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A fornada do ipod (II)

A fornada desta semana teve:

Alexis Cuadrado – Noneto Ibérico
D’Angelo – Brown Sugar
Guinga & Quinteto Villa-Lobos – Rasgando Seda
Miles Davis – Tribute to Jack Johnson
Wes Montgomery – Echoes of Indiana Avenue
Youn Sun Nah – Same Girl

Para você que ficou curioso ou que está simplesmente fingindo trabalhar enquanto o chefe não chega, recomendo especialmente:

Alexis Cuadrado, Noneto Ibérico – Depois do querido (quem disse que discos não podem ser queridos?) El Viento, de Vince Mendoza, passei a me interessar cada vez mais pela música flamenca (re)visitada pelo jazz. Além disso – e meu passado de tiete da Orquestra Popular de Câmera não me deixa mentir -, sempre gostei muito dessas formações maiorzinhas, de noneto pra cima, com vários sopros e possibilidades de combinação de timbres. Então, que eu tenha gostado deste disco de primeira não é nada surpreendente – o que é um pouco menos óbvio é que eu tenha voltado a ouvi-lo mais de uma vez e constatado que as composições realmente permanecem, sobrevivendo a várias audições e impondo-se com autoridade cada vez maior a várias audições. Nem tudo no disco é flamenco e, do que é flamenco, há muita diferença de padrões rítmicos de faixa a faixa, que provavelmente correspondem a subgêneros do flamenco que absolutamente desconheço. Há algumas introduções um pouco longas, se você for uma pessoa sem paciência – mas, pensando bem, se você não tiver paciência para um ou dois minutos de introdução, um ou dois minutos de qualquer coisa – como é que você faz pipoca no microondas? Esquenta o leite de manhã? Mas digressiono. Ah: Alexis Cuadrado, além de compositor, é baixista – e, como todo baixista de jazz que ganha a vida em Nova York, é bem bom – então, sim, haja solo de baixo. Ele tem um som que me agradou muito, em que – não sei como se diz isso tecnicamente, então vai toscamente mesmo: – se ouve (ou, antes, se adivinha) o contato dos dedos com as cordas, o que confere uma consistência bonita ao som. Ah 2: o disco tem também um momento rock’n'roll meets free jazz bastante bizarro e deslocado – “ah, esses jovens de hoje em dia”, minha bisavó já dizia. Enfim: ouça.

Guinga & Quinteto Villa-Lobos, Rasgando Seda – Cada novo acréscimo à discografia do Guinga é comemorado como gol do Corinthians aqui em casa – com a diferença de que, com o Corinthians, você sempre sabe o que está acontecendo, mesmo que não tenha nenhum interesse por futebol; com a música instrumental brasileira, ao contrário, mesmo que você tenha o maior interesse e procure bastante, não saberá que Guinga está com disco novo. Mas vamos ao que interessa: é muito bonito e impressionante ouvir os clássicos do repertório do Guinga – há apenas três músicas inéditas (ou, pelo menos, que eu nunca ouvi em lugar nenhum antes): Ellingtoniana, Valsa de Aniversário e Porto da Madama – nesta formação camerística acrescida, em quase todas as músicas, do violão do próprio. O Quinteto Villa-Lobos, coerentemente com o compositor a que presta tributo em seu nome, existe justamente para bagunçar o coreto das cisões radicais entre música popular e erudita, corpo e alma, natureza e cultura… Vocês vão achar que estou de sacanagem, mas sinceramente é nisso que acredito: esta suposta cisão entre música popular e erudita, em que (como todas as dicotomias, Derrida já dizia) há uma subordinação implícita de uma a outra, é totalmente tributária ao pensamento cartesiano, aquele em que uma mente paira soberana, controlada e impecável sobre um corpinho sem-vergonha que só quer saber de rebolar o tchan. Pois bem: o Quinteto Villa-Lobos refuta o pensamento de Descartes com música, pois conseguem a proeza de fazer música erudita suingada. Ouça a melodia de Destino Bocaiúva, em que os instrumentos se revezam na execução da melodia, e convenha comigo: se um músico “cartesiano” tocasse aquela série de notinhas repetidas, teríamos um ta-ta-ta-ta maquinal dos infernos. Felizmente, porém, há swing de sobra no disco todo, e lirismo a dar com pau, e algumas das melodias que mais marcaram minha vida, e Guinga cantando música inédita (Guinga cantando é como o Brasil segundo Jobim: é ruim, mas é bom). Enfim: ouça.

