Coisas que não guglaríamos por conta própria

Dia desses uma amiga me escreveu (oi, amada) dando conta de um dilema daqueles bem “quem nunca”. Funciona assim: você é sozinha. Aí você percebe que não gosta de ser sozinha. Aí você lembra que é sozinha porque não tem o menor saco de estar com as pessoas. Aí você fica sozinha. Bis. Se você não se identifica ou não empatiza nem um pouco com esse dilema, fique à vontade para ir dançar o cuduro ou discutir o comprimento dos pêlos pubianos dos outros, porque, vai por mim, este post não é para você.

Quando recebi o e-mail, respondi qualquer coisa bem rápida e clichê para minha amiga, só para não cair no clichê maior ainda de ficar dois meses para responder um e-mail cheio de dilemas tão difíceis quanto (sim, querida, estou falando de você. Tudo bem por aí? Beijos nas crianças). Então este post é minha tentativa de resposta menos rápida e ligeiramente menos clichê – para minha amiga, mas sobretudo para mim mesma.

O mundo, onde moram as pessoas, é um lugar verdadeiramente aflitivo. Mas isso você já sabia. O que você talvez não saiba é que essas duas amigas aí de cima não são bem pessoas e não moram exatamente no mundo. Elas são minhas amigas, e vivem na bolha.

A bolha é um lugar feliz e confortável, onde posso conversar com os outros sem maquiagem, sem sutiã e sem sapatos. Que nem: quando minhas amigas vêm em casa (e repare que quando digo ao meu marido que minhas amigas vêm em casa, ele não precisa perguntar quem é, porque há apenas duas amigas que vêm regularmente à minha casa. Já faz mais de ano que o porteiro deixou de anunciá-las, etc.), isso não é estar no mundo. Não: isso é me refestelar na bolha. Quando vou ao Rio encontrar gente com quem converso todos os dias, isso nada tem a ver com me aventurar pelo mundo. Isso é a experiência mais confortável que há. De novo, é sambar na bolha.

O mundo, o mundo é diferente. O mundo quase sempre requer a proteção de um um bojo reforçado, um salto quinze, um lápis de olho.

***

Esta semana fiz duas incursões pelo mundo: almocei com um colega de classe e fui a um casamento. Favor reparar que: o colega de classe não era um amigo-companheiro de Google Reader e sim um quase desconhecido com quem eu nunca fora além de um olá-difícil-o-texto-de-hoje-né; o casamento, por sua vez, foi de uma amiga que, para dizer de forma sutil, não é exatamente o tipo de pessoa que eu esperaria encontrar na Marcha das Vadias. Ou seja: mundo real na veia (ou na véia, o que também é estritamente verdadeiro).

E de repente, almoçando ali no mundo, me peguei ouvindo sobre um projeto de pesquisa belíssimo, que se propõe a investigar o que adolescentes negras de um bairro pobre imaginam, desejam e projetam para o seu futuro. E depois, festejando também no mundo, me percebi interessadíssima na conversa de um arquiteto e uma nutricionista. O arquiteto estava trabalhando no projeto de uma lanchonete e tirava suas dúvidas de normas da vigilância sanitária com a nutricionista, que trabalha com o controle de qualidade de uma grande rede de comidas rápidas.

Ou seja.

O mundo é um lugar desesperador em que as pessoas leem a Veja, divertem-se com humoristas politicamente incorretos e põem adoçante até no Toddy. O mundo frequentemente é um lugar de onde quero sair correndo para me aconchegar em posição fetal bem no centro da bolha. (E, aliás, não é outra coisa o que tenho feito neste blog: dar notícia das coisas estranhas e bizarras que acontecem no mundo – frequentemente, mas não só, em supermercados e ônibus – para os amigos da bolha.)

Mas o mundo é também, se não o único lugar onde se pode comer um bom bife, certamente o único lugar onde posso aprender algo sobre portarias da ANVISA e a história do Capão Redondo. Coisas que eu jamais guglaria por conta própria. Coisas em que eu nunca tinha parado para pensar. Coisas nem um pouco menos interessantes – e seguramente muito mais relevantes – do que as que encontro em minha vã vidinha de acadêmica e dona de casa.

A bolha é linda, mas não custa lembrar que ela não é um ecossistema fechado: os amigos da bolha de hoje foram, em tempos imemoriais, pessoas do mundo. E algumas pessoas que hoje moram no mundo bem podem vir a pedir transferência de título de eleitor para dentro da bolha.

Moral da história: “Deus ajuda quem cedo”, opa, graças a deus não é isso não, que se eu fosse depender de madrugar para receber uma ajudinha de quem quer que seja era melhor desistir de mundo e bolha antes mesmo de começar.

Às vezes eu preciso largar mão de ser besta (insegura. preguiçosa. simplesmente chata.) e dar ao mundo uma chance.

