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O capitalismo e as abóboras

Fila do caixa do supermercado: aquele lugar onde você espera, mas o capitalismo não.

O capitalismo está à sua espreita na lâmina de barbear que, à primeira vista, parece produzir escoriações na face, mas quando você olha de perto para os pipocos vermelhos da foto percebe que são apenas as marcas de batom com as quais o feliz usuário da lâmina será alvejado, e azar o dele se ele for gay (i.e. não tiver interesse em mulher) ou hetero (i.e. não tiver interesse em batom). O capitalismo está pulando no seu pescoço com a revista de hómi-macho que ensina o homem com pretensões a macho a dirigir o carro bem rápido e ter mais mulheres, ou a dirigir a mulher e ter bem mais carros, tanto faz. O capitalismo gruda na sua perna a cada bombom de chocolate estrategicamente colocado na mesma gôndola em que a revista de mulé-mulherzinha ensina a emagrecer apenas e tão-somente com a substituição das refeições pela revolucionária bala de gelatina. O capitalismo, por fim (será que há um fim?), está nas ecologicamente corretas sacolas renováveis produzidas no Camboja e importadas ao desprezível custo de algumas toneladas de diesel – tudo isso apenas para que você, pessoa especial que se preocupa com a saúde do planeta, possa utilizá-las para carregar suas lâminas-produtoras-de-batom, suas revistas produtoras-de-mulher-e-carro, suas revistas redutoras-de-gordura-e-celulite, seus chocolates-produtores-de-felicidade (discordar deste último item, quem há-de).

Então, quando você achava que o capitalismo não podia se apoderar de mais nada, ele vai e rapta a sua abóbora.

***

Cliente mais? CPF na nota? (Sim, não, quem se importa?)

Manteiga – bip! Creme de leite – bip! Limões – bip! Abobrinha…

Abobrinha?

_ Hmm, o que é isso? _ pergunta a funcionária do caixa, intrigada pelo belo vegetal rajado de verde claro e verde escuro.

_ Abobrinha italiana _ respondo, subitamente deprimida por viver em um mundo onde as abobrinhas são menos populares do que as balas de gelatina.

Passa o gerente e:

_ Abóbora brasileira.

Eu rio:

_ É abobrinha italiana.

_ Abóbora brasileira.

A funcionária de outro caixa sai em minha defesa:

_ É abobrinha italiana sim.

O gerente parecia conhecer apenas duas palavras em todo o léxico:

_ Abóbora brasileira.

_ Abobrinha italiana!

_ Abóbora brasileira.

Eu poderia dizer “sabe o que é, moço” e desfiar todo o meu não-pequeno histórico de envolvimento com abobrinhas italianas para tentar convencê-lo de minha autoridade no assunto. De repente, porém, enjoei do instrutivo e desafiante jogo do Qual É a Abóbora e decidi ser sincera:

_ Olha, eu amo abobrinha e tenho certeza de que esta é italiana, mas se quiser passar como brasileira até prefiro - é mais barata mesmo.

A temperatura do supermercado cai uns 5 graus, de tanto que o gerente gelou:

_ Mariene, certeza que é abobrinha italiana mesmo?

_ Certeza, senhor.

_ Então é abobrinha italiana.

Se isto fosse um filme:

Sobem os créditos. Entra a canção.

4 Comentários on “O capitalismo e as abóboras”

  1. #1 Leandro Oliveira
    on May 17th, 2012 at 6:30 am

    SEN-SA-CI-O-NAL! HAHAHAHAHA

  2. #2 renato
    on May 17th, 2012 at 12:28 pm

    Sobre dizer “quem se importa?” com a Nota Fiscal Paulista.

    Segundo aprendemos em uma crônica do “para gostar de ler”, abobrinha pode significar uma grana preta. Nesse caso, o da grana preta, faz sentido o sujeito não entrar na NFP, para que a fiscalização não “pegue” movimentações ilegais, etc.

    Já para quem compra abobrinha mesmo (e aí pode ser de qualquer nacionalidade), a NFP garante uns trocos semestrais que equivalem a cerca de um carrinho cheio de abobrinha (italiana).

  3. #3 Bruno Cava
    on May 27th, 2012 at 3:12 pm

    Adorei o estilo.

  4. #4 camilalpav
    on May 27th, 2012 at 4:09 pm

    Ô meninos, obrigada pelo reforço positivo aí! o/ :-)

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