Recordar, Repetir e Elaborar Rotating Header Image

Não fomos paquitas

Outro dia conheci uma paquita. Quer dizer, ela não me foi apresentada como “essa é a Fulana, paquita”. Na verdade, nem paquita mesmo a moça um dia foi. Isso está confuso, vamos começar de novo: fui apresentada a uma moça que, depois, fiquei sabendo ter sido, er, ter sido uma coisa que, em tempos de Feissybuque, convém não dizer aqui o que é; então, vamos fingir, eu e você, que ela foi paquita, porque mais caricata que a ˜paquitagem˜ profissão nenhuma há de ser.

Saber disso me encheu de um alívio imenso que nada tem a ver com a moça em questão. Talvez a paquitagem tenha sido a melhor época de sua vida; talvez seus vocais em ilariê a encham de orgulho até hoje (aliás, taí: paquitas cantavam?); talvez, o exercício da paquitagem tenha sido para ela a realização de seu maior sonho. A nada disso temos acesso e graças a Deus, porque o post é sobre as minhas, as suas, as nossas inseguranças – e Deus, mais uma vez ele, sabe que uma paquita pode até não ser loira, mas não pode ser insegura. Deixemos, pois, a paquita paquitar e ilariar enquanto falamos de nossos fracassos, medos, incertezas.

Antes, porém, um breve detour por nossa gloriosa sociedade contemporânea ocidental.

Lamentavelmente, a grande diretriz ética de nosso tempo parece ser mesmo a do podia estar matando e roubando. É maravilhoso, porque, se você não está fazendo nem uma coisa nem outra, já pode se considerar um campeão moral. Um vitorioso. Um vencedor. Alguém que superou os mais árduos obstáculos impostos pela vida para chegar ao ponto mais alto da realização humana: as atividades de não-matar e não-roubar. Você está assistindo a um jogo de futebol sem chutes a gol enquanto come sardinha entalada? Muito bem! Tagueando gente em fotos nas quais elas não aparecem? Continue assim! Não matando e não roubando, já está bom demais. Sinta-se à vontade para jogar sua vida pelo ralo.

Mas não dá para lutar sozinha contra toda uma cultura e querer impor a si própria uma ética oposta, a do podia estar em Harvard curando o câncer. Convenhamos, seria muito superego para um eguinho só – isso nos imobilizaria e deixaria chorando na sarjeta, desolados com as oportunidades que deixamos passar enquanto torcíamos para a seleção ou tagueávamos os colegas em fotos de pôr do sol. Em tais condições, o único pensamento que nos consolaria seria o de que, pelo menos… Não estávamos matando. E nem roubando, por sinal.

É aqui que eu gostaria de lembrar nossos fracassos, inseguranças, incertezas, medos, frustrações. Sim, eles mesmos: a turma toda. #comolidar com essa turminha da pesada que nos mete em altas confusões, sem cair na acomodação (“bom, pelo menos estou viva, então alguma coisa devo estar fazendo certo”) nem na inútil culpabilização (“não plantei filho, não escrevi árvore e não tive livro, minha vida é uma farsa”)?

Se eu soubesse de verdade a resposta para essa hashtag, não estaria aqui escrevendo, provavelmente estaria roubando e, bem, deixa pra lá. Mas, se não sei lidar, pelo menos tenho uma proposta original a fazer. Sugiro uma nova diretriz ética para o nosso tempo e a nossa geração, que não seja tão permissiva nem tão inalcançável. E que seja, por outro lado, mais abrangente: que sirva para o presente e também para o passado. Funciona assim: sempre que bater aquela deprê porque seu currículo não é suficientemente turbinado, sua barriga não é rigidamente chapada ou qualquer que seja a noia idiota que você possa ter, segure na minha mão e lembre-se do seguinte. Lembre-se de todas aquelas coisas que, no passado, poderiam ter parecido (como de fato pareceram a muitos) uma excelente ideia. Uma oportunidade única. Uma balada genial. E você não embarcou nessas canoas. Pare e pense em quantas vergonhas-alheias você não tem no seu currículo, em quantas lipoaspirações com choque anafilático você não tem na sua barriga. E você há de convir: não é uma alegria olhar para o próprio currículo e constatar que não há ali uma única linha que a vincule à Xuxa?