10 Comentários on “A fornada do ipod (II)”

  1. #1 Luciano
    on Jun 18th, 2012 at 2:08 pm

    Eu comprei esse do Dino Saluzzi na Argentina há um tempinho, mas ainda não ouvi. É bom?

    Falando em Argentina, descobri atrasado (na verdade um vendedor de Palermo super simpático me indicou) o Guillermo Klein & Los Guachos, estou vendo que tem um link aí do lado… que coisa linda o disco “Filtros”… A primeira música tem um dos solos de sax barítono mais bonitos que já ouvi.

    E gostaria (esses leitores folgados…) de ver sua opinião sobre essa lista:

    http://blog.allmusic.com/2012/06/07/allmusic-20-jazz-1992-2012-2/

  2. #2 anna v.
    on Jun 18th, 2012 at 7:02 pm

    Não conheço o Alexis Cuadrado, mas vou procurar. Também curto essas formações maiores, cameratas da vida.
    Quanto ao Guinga com QVL, é uma alegria mesmo. Os arranjos não são lindos demais?

  3. #3 camilalpav
    on Jun 18th, 2012 at 8:57 pm

    Putz, essas são duas recomendações bem pareadinhas, viu? Gostou de uma, acho difícil não gostar da outra. :-) // Demais o QVL, né? Fiquei chatiada de não ter ido ao show, o disco tá um chuchu de lindo.

  4. #4 camilalpav
    on Jun 20th, 2012 at 11:37 am

    Luciano, nunca ouvi nada do Dino Saluzzi que eu não tenha gostado, vai na fé. E Guillermo Klein é massa, né? O disco dele com Aaron Goldberg também é muito bom.

    Obrigada por essa lista do AMG, achei bem acima da média – me parece bastante corajoso e acertado incluir o Chamber Music Society e não o primeiro disco da Esperanza, por exemplo. E também é corajoso e bacana incluir o David S. Ware – nem conheço o disco que tá lá, mas é uma escolha merecida e não-óbvia. Tem vários discos ali que entrariam fácil numa lista minha: os de Joe Henderson, Josh Redman (se bem que dele eu provavelmente escolheria outro, o Elastic), Cassandra Wilson, Joe Lovano (o Rush Hour, na verdade, eu incluiria até em lista de supermercado, de tão lindo que é aquilo), Brad Mehldau (prefiro o 5, mas o 4 tá valendo), Vijay Iyer, Jason Moran (dele eu colocaria o último, meu preferido). Muitas boas recomendações ali – fiquei curiosa pra conhecer os do Tom Harrell e do Craig Taborn, gosto muito dos dois mas não conheço os discos que estão listados lá. E tem duas pessoas ali das quais nunca ouvi falar (você já?): Jane Bunnett e Horace Tapscott. Grande abraço!

  5. #5 camilalpav
    on Jun 20th, 2012 at 11:46 am

    Outro desconhecido: Grachan Moncur III. Obrigada de novo pelo link, adorei.

