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O problema maior não é Maluf. É a burrice.

Aviso: este será um post ruim, bem ruim (deve-se, inclusive, pronunciar rúem e não ruín) – e nem poderia deixar de ser, dado o nível da disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo.

Historinha verídica:

Era uma vez Ana, aluna de um curso de História da Arte. Como todos os cursos, esse um dia tinha que terminar. Mas, antes, Ana tinha que fazer uma prova. Chega o dia da prova final e Ana está insegura. Começa a responder – uma, duas, três questões. A quarta é sobre a influência da Psicanálise nas artes plásticas do século XX. Ana se desespera. Psicanálise, hã? Desesperada, ela – o que mais – gugla em seu telefone esperto: psicanálise + arte. Ufa. Na primeira página de resultados, ela encontra: “A partir de Freud, muitas considerações foram propostas entre psicanálise e arte e em inúmeras vezes a expressão artística, ou mesmo a biografia do próprio artista foram deitados no divã e tomados como objeto a ser interpretado.” Graças a Deus. Começa a escrever: “A partir de Freud, muit…” e, bem, vocês já leram o que ela escreveu. Uma questão a menos. Ana segue em frente. Termina e entrega a prova, confiante.

Como todos os cursos, chega o dia em que a professora lê as provas dos alunos. A de Ana está boa, indo bem. Mas vem a quarta questão e com ela a sensação estar na presença de algo estranhamente familiar… Incomodada, a professora gugla. Vocês já sabem o que ela encontrou, na primeira página de resultados do google.

Ana tira zero na prova e é reprovada do curso.

Pergunta: ela foi reprovada porque agiu em desacordo com as regras instituídas?

Sem dúvida. Mas eu diria que o motivo fundamental, o motivo maior de sua reprovação foi: ela não teve a perspicácia, o bom-senso, a tranquilidade e a nossãum de parafrasear o que encontrara, em vez de pagar de Pierre Menard.

Não saber nada sobre arte e psicanálise é o de menos. Até aí, ninguém sabe.

Colar na prova também é o de menos. Até aí, todo mundo cola.

O problema é quando você entrega uma prova sem nem ao menos se dar o trabalho de fingir que a) você efetivamente sabe algo sobre arte e psicanálise; b) você não colou.

***

Corta para Maluf.

O PT não deveria se aliar com Maluf porque Maluf é o demo, é o mal, é a ditadura encarnada e reencarnada?

É, também. Mas isso é o de menos.

Já que a realidade não está fazendo nenhum sentido mesmo, vamos pensar juntos em situações hipotéticas e imaginárias que façam menos sentido ainda, só pra zoar de vez.

Vamos imaginar que, numa realidade paralela ainda mais bizarra do que a nossa, fazer uma aliança com Maluf significasse a possibilidade concreta de parar Belo Monte.

Perdoem-me os idealistas de plantão. Véi, na boa: eu me aliava.

E é bem esse o argumento que petista vai usar agora: Maluf é a possibilidade concreta de parar Serra. Chalita. O Lobo Mau.

Menos, campeão, menos. Maluf representa apenas um ganho concreto: noventa e cinco segundos na TV.

(Caras, na boa. Se a gente soubesse que esse tempo era tão importante assim, era fácil resolver: reunia os meio-intelectuais-meio-de-esquerda nas janelas de nossos respectivos apartamentos e, no meio da propaganda do Serra, a gente combinava e saía todo mundo gritando junto ao mesmo tempo: HaddadHaddadHaddadHaddad, por noventa e cinco segundos, de modo que ninguém conseguisse ouvir a propaganda do ˜inimigo˜.)

A verdade é que, nesses cálculos de custo x benefício que sempre pautam a política mais do que gostaríamos, certos atos – certas alianças e certas figuras – têm um custo tão alto que simplesmente não há benefício nenhum que os compense.

“Ah, mas você falou em Belo Monte lá atrás.” Pois sim: falei em Belo Monte justamente porque foi preciso imaginar um cenário absurdo e fantasioso para que a aliança com Maluf pudesse ser pensada como viável e proveitosa. Porque, no terreno das possibilidades reais, não há nada, rigorosamente nada – nem mesmo ganhar a eleição, qualquer eleição – que possa compensar os óbvios custos de uma aliança com o político sobre cuja cova o PT paulista se ergueu.

