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Azeitando o casamento

Quando o vidro de azeite cai, n√£o √© s√≥ o azeite que cai. Cai tamb√©m o jantar, a tradu√ß√£o, a academia, porque pela pr√≥xima hora e meia sua vida se resumir√° a tirar vidro do p√© e azeite do ch√£o – o que estaria muito bem, n√£o fosse pela parte do vice-versa. A√≠ voc√™ entende por que azeite √© t√£o bom: porque ele impregna nas folhas. E se ele adere com tanto amor a um p√© de alface, por que n√£o aderiria ao seu p√©? Al√©m disso, vidro temperado √© um conceito que ainda n√£o chegou √† ind√ļstria azeit√≠cia. Porque caco de vidro √© uma coisa, assim, da vida. Minha av√≥ punha em cima do muro e eu, crian√ßa feliz, achava que era para ficar bonito – e ficava, n√©, o sol atravessando as transpar√™ncias verdes e marrons. Foi um choque descobrir que era para espantar ladr√£o (para isso j√° n√£o t√≠nhamos o guarda-noturno?), mas deixemos nossas descobertas infantis de lado. O argumento √© que um caco de vidro at√© o ladr√£o que escapou do guarda-noturno √© capaz de pegar cuidadosamente e jogar fora. Mas e quando voc√™ tem farelo de vidro misturado no azeite, √© para fazer o qu√™? “Aspirador, fia.” Ent√£o, falando nisso, hoje chegou a pe√ßa do aspirador. J√° podemos mudar de assunto?

Melhor n√£o, porque a√≠ vou come√ßar a falar do carro e n√£o tem coisa mais desagrad√°vel do que ficar de bab√° do pr√≥prio carro, tarefa que assumi com afinco e zelo nos √ļltimos dias. Voc√™ d√° leitinho, leva no m√©dico, leva para passear, d√° banho. Ter filho √© mesmo caro e cansativo.

S√£o bobagens, essas do carro e do azeite, e bobagens assim v√™m acontecendo com uma frequ√™ncia um pouco acima do esperado nessas √ļltimas semanas – comigo e tamb√©m com meu marido, porque quando se √© casado essas coisas nunca acontecem s√≥ com voc√™. A sacolinha do azeite estourou na minha m√£o, mas quem limpou o ch√£o da cozinha foi ele. Eu levei o carro ao m√©dico, ele pagou a maior parte da conta. N√≥s dois, juntos, tomaremos mais cuidado no futuro com as vagabundas sacolinhas p√≥s-prohibition, am√©m.

A√≠ me ocorreu uma explica√ß√£o genial para a maior incid√™ncia desse tipo de coisa nas nossas vidas nas √ļltimas semanas: inferno astral de casamento. N√©? Anivers√°rio n√£o √© tudo igual – n√£o √© tudo um ano de vida, seja gente, bicho ou casal?

Ent√£o fui guglar e, naqueles dez primeiros resultados que a gente nunca ultrapassa quando gugla coisas imbecis como essa, qual n√£o foi minha surpresa:

“geeeeente, tamo passano por inferno astral de casamento, vamo cas√° m√™s que vem e ainda n√£o entregaram as chave do ap√™ mimimi”

“cruuuzes, vamo cas√° amanh√£ e a fia√ß√£o toda da casa estourou, √© inferno astral, √© macuuuuumba”

“meudeeeeus, v√ī cas√° daqui a dez minuto e uma chinchila voadora invadiu a igreja e comeu meu vestido de noiva, inferno astraaaaaaal”