Pensa comigo. Não ganhamos dez paus por mês, lá isso é verdade. PORÉM:

Não fomos paquitas. Não votamos no Collor. Não fomos ao show do Belo. Não marchamos contra a corrupção. Não viramos psicóloga de porta de UTI. Não viramos pastora evangélica. Não viramos nova cantora da MPB. Não entramos em um relacionamento complicado no Feissybuque.

Tantas, tantas as roubadas das quais escapamos. De algumas delas, por um triz; outras são apenas roubadas imaginárias. De um jeito ou de outro, elas me dão algum alento; consola-me saber que, em momentos decisivos, o Alerta de Vergonha Alheia Futura de Mim Mesma pôde piscar.

Com a confiança renovada, pois, volto a trabalhar. Afinal, aquele currículo não vai se turbinar sozinho.

11 Comentários on “Não fomos paquitas”

  1. #1 Renata L
    on Jun 27th, 2012 at 9:46 pm

    Hahahahaha Camilita, só você para alegrar meus fins de noite de começo de inverno carioca. Esse post tá magistral, vai. Lindão. Daqueles que dá vontade de entrar na sua cabeça, e não na do John Malkovich onde nunca tive vontade de entrar, pra olhar você pensando um pouquinho. Até pagava ingresso. Não muito, porque sou dura. Mas dando tudo de si.

  2. #2 camilalpav
    on Jun 27th, 2012 at 11:15 pm

    Hahahaha, beijo pra você, colega não-paquita!

  3. #3 Marcos
    on Jun 28th, 2012 at 4:33 am

    “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

  4. #4 olivio
    on Jun 28th, 2012 at 4:36 am

    Camila, você não foi paquita, foi uma precoce fã do Jobim, que cantava junto “Passarim”, “Luiza”, etc. Xuxa na TV, voce nem parava, passava reto…

  5. #5 renato
    on Jun 28th, 2012 at 6:56 am

    Esse post é um tantinho CMS…

  6. #6 aiaiai
    on Jun 28th, 2012 at 2:48 pm

    kkkkkkkkkkkkkkkk, eu já fiz uma autoanálise parecida…

  7. #7 anna v.
    on Jun 28th, 2012 at 6:47 pm

    Excelente post, mas preciso acrescentar que há sim uma linha em meu currículo que me vincula à Xuxa, e essa linha vem de uma questão que você levantou: as paquitas cantavam? Então: não, as paquitas não cantavam. Quem cantava era um coro de cantores mirins digamos profissionais, entre os quais eu. Era a mesma turma fazendo coro para Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria, Os Trapalhões, etc. Não tenho do que reclamar e muito menos do que me envergonhar. Ganhávamos ótimos cachês, que eu juntava numa conta de poupança da Caixa e que me possibilitou, aos 20 anos, passar 6 meses mochilando pela Europa. Nada mal.

  8. #8 olivio
    on Jun 29th, 2012 at 6:53 am

    Achei o posto BPC…

  9. #9 olivio
    on Jun 29th, 2012 at 6:54 am

    onde escrevi posto se entenda post…

  10. #10 Andréa
    on Jun 30th, 2012 at 3:33 pm

    Camila,

    Adorei, adorei o post…
    Estarei sempre aqui.

    E que bom que nos conhecemos ao vivo hoje.
    Um grande beijo,
    Andréa

  11. #11 camilalpav
    on Jul 1st, 2012 at 9:49 pm

    Marcos: quem pode pode, né? Eu, como não posso, escrevo post de paquita. o/

    anna, hahahahahaha, que história mais sensacional – vc tá certíssima, eu teria só orgulho de ter cantado no lugar das paquita e inda juntado um dinheirinho, como não?? Na verdade, o que eu queria _mesmo_ era ter composto o Ilariê, já pensou nisso? Esse cara não precisou trabalhar nem mais um segundo da vida dele. Parabéns por essa linda linha no seu currículo. :*

    Papai (pros novos neste blog, olivio é papai) – :-)

    Andréa, super obrigada pela leitura e pela vontade de estar presente – espero _eu também_ estar presente com frequência por aqui… :-P

    Ah, e queria deixar registrado publicamente que eu escrevo esses posts pra ganhar um kakaká da aiaiai. \o/

Deixe um comentário