Então temos dois problemas aí. O primeiro é se aliar com Maluf – que já seria coisa grave o suficiente se se tratasse de, em troca, obter os benefícios de parar Belo Monte, impedir a quarta guerra mundial, acabar com a fome das criancinhas no mundo etc.

O segundo, e a meu ver muito mais grave, é a burrice de achar que a aliança com Maluf traz algum benefício ao PT.

Ana foi reprovada no curso por causa de uma questãozinha que ela guglou e não disfarçou, sendo que poderia ter chutado, deixado em branco ou mesmo colado e parafraseado a resposta. O PT certamente perderá boa parte de sua militância não-fanática por conta de noventa e cinco segundos de um programa de TV que ninguém vê – para não falar da perda de uma coisinha chamada memória, a memória de sua própria história. Mas estas – a memória, sua bela história – o PT já perdeu faz tempo.

PS: Havíamos combinado de escrever posts ruins sobre a aliança, eu e ela, numa blogagem-coletiva-de-pobre. Ela, é claro, não cumpriu com o acordo e escreveu um post magnífico, explicando o mundo pra gente.

13 Comentários on “O problema maior não é Maluf. É a burrice.”

  1. #1 renato
    on Jun 19th, 2012 at 6:12 am

    Além dos 95s que sim, as pessoas assistem, o maior benefício da coligação fétida é tentar ampliar o eleitorado para além dos 30% petistas tradicionais. E ampliar à direita, para tirar votos do provável concorrente do segundo turno. Sem isso, Haddad não teria chances de ganhar no segundo turno.

    De qualquer forma, concordo que é uma aposta bastante duvidosa e com prováveis efeitos deletérios no médio e longo prazo. Eu mesmo torço para que os efeitos sejam super-deletérios…

  2. #2 Fernando Souza Jr.
    on Jun 19th, 2012 at 10:55 am

    Putz, estou falando isso desde que começou esse namoro com o Maluf em SP: a atitude de Lula e do PT chama atenção pela burrice. Ter o Maluf como cabo eleitoral não trará votos para Haddad. Malufista que é malufista não vota no PT e ponto final, pouco (ou nada) importa em que palanque Maluf esteja. Só quem não conhece SP e seu eleitorado pode discordar disso. De outro lado, pensando da forma “pragmática” como querem os petistas defensores dessa aliança, ela também se mostra um tiro no pé quando pensamos naquele eleitor que não é petista nem tucano. Há um vácuo na política nacional hoje e um apelo muito forte entre a classe média, de clara inclinação moralista, sobre ética na política, transparência, renovação, rompimento com velhas práticas, etc.
    Pois bem: Haddad, um cara classe média, filho de pequenos comerciantes, descendente de libaneses, professor da USP, aparência inofensiva, “jovem” e sem manchas no currículo, poderia adotar para si, com certa propriedade, a posição de defensor do binômio renovação + valores éticos. Como fincar essa bandeira na eleição trazendo Maluf a tiracolo, com direito a foto do abraço sorridente no jardim da mansão da rua Costa Rica?
    Haddad, na linha de Dilma, poderia fazer a classe média ressentida com o Lula pensar duas vezes antes de rejeitar seu nome sumariamente. Observo isso no dia-a-dia, conversando com gente que, a princípio, não vota no PT, mas que desaprova a administração Kassab e que não morre de amores por Serra.
    Se for para defender o pragmatismo eleitoral puro e simples, pelo menos que se faça de maneira inteligente e consciente.
    Não foi o caso dessa decisão do PT.

  3. #3 aiaiai
    on Jun 19th, 2012 at 1:40 pm

    Vc sabe que eu te adoro, amo seus posts e sou fiel seguidora do seu twitter, certo? Então, te pergunto de coração: o que tem de tão ruim assim em fazer aliança com maluf em são paulo, dado que o pt já é aliado do maluf no governo federal?

    Sobre a falta de vantagens da aliança: não é só 95 segundos a mais pro haddad, é também 95 segundos a menos para o serra. Essa aliança desestabilizou a campanha do serra porque era muito importante para eles. O alkimin, novamente, deu uma rasteira no colega de partido, ao não oferecer algum cargo pro maluf e melar a aliança que já vinha sendo costurada.

    Temos que brigar para mudar a legislação eleitoral, acabar com essas coligações, rever a forma de contabilização do tempo na tv, instituir financiamento público de campanha, etc. Mas, dadas as regras do jogo atual, foi um lance espetacular de estratégia política do lula…mais uma vez.

