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Diálogos de Academia

Nestes diálogos e nesta academia, Sócrates é meu instrutor e meus músculos são os sofistas.

***

Da época em que eu ia à academia de manhã e suava o coco na pista da esteira:

_ E aí, moça! Tá sozinha hoje, o marido não vem?

_ Ele vem só à noite. Sabe como é: eu sou funcionária, ele é bailarino.

_ Seu marido é bailarino?

_ …

***

Meu modelo de elegância na vida são as meninas de quinze anos e ar blasé que passam horas na academia sem liberar uma gota de suor e sem deslocar um fio de cabelo do penteado. Elas levantam setenta quilos com as pernas enquanto mascam chiclé. Elas levantam quarenta quilos com os braços sem que escape nenhum pega-rapaz. Elas só não são perfeitas herderias de míssis Audrey Hepburn porque usam calça de oncinha cor-de-rosa, o que é uma pena. Mas isso de forma alguma diminui sua elegância: ao contrário do que se pensa, o contrário de elegância não é cafonice, mas simplesmente deselegância. Dou um exemplo para (o que mais?) exemplificar: uma das meninas da academia presta diariamente um tributo conjunto a Amy Winehouse e Adele, com lápis fazendo risca de egípcia na pálpebra e rímel criando toda uma cortina sobre os olhos. E nunca nada borra. Atenção para os conceitos: a maquiagem é cafonice. O não-borrar é elegância.

As meninas de quinze anos e ar blasé são extremamente cafonas em sua elegância ou elegantes em sua cafonice, não sei bem. Só o que é certo é que morro de inveja delas, que empurram e puxam toneladas com ar de quem medita ou lixa as unhas, enquanto que o deslocamento de alguns parcos quilinhos transforma minha cara em um tomate italiano.

***

O tríceps é a batata da perna do braço – ou, nas palavras de senhoras mais experimentadas na vida, o famoso _músculo do tchauzinho_. Segundo tais senhoras, só é possível despedir-se doutro ser humano com o braço nu e a alma serena até um determinado grau de malemolência do referido músculo. Ultrapassado esse grau, só as mangas bufantes salvam. Então, para adiar ao máximo o uso de puffy shirts, eu malho o tríceps, atividade que consiste em puxar uma cordinha pra baixo. Com o complicador de que há pesos na outra ponta da cordinha.

Uma, duas, três, dez puxadas. Feito.

Uma, duas, ugh, oito puxadas. Vá lá.

Uma, duas, credo, seis puxadas e meia.

_ Morreu? _ pergunta o instrutor, como se não soubesse a resposta.

_ Pois é.

_ Então vai lá _ e tira uma barra de peso da outra ponta da cordinha.

_ Mais quantas?

_ Quantas dé, ué.

Quantas. Dé. Ué. Como não amar esse homem?

***

Todo mundo tem algumas palavras ou expressões que, ao serem ouvidas, provocam calafrios de dar gripe. As minhas são:

_ Acabou o parmesão!

_ A lauda tem 2500 caracteres.

_ Vai ter roda de violão!

Mas todas essas são #sussa quando meu instrutor, que inicialmente pedira uma série de dez repetições em determinado exercício, subitamente muda de ideia quando estou na oitava puxada ou empurrada de ferro. Aí, amgs, é #mtoloco:

_ Tá dando doze, tá dando doze!

A minha vontade é de responder:

_ Só se for a tua mulher.

Mas eu me controlo. Ele só quer o meu bem e, fundamentalmente, o quanto se quer ou se pode dar é uma questão individual de cada um.