Fiquei lendo esses depoimentos e me perguntando em que mundo maravilhoso essas pessoas vivem que elas acham que o casamento delas, justo o delas, estaria isento de atrasos na √≥ba, fia√ß√£o estourada e chinchilas voadoras. Fiquei com vontade de p√īr essas blogueiras no colo e dizer, amiguinhas, vamos l√°: isso n√£o √© o inferno astral do casamento, isso √Č o casamento. O fato de voc√™ ter escolhido dar uma festa para quinhentas pessoas enquanto seu encanador resolvia assumir a homossexualidade e fugir com seu pedreiro, ambos deixando sua obra mais abandonada que caixa de coment√°rio p√≥s-Facebook – bem, isso √© problema seu. Casar -¬†come√ßar a viver com outra pessoa, e numa casa em reforma ainda por cima – √© uma experi√™ncia maravilhosa, excitante e transformadora. N√£o espere dela pacifica√ß√£o e tranquilidade. Para isso, inventaram as UPPs. Casamento √© outra coisa.

O inferno astral que imaginei é bem outro: um que antecede o primeiro aniversário e faz os azeites e volantes escorregarem ligeiramente das mãos, como que testando nossa capacidade de recolher os cacos e pagar a franquia. Sobre esse, não encontrei nada na internet. Mas me lembrei de uma coisa.

Dois anos atr√°s, muito antes de termos assinado qualquer papel, teve um dia que acordamos com a cozinha inundada. Assim, sem mais. Tapete encharcado, chinelo fazendo schlep schlep.

Nossa primeira reação foi voltar imediatamente para a cama e chorar em posição fetal. Nesse nível.

E a noite de ontem, acabou como? Com uma salada, mas de frutas Рporque subitamente perdêramos a vontade de comer qualquer coisa que levasse azeite, vejam vocês Рde pêra, morango, cereja, banana, damasco, aveia e castanhas. E com um coraçãozinho num guardanapo, que me isento de contar quem desenhou.

Não recomendo a ninguém a experiência de confiar em sacolinha podre e ver um vidro de azeite despedaçar-se aos seus pés.

Mas recomendo sem restri√ß√Ķes a experi√™ncia de limpar a cozinha com quem voc√™ ama. E comer salada de fruta. Desenhar cora√ß√£ozinho. Escrever post ruim sobre. Etc.

13 Coment√°rios on “Azeitando o casamento”

  1. #1 Maycon
    on Jul 12th, 2012 at 11:14 pm

    poxa, que bonito

  2. #2 Honorato
    on Jul 12th, 2012 at 11:25 pm

    Em pleno o século 21, você tem a coragem de defender tal romantismo conjugal ?

    Unidade e Fraternidade, no casamento ?

    Mas que menina ousada !

    Parabéns !

    T√ī Contigo.

  3. #3 chris oliveira
    on Jul 12th, 2012 at 11:54 pm

    Awnm… q lindinhus… q fofis… super amei, Camilete Pavanetti! =)) … fiquei at√© animadinha pra cas√° dispois desse confession√°rio amoroso ;) (s√≥ queria come√ßar a pensar nisso a partir dos 40 e blaus =P)… mas tem q ser com um fofo = ao seu! posts da Camilete na madruga = algo sensacional!
    V√ī at√© sonhar c tuduissu agora hahahhahaa
    bjo, fia! =)

  4. #4 Sul 21 » Azeitando o casamento
    on Jul 13th, 2012 at 4:57 am

    [...] Leia mais. [...]

  5. #5 Deborah Le√£o
    on Jul 13th, 2012 at 6:57 am

    √Č bem isso o que faz valer a pena esse perrengue todo. A sensa√ß√£o de que √© um pouco menos desesperador limpar o azeite do ch√£o, cuidar do carro, correr com o cachorro pro veterin√°rio ou tentar eliminar os carunchos que atacaram todos os mantimentos da casa quando voc√™ tem algu√©m pra dividir isso com voc√™. Pra dividir a frustra√ß√£o com essas besteiras da vida. Pra ajudar no trabalho sujo. E pra sentar depois nas banquetas da cozinha, e decidir que est√° na hora de rir e fazer um drinque com aquela vodca do free shop que a gente estava economizando.

    Privilégio é poder viver assim.

