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A fornada do ipod (I)

Tenho ouvido muito pouca música; só mesmo na academia e lavando louça. A ironia é que finalmente tenho boas caixas de som em casa e só estou ouvindo música em fone de ouvido. Mas a ironia nem é tão grande assim: meu fone de ouvido é bom também. Sempre ouvi dizer que, quando se chega a uma certa idade, perde-se completamente a disposição de acampar e surge a necessidade de se hospedar em um hotel com água quente e secador de cabelo (ou, em bom português: toda véia é fresca. E rhykah). Pois bem: minha tenda de camping são aqueles foninhos branquinhos de iPod. Porque sabe do que mais? Tenho trinta anos. Já passei daquela fase de foninho-várzea, foninho-moleque, foninho-riponga. Os hippies que me perdoem, mas os graves de um bom fone de ouvido são fundamentais. E a tridimensionalidade. E o brilho. E a clareza dos timbres. Ufa: parece que, pelo menos no que diz respeito a fones de ouvido, sou rhykah, afinal.

Meu tocador de mp3, em compensação, nada tem de luxo ou glamour: pequenininho e antiguinho, nele cabe apenas um giga de música. Adoro que seja assim: é um prazer o ritual de, a cada duas semanas, apagar todas as músicas e preencher o ipod com uma nova leva de discos, que vou baixando, ripando e acumulando. Discos e livros são como a proverbial cenoura presa ao coelho que, inadvertidamente, corre em seu encalço: quanto mais os acumulo pelo HD e pela casa, mais ouço e mais leio (mais rápido eu corro) – e, ao mesmo tempo, mais cresce o número de obras não ouvidas, não lidas e não vividas (mais cresce minha fome).

Uma fome nunca saciada, sempre renovada. Na última fornada do ipod, havia os seguintes pãezinhos:

Brad Mehldau Trio – Ode
Johnathan Blake – The Eleventh Hour
Kiran Ahluwalia – Common Ground
Sandro Albert – Soulful People
Tigran Hamasyan – Aratta Rebirth
Tom Harrell – Wise Children
Vjay Iyer Trio – Accelerando

Alguns pães que eu acho que você deveria abocanhar:

Brad Mehldau Trio, Ode – melhor disco do Brad Mehldau, e olha que fazia tempo que eu não gostava de um disco dele. Neste último tem tudo o que aprendemos a amar nesse trio: temas em 7; pedacinhos do tema na mão esquerda quando menos se espera (gosto de chamar esses momentos de “fuga no jazz”); improvisos cheios de repetições de uma nota só; celulinhas melódicas torcidas, retorcidas, dobradas e desdobradas dezenas de vezes de todos os jeitos possíveis em diversos momentos e lugares. O que há de novo, para mim, foram duas coisas: em primeiro lugar, fica evidente o amadurecimento dele como compositor. Estou dizendo desse jeito formal e requintado, como se eu tivesse feito uma profunda análise das composições do fio dos anos 90 para cá, mas só o que posso dizer com o rabo entre as pernas é que, er, desta vez, pela primeira vez, gostei de absolutamente todas as composições dele. E a outra coisa é o som do disco – de longe, aqui se ouve o som de piano mais bonito que ele já tirou, comparável apenas ao do Places, de 2004; e o som do baixo também está magnífico, e de um jeito diferente do Larry Grenadier estouradão de praxe. Enfim: ouça.

Kiran Ahluwalia, Common Ground – tanto da música pop massificada de hoje em dia é desprovida de uma harmonia merecedora desse nome (ou, vamos dizer assim, de uma preocupação em fazer com que aqueles dois ou três acordes soem e soem bem) que, quando a gente ouve qualquer coisa um pouquinho diferente disso, a primeira tendência martelinho-no-joelho é logo chamar aquilo de jazz. Mas calma que Kiran não é uma cantora de jazz: isso aqui é música pop indiana, linda, rica e sempre cheia de possibilidades para quem, como eu, está bem pouco acostumada a esse universo. É um disco de particular interesse para guitarristas, pois Rez Abbasi cria climas nada menos que inspiradores para quem está preocupado em pensar e sentir novos caminhos para a guitarra. Enfim: ouça.

Tigran Hamasyan, Aratta Rebirth – Tigran Hamasyan é minha resposta favorita aos saudosistas de plantão. “Ah, mas nos anos 60 tinha o Bill Evans”. É, amigo, e agora temos Tigran – vai encarar? E não, Tigran nada tem a ver com Bill Evans, felizmente. Tem a ver apenas no sentido de que, como Bill Evans em sua época, ele é um dos faróis que apontam para onde esta música que tanto amamos está se encaminhando – e de forma totalmente diferente do que faz Robert Glasper, outro grande par de faróis de nosso tempo. Tigran provavelmente nunca será pop como Glasper (que, por sua vez, nunca será pop como Justin Bieber, porque a vida simplesmente é assim) devido à natureza mesma de sua música, que, apesar de dever muito à música eletrônica, está também firmemente enraizada numa tradição distante da nossa. Tigran é armênio e bastante versado na música folclórica de sua terra – isso fica evidente em Aratta Rebirth, que conta com vocais na língua armênia e músicas com seções em 6/8 ou 9/8 – ouça-se, por exemplo, The Glass-Hearted Queen, em 9. Aliás, ficadica: todas as músicas do disco estão disponíveis no youtube! \o/ Só não vale procurar performances ao vivo desse quinteto e depois vir reclamar comigo – porque a cantora, ao vivo, infelizmente não rola. Enfim: ouça.

3 Comentários on “A fornada do ipod (I)”

  1. #1 aiaiai
    on Jun 7th, 2012 at 3:52 am

    Total identificação com a história da cenoura, embora eu ache que não é cenoura e coelho, é cenoura e burro (ninguém quer q o coelho corra mais do que já corre, o lance é estimular o burro a levar a carga … certo?)

    Quanto às indicações, eu – ignorante musical que sou – não conhecia nada disso, então, valeu, vou tentar colocar mais essas cenouras na minha frente.

    bjs

  2. #2 camilalpav
    on Jun 10th, 2012 at 4:08 pm

    Na verdade o certo seria rato e queijo, né? É a metáfora padrão que todo mundo usa para falar de nós, trouxas que corremos na esteira. :-) Acho que pensei no coelho por causa dos “coelhos” das corridas, vai ver daí a confusão de bichos. Mas o burro, sinceramente, não sei de onde você tirou. :-) Beijos e depois me conta se gostar de alguma coisa!

  3. #3 Melhores Discos: Top 7 2012 + Top 3 Descobertas – Recordar, Repetir e Elaborar
    on Jan 3rd, 2013 at 10:55 pm

    [...] 3. Tigran Hamasyan – falei dele aqui [...]

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