ora bolas. Era uma bailarina de caixa de música, afinal.

Mas o que era para ter sido um momento feliz de reconhecimento – enfim, a bailarina fora apreciada como tal – só fez reforçar o vazio em que ela se encontrava: a mulher que deu corda não ficou ali para ver a bailarina dançar, tendo corrido como todos os outros em direção à entrada do metrô.

Depois de sorrir e curvar-se para frente em agradecimento – gestos que sua benfeitora nem chegou a ver -, a bailarina deu uma voltinha e reassumiu a postura inicial.

E, quando eu já começava a me perguntar quanto tempo mais ela teria de permanecer naquela posição, eis que ela faz uma careta e enfia a mão por dentro da roupa, no meio dos seios. (Nunca tive suficiente destreza para guardar cacarecos no sutiã, como as prostitutas dos filmes, e isso me entristece um pouco.) Saca um celular do peito, apoia todo o peso do corpo numa perna só e começa a digitar loucamente, tão alheia ao seu entorno quanto todas as pessoas que por ela passavam.

Nas palavras do motorista do ônibus:

- É… O celular tocou, a brincadeira acabou!

Foi como se, em plena Disney, Mickey ou Pluto tivessem tirado sua cabeça de bicho, colocado-a debaixo do braço e saído para tomar uma cerveja no bar.

O ônibus partiu antes que a bailarina terminasse de responder a mensagem.

7 Comentários on “Histórias de Metrô e Ônibus (II)”

  1. #1 Ana Lauria
    on Apr 15th, 2012 at 3:52 pm

    Lindo Camila! Cada dia melhor!

  2. #2 camilalpav
    on Apr 15th, 2012 at 6:05 pm

    Fico feliz que tenha gostado. :-)

  3. #3 priscila vieira
    on Apr 15th, 2012 at 8:52 pm

    “você pode até dar sorte um dia ou outro, mas a casa sempre ganha no final” <<—- sinto-me assim constantemente, quando dou sorte de pegar um ônibus instantes depois de chegar ao ponto, pode crer que ou 1) esse ônibus vai enguiçar 2) no dia seguinte eu vou perder a hora e ficar 40 minutos à espera do próximo.
    tô aqui rindo do "trono de rainha do busão", mas eu nunca entendi bem o apelo desse banco, ele é sempre o primeiro a ser ocupado. se bem q eu sinto menos enjôo quando vou sentada nele, mas não é muito bom pra inclinar o corpo e dormir.
    e olha, que legal essa história da bailarina, aqui a gente nunca encontra artistas de rua, fora um ou outro michael jackson muito raramente. mas não reclamo, porque as pessoas comuns já me dão diversão bastante.
    às vezes eu guardo dinheiro no sutiã, quando não tenho bolsos e bolsa, é toda uma sensualidade na hora de retirar, é daóra, recomendo.
    eu suponho que o ônibus te dá mais, digamos, entretenimento, pelo fato de vc não passar por dentro de túneis e poder ver a paisagem e os elementos dela, eu faço exatamente o mesmo percurso há mais de dez anos e nunca me cansei de olhar, até porque ela tem mudado muito desde então.

    beijo, camila :)

  4. #4 camilalpav
    on Apr 15th, 2012 at 9:29 pm

    Você sabe que seu tuíter é a inspiração para estes posts, né? Beijos, querida.

  5. #5 olivio
    on Apr 16th, 2012 at 4:53 am

    Que crônica legal, Camilú!…

  6. #6 Elisete
    on Apr 22nd, 2012 at 5:41 pm

    Rindo até agora, eu daria muito para ver a cena. Bjo

  7. #7 camilalpav
    on Apr 22nd, 2012 at 7:30 pm

    Outras pessoas leram este mesmo texto e acharam a história tristíssima! Legal que ela dá margem a interpretações opostas. Beijo pra você também.

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