  6. #6 Luciana
    on Jul 13th, 2012 at 10:22 am

    Querida,

    teu post, al√©m das boas risadas e das reflex√Ķes necess√°rias, fez-me lembrar. E sorrir. Sou grata por uma por√ß√£o de noites e dias limpando cozinhas. E mais grata pelo privil√©gio de te ler.

  7. #7 olivio
    on Jul 13th, 2012 at 12:28 pm

    Camila, um conselho, essa coisa que s√≥ vale quando vendida: comprem o azeite em lata! Al√©m do qu√™, esse de vidro derrama pra caramba, √© dif√≠cil de controlar. Mas gostei que a trag√©dia do azeite acabou por render uma salada de frutas com cora√ß√Ķezinhos e tudo. Beijos pra voce e pro Agenor.

  8. #8 aiaiai
    on Jul 13th, 2012 at 1:50 pm

    Inferno astral que termina em salada de fruta rom√Ęntica n√£o √© bem inferno, n√©, camilinha? Fico aqui desejando que voc√™s tenham muitos infernos astrais desse tipo e nenhum dos outros tipos t√£o abundantes por ai.

    Ademais, me comprometo a perguntar a mamis e papis, que acabaram de completar 55 aninhos de casamento, se eles passaram ou ainda passam por infernos astrais de anivers√°rio de casamento. Depois te conto.
    bjs

  9. #9 Cris
    on Jul 21st, 2012 at 4:02 pm

    Quase deixo passar esse texto delícia-total Рe seria bem feito pra mim Рmas por sorte corrigi a falha a tempo. Eu, como fã de casamento, adorei e me identifiquei. Não me imagino vivendo de outro jeito, rs.

    Beijinhos!!

  10. #10 camilalpav
    on Jul 25th, 2012 at 12:26 pm

    Maycon: obrigada!

    Honorato: √© isso: limpar a cozinha com o marido √© sim rom√Ęntico. N√£o no sentido Romeu e Julieta da coisa. Mas √©.

    chris: desejo muitos azeites compartilhados pra você :*

    Deborah: mana, essa dos carunchos eu acho tão pior que a do azeite. O azeite é gorduroso mas você joga água, taca papel-toalha e limpa. Bicho, não. Bicho na despensa não é coisa de deus. Com bicho na despensa eu regrido pra posição fetal na hora. Com meu marido e a vodka do free shop ao lado, de preferência.

    Luciana: eu sou grata pelo privilégio de ter você como leitora!

    olivio: você tem toda a razão, mas o que posso fazer se gosto de ver o azeite escorrendo do vidrinho?

    aiaiai: pergunta pros seus pais sim!

    Cris: beijo de casadoira pra casadoira :*

  11. #11 aiaiai
    on Jul 25th, 2012 at 1:46 pm

    Eu perguntei. Mam√£e disse que n√£o sabe nada sobre astral e muito menos sobre inferno (cat√≥lica, n√£o gosta muito de falar dessas coisas)…Mas ela disse que a tal da maldi√ß√£o do 7¬ļ ano existe mesmo. Ela lembra vagamente. Meu pai negou. Disse que o casamento sempre foi um para√≠so. Eu perguntei: mas mesmo quando eu era adolescente? E ele: voc√™ n√£o faz parte do casamento. Achei esperto.

  12. #12 camilalpav
    on Jul 25th, 2012 at 2:58 pm

    Hahahahahaha, seus pais s√£o muito s√°bios, aiaiai. Sua m√£e por admitir as agruras do casamento e seu pai por neg√°-las publicamente. :-) E, nossa, uma afirma√ß√£o precisa como a do seu pai – “voc√™ n√£o faz parte do casamento” – eu levava pra an√°lise e n√£o tinha alta nunca mais. :-)

  13. #13 aiaiai
    on Jul 25th, 2012 at 4:01 pm

    eu mere√ßo…fui uma adolescente chata pra kraio!

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