  4. #4 LUCIANA
    on Jun 19th, 2012 at 2:13 pm

    comentário de aiaiai foi tão bom qto o texto!

  5. #5 Camila Munhoz
    on Jun 19th, 2012 at 7:47 pm

    O seu post também é magnífico! Pra variar divertídissimo, como todos os seus posts. E eu concordo plenamente. O PT está jogando no lixo sua história, e junto com ela a minha própria história, de petista desde criança… É uma pena! Bjs!

  6. #6 olivio
    on Jun 20th, 2012 at 6:43 am

    De acordo, Camila: a burrice abunda, à esquerda e à direita! Excelente comentário e irretocável: nada justifica a burrice!

  7. #7 Marcello Firenze
    on Jun 20th, 2012 at 9:27 am

    Sinceramente, acho que todo mundo tem razão! Política é isso mesmo. Os santos, às vezes, precisam andar com os demos. Mas que são os santos e os demos, afinal? Para os que se digladiam que importa mesmo é o resultado final. Pragmatismo é pouco. Eu mesmo viro a cara para o Maluf. Justo ele que a “grande” imprensa elegeu como o nefasto do período ditatorial de 64. Ela, a feroz Ditadura, para essa mesma imprensa, agora, é a Ditabranda! Vai se entender! O mundo gira e a baiana roda.

  8. #8 camilalpav
    on Jun 20th, 2012 at 11:12 am

    Fernando, seus comentários aqui e na Mary são muito melhores e mais elucidativos que meu post, super obrigada. É a mais pronta das piadas prontas: a estratégia – não digo nem política, mas de _marketing_ – do cara é o tal lance do “homem novo”. Coisa que acho acertada, por sinal. Aí me botam a foto do hómi novo com, of all people, Malufão? “Se for para defender o pragmatismo eleitoral puro e simples, pelo menos que se faça de maneira inteligente e consciente.” É bem isso. Sou pragmatista porque nem tem como ser diferente, a política (também) é feita disso. O problema não é o pragmatismo, é a loucura desta decisão pragmática específica.

    aiaiai, obrigada – eu sei que você me adora (epa, tô me achando) e é recíproco. Mas não adianta, nisso não vamos concordar nunca. O que você chama de “lance espetacular da estratégia política do Lula” pra mim é de uma estupidez, de uma falta de senso fenomenal – taí a renúncia da Erundina que não me deixa mentir. Enfim, não tenho nada muito diferente a dizer do que já disse, e principalmente do que já disse o Fernando Souza Jr. aqui e na Mary. OK, talvez falte dizer uma coisa: eu realmente e sinceramente, como diria aquele clássico de nosso cancioneiro popular, “tô nem aí” se são 1, 3 ou 30 minutos de TV, ou se isso renderá 1, 2 ou 3 milhões de votos (embora eu desconfie de que o resultado dessa aliança será a _perda_ de votos, isso sim). Não tem como sentar numa mesa com Maluf pra conversar sobre a cidade de São Paulo. Disse a Mary W e eu concordo: “A ideia de espaço urbano do Maluf consegue ser tão ou mais antidemocrática que o próprio.” Não tem o que conversar com o criador desse modelo aí. O criador desse modelo aí não acrescenta nada pra gente. Enfim, já tô me repetindo. Beijo pra você. :*

  9. #9 camilalpav
    on Jun 20th, 2012 at 11:13 am

    Xará, pois então, não consigo achar inteligente o PT descartar uma eleitora como você. Beijos, querida. :*

  10. #10 fal
    on Jun 20th, 2012 at 12:32 pm

    Mãozinha na nuca. Chameguinho. Dedos entre os cabelos, o calor da palma da mão do outro alcançando sua pele, olhos nos olhos, as respirações. Fal, tradutora de livro de banca com muito orgulho.

  11. #11 camilalpav
    on Jun 20th, 2012 at 9:02 pm

    Issaê. “Ética do chameguinho” – trabalhamos. o/

  12. #12 Ligia
    on Jun 24th, 2012 at 5:11 pm

    Esta aliança do PT com o Mal (uf!!!), nao tem nada de pragmatica! É maquiavelica, isso sim! Bjs, Camila

  13. #13 camilalpav
    on Jul 1st, 2012 at 9:50 pm

    Beijos pra você também, Ligia.

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