21 Comentários on “Coisas que não guglaríamos por conta própria”

  1. #1 Bel
    on May 27th, 2012 at 7:38 pm

    Dúvida: se eu for com vc pro mundo, conta como mundo ou como bolha? ;-)

  2. #2 Marcos
    on May 27th, 2012 at 7:57 pm

    Família e trabalho, como são ambientes com pessoas que não escolhemos, são boas maneiras de mantermos contato com o mundo.

    Bacana o texto XD

  3. #3 Mariana
    on May 27th, 2012 at 8:32 pm

    100% de identificação. obrigada, tava precisando mesmo de ouvir isso

  4. #4 camilalpav
    on May 27th, 2012 at 8:46 pm

    Você comigo-no-mundo é praticamente a auto-implosão da matrix. :-P

  5. #5 camilalpav
    on May 27th, 2012 at 8:48 pm

    Faz sentido, mas praticamente tudo o que se refere à minha família ou trabalho fazem parte da bolha – tenho sorte, eu sei.

  6. #6 camilalpav
    on May 27th, 2012 at 8:50 pm

    Não sei exatamente o que estavas precisando ouvir, mas que bom que ouviste. :-)

  7. #7 Luciana
    on May 27th, 2012 at 9:10 pm

    Eu tenho um bolhão. Tão espaçosa que, às vezes, eu esqueço que não é o mundo, sabe.

    Post tão preciso que eu tô querendo saber se você tem informantes nas bolhas alheias… ;-)

  8. #8 bete_davis
    on May 27th, 2012 at 9:15 pm

    caralho- só o palavrào define nessas horas. me li aí. amei.

  9. #9 fal
    on May 27th, 2012 at 9:32 pm

    Fia, já dei chance e já mifu. Agora é só bolha. Ri alto aqui, Cam, gracias.

  10. #10 Renata L
    on May 27th, 2012 at 9:36 pm

    Cara, tava nessa conversa bem ontem com amiga. “Da bolha”. Que me dizia como é difícil sair da bolha.

  11. #11 Renata Lima
    on May 28th, 2012 at 5:12 am

    Uau.
    Como disse a Lu, tão preciso que vc parece ter informações das bolhas alheias.
    A minha bolha é de pelúcia cor de rosa, e nela só cabem minha família próxima, meus amigos, meus livros e meus bichos – não necessariamente nessa ordem. Mas as vezes o mundo de fora da bolha também pode ser brilhante.
    Dilema compartilhado.

  12. #12 camilalpav
    on May 28th, 2012 at 6:12 am

    Que informante que nada, a gente é que samba na mesma bolha, Lu. :-)

  13. #13 camilalpav
    on May 28th, 2012 at 6:12 am

    \o/

  14. #14 camilalpav
    on May 28th, 2012 at 6:14 am

    Hahahahaha – como eu disse pra Lu, ainda bem que a gente samba na mesma bolha, mana.

  15. #15 camilalpav
    on May 28th, 2012 at 6:14 am

    Nossa. Duas vezes na semana é recorde pra mim. Exercício constante de tolerância – não aos outros, mas à minha própria chatice.

  16. #16 camilalpav
    on May 28th, 2012 at 6:15 am

    Sim, é um dilema que se renova todos os dias.

  17. #17 Deborah Leão
    on May 28th, 2012 at 7:23 am

    Eu vivo me esforçando pra sair da bolha, porque ela é quentinha e confortável. Ou pelo menos pra expandir a bolha, porque se deixar, ficamos só eu, Ricardo e o cachorro ali, enroscadinhos embaixo das cobertas, comendo pão de queijo. Se minha mãe pedisse muito, eu deixava ela visitar.

    Não tenho o menor talento pra maquiagem, salto 15 e sutiã de bojo, deve ser por isso que tenho tanto medo e tanta preguiça do mundo lá fora.

  18. #18 olivio
    on May 28th, 2012 at 10:42 am

    Nessas horas que eu espero receber a alcunha de “seu bolha” e fazer parte de seu mundo…

  19. #19 camilalpav
    on May 29th, 2012 at 4:45 pm

    Mas Deborah, sabe que essa bolha de que você está falando, casa-marido-pão-de-queijo (no meu caso não tem cachorro, e ainda não tem pão-de-queijo, mas terá em breve – já comprei os polvilhos) eu nem incluo na bolha mais ampla do post. Aliás, foi muito bom vislumbrar sua pequena bolha mais de perto naquele sábado tão agradável. :*

    ***

    Meu pai (dito com sotaque baiano-caetaneado, por favor): é claro que você faz parte do meu mundo, e nem poderia ser diferente. :-)

  20. #20 diogo
    on Jun 10th, 2012 at 7:16 am

    que bonito esse final…! não sei quanto a você, mas pra mim, liberdade e o não-saber desconfortável do mundo são indissociáveis

  21. #21 camilalpav
    on Jun 10th, 2012 at 4:13 pm

    Não tinha pensado por aí – mas agora que você escreveu isso, sei não, eu diria que a minha liberdade eu conquisto dura e provisoriamente cada vez que consigo transitar entre o mundo e a bolha. Abraço!

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