  6. #6 Luciano
    on Jun 20th, 2012 at 10:39 pm

    Também gostei da lista, muita coisa boa e muita coisa pra explorar. Não conheço esses dois que você destacou, mas pretendo montar uma playlist com a lista toda, depois digo o que achei. O Grachan Moncur III é um trombonista old school, conheci em uma coletânea da Blue Note (gravou com o Herbie Hancock, Archie Shepp e tantos outros figurões). Trombone não é o meu instrumento preferido pra solista, mas ruim o disco não deve ser :)

  7. #7 Honorato
    on Jun 21st, 2012 at 10:23 am

    Olha esse seu forno deve ter esquentado um bocado.
    Meu muito obrigado pelo Alexis Cuadrado, eu não o conhecia e com certeza me encantou à primeira “ouvida”.
    Agora o mais bacana mesmo foi o álbum do Aaron Goldberg, por que eu sou um enorme fã do Ali Jackson e como a discografia dele ainda é pequena essa veio bem a calhar, tenho os três álbuns do Ali, e esse agora vem pra completar o mês de junho rs. Destaque para a faixa 1.Burrito, que linda.
    O Guinga tem um album de 2007 que se chama Dialleto Carioca com um clarinetista Gabriele Mirabassi, que é uma coisa que não dá nem pra adjetivar, muito bonito esse trabalho. Estou Ansioso pra ver esse com QVL.
    Quanto à Jane Bunnet é uma saxfonista/flautista, Francesa ou Canadense, não me lembro, tenho dois albuns dela Jane Bunnett & The Spirits of Havana – Ritmo and Soul (2000) e Jane Bunnett Rendez – Vous Brazil Cuba (1995). A praia dela é mesmo música latina e cubana.
    Grachan Moncur III se não me engano tem alguma coisa gravada com Archie Shep. Agora esse tal Horace Tapscott não conheço também

    Muito bom o post, continue alimentando esse universo internet com essas fornadas.

    Parabéns.

  8. #8 Honorato
    on Jun 21st, 2012 at 12:13 pm

    Ah, a faixa 1.Burrito do album do Aaron Goldberg, tem a pegada de um pianista que eu sou “Fanzasso”, e se você não conhece vale a pena pesquisar. Esbjörn Svensson, esse morreu cedo aos 44 anos, mas era um talento gigante. Fez umas “gigs” com o Metheny e Michael Brecker alucinantes.
    É que tava ouvindo o Aaron, e esqueci de comentar do Svensson no comentário anterior.

    Aqui segue o link de dois temas do Svensson, que são dos meus preferidos.
    As duas músicas estão no mesmo vídeo, a segunda (Elevation of Love) é muito linda.

    http://www.youtube.com/watch?v=s5IgQLPGKJc

    Bom é isso, espero que goste.

  9. #9 Honorato
    on Jun 21st, 2012 at 12:17 pm

    Ops link errado.

    Agora o certo

    http://www.youtube.com/watch?v=D7KXq6RJ0PA

  10. #10 camilalpav
    on Jul 1st, 2012 at 9:59 pm

    Luciano, a hora que vc ouvir, me conta sim. Eu também já pus alguns deles pra baixar, a começar pelo do Tom Harrell \o/

    Honorato, bora lá: 1) De nada pelo Cuadrado (legal, né?); 2) Sabe que esse do Aaron Goldberg eu não gostei tanto. E eu gosto bastante dele, viu, vi uma gig dele belíssima em Ouro Preto há uns anos. E o disco dele com Guillermo Klein é bem legal também. Mas esse aí, sei não, achei meio caretinha. Me conta depois q vc ouvir pra ver se sua boa primeira impressão se manteve. 3) Guinga & Mirabassi – cara, eu gosto do Mirabassi, claro, ele tem dos sons mais lindos de clarinete que já ouvi… Mas sabe que não gosto dele tanto assim como improvisador? Às vezes me soa meio bebop demais (ritmicamente, digo) pra música brasileira. Enfim, por favor releve, sou bem implicante quando quero. :-) 4) Sou fã de primeira hora do Esbjorn Svensson e tenho vontade de chorar até hoje quando penso na morte nele, o que acontece direto. Ele tá lincado aí na coluna da direita e se você fizer uma busca, vai ver que já escrevi algumas vezes sobre ele aqui no blog. Esses vídeos q tem do EST com o Pat (e também aquela gig só do Esbjörn com Pat, Nils Landgren, …) são das melhores coisas q Pat fez nos anos 2000. Enfim, valeu pelo comment – boa semana pra vc e até a próxima fornada \o/

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