***

Eu era sedentária convicta até poucos anos atrás. Hoje vou à academia quase todo dia. Faço parte de uma eclética turma na qual figuram o recepcionista emo; um faxineiro que com certeza me odeia porque sou a última pessoa a sair e sempre deixo copinhos de plástico no lixo para o dia seguinte; duas faxineiras que parece que não me odeiam, mas deveriam, pelo mesmo motivo do faxineiro; o instrutor; a namorada do instrutor (ela treina um pouquinho, eles namoram um pouquinho, coisa mais fofa não há); a moça que gosta de cantoras inglesas; uma tia (tia mesmo, não tô chamando ninguém de véia) e sua sobrinha (que é uma das meninas-blasée); outra menina-blasée; às vezes outro instrutor; às vezes meu marido. Todos os dias ouço meio disco no ipod e duas vezes por semana leio vinte páginas de um livro qualquer. Chego em casa e me prostro no tuíto. Depois tomo banho e faço muque em frente ao espelho. Constato que meu muque hoje está maior do que quando eu era criança e estava na fase do muque (mãe, mãe, olha o meu muque, olha!). Constato que minha idade mental hoje não está maior do que quando eu era criança e estava na fase do muque (lindo, lindo, olha o meu muque, olha!). Morro de orgulho do meu corpo e, principalmente, de cuidar bem dele. Tenho um pouquinho de vergonha de admitir isso. Tenho suficiente senso de ridículo para saber que não sou mais ridícula que ninguém. E nem menos – eu leio Adorno na academia, amigos. Se isso não for mais ridículo que usar calça de oncinha rosinha, não sei o que é.

10 Comentários on “Diálogos de Academia”

  1. #1 priscila vieira
    on Jun 6th, 2012 at 6:47 pm

    ouvi essa semana uma frase q acrescentaria numa lista daquelas que me dão calafrios,
    “quer ouvir as músicas que eu fiz?”

  2. #2 camilalpav
    on Jun 6th, 2012 at 8:03 pm

    “Quer ler meu projeto de pesquisa?”

  3. #3 Renata L
    on Jun 6th, 2012 at 11:04 pm

    Gargalhei lendo isso. Embore adore roda de violão… =)
    Chegando em casa, da cerveja, sem ir à academia…
    lembro da minha última experiência de academia: o cara perguntou “há quanto tempo você não malha?” e eu: “faz de conta que eu nunca malhei na vida”. Melhor.

  4. #4 camilalpav
    on Jun 6th, 2012 at 11:38 pm

    Adorei o faz de conta e estou aqui tentando aprimorá-lo: “Vamos supor, teoricamente, que eu – aliás, eu não, uma amiga minha – nunca tenha malhado”. :-)

  5. #5 Bel
    on Jun 7th, 2012 at 7:39 am

    me diverti um monte com esse post! Fiquei pensando o que vc diria/escreveria dos meus coleguinhas de academia… em sua maioria velhinhos!! :-)

    ah, e se te consola, amiga, eu saio da esteira ou do transport e vou deixando um rastro de suor no chão… Pura deselegância…

    (ainda vou responder o seu e-mail, muita calma!!)

  6. #6 camilalpav
    on Jun 10th, 2012 at 4:10 pm

    Sei bem como são os velhinhos, convivi bastante tempo com as senhorinhas da hidro. Velhinhos também costumam ser deselegantes – a impassividade é própria dos adolescentes, né? Beijos!

  7. #7 Carla Gottschalk
    on Jun 12th, 2012 at 8:05 am

    Eu tambem tenho orgulhinho besta de estar no meu estado mais malhado desde os 18 anos. Estou beirando 42 com a bunda quase dura, o musculo do tchauzinho quase firme, e deixando as meninas de 15 anos e suas calcas de oncinha na poeira.

  8. #8 camilalpav
    on Jun 17th, 2012 at 12:27 pm

    Hahahahahaha, vc é uma inspiração para todas nós!

  9. #9 Marília
    on Aug 5th, 2012 at 12:18 pm

    Tenho certeza que todos professores e empregados da academia também me odeiam. Sou SEMPRE a última a ir embora.

  10. #10 camilalpav
    on Aug 7th, 2012 at 9:19 pm

    Acabou de acontecer agorinha há pouco. Morro de vergonha.

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