Skate and sky

Fazia muito tempo que eu não sentia tanta empatia por uma figura pública quanto senti, hoje, por Serra no skate. A foto é de alguns dias atrás, mas ela ficou perdida no turbilhão de memes da Carminha (que ainda não aprendi se é a vilã ou a mocinha) e estatísticas sobres salários de professores – e se tudo isso será esquecido por osmose dentro de um mês, para dar espaço à nova novela e à nova greve que certamente hão de vir, quais são as chances de uma única foto, de uma campanha eleitoral que todos estão se esforçando ativamente para esquecer, ser lembrada dentro de três dias?

Mas eu me lembrei. Resgatei a foto dos cafundós do Feissy, atravessando páginas e páginas de cachorrinhos desamparados, moças seminuas e estratégias de agarramento de homem, só para chegar até a imagem que define meu mundo e minha vida, hoje. Porque o mundo e a vida, hoje, são inteirinhos Serra no skate.

Não há uma pessoa na foto, dentre as pessoas cujos rostos podemos ver, que não esteja rindo do Serra. Eu entendo, é engraçado. Eu não entendo, é deselegante. O homem está ali tentando dar uma de bróder, de mano, de jóvis – palavras que demonstram categoricamente minha completa exclusão do clube das pessoas modernas, que certamente não se referem a si mesmas como bróderes, manos, jóvisis nem muito menos modernas -, e o povo rindo.

Sou eu ali naquele skate, tentando encontrar a palavra justa a ser proferida no momento exato como se ela a) existisse b) tivesse qualquer importância pelo fato de sair da _minha_ boca. Sou eu no skate comentando do Joãozinho pra Mariazinha como se eles fossem irmãos, quando na verdade Mariazinha flerta com Joãozinho que, por sua vez, já pulou dentro do caldeirão da bruxa. Sou eu sambando no skate não me importando com doença na família, festa na família, fofoca na família e gastando todas as minhas energias tentando me convencer de que o conserto do carro nem foi tão caro assim. Eu, escorregando no skate ao perder a hora de manhã e de madrugada, abrindo as abas lúdicas e fechando as abas de trabalho.

Serra. Querido. Força aí no skate. Não é confortável nem agradável, mas tô contigo nessa tábua bamba.

***

Fui Miss Empatia com outra foto também. Nesta matéria que mostra pessoas felizes se casando e pessoas idiotas praguejando, uma legenda em particular mexeu comigo:

DAMN YOU, SKY!

(Traduzindo: cidadãos de bem, esses lindos, protestam contra o casamento gay.)

Eu sou essa pessoa que pragueja. Não a felicidade alheia, ainda não chegamos nesse ponto, mas isso é o de menos. Eu sou, genericamente falando, a pessoa que reclama do céu. Pior. De si mesma. (Vide Serra no skate.) Eu reclamo muito. As coisas me irritam. Gastos com estacionamento e frilas mal-pagos, ou não-pagos. Minha própria lerdeza e minha própria baixíssima capacidade de concentração. Técnicos de som incompetentes e linhas do metrô eternamente em processo de normalização. A indiferença dos outros, a crueldade que é só minha. Eu me irrito. Digo que damn you, sky! Damn you, skate! Fico me perguntando se realmente quero ser essa pessoa que reclama do céu e do skate. E é claro que não quero. Não porque eu não esteja certa, porque estou. As coisas que me irritam são mesmo de irritar e deus me livre de ser uma buda-monja indiferente a essas coisas mundanas e com um sorriso de criatura espiritual na cara. Eu gosto das coisas mundanas. Não vejo problema em me irritar com elas. Quem não se irrita não se acalma, não participa, não se importa. Eu só gostaria de não reclamar tanto. De e para mim mesma. Não é que eu deseje a euforia dos recém-casados das fotos, porque realmente não é o caso nem o momento. Só acho um pouco fútil e clichê eu ficar reclamando da minha serra-no-skatice quando, poxa. Eu sou mais do que Serra no skate, acho. Todo mundo é. Inclusive o Serra. Ou pelo menos deveria ser.

Mas às vezes eu me perco. Eu me perco desta moça capaz de dizer good morning, heartache; good morning, skate and sky.

6 Comentários on “Skate and sky”

  1. #1 Monix
    on Jul 25th, 2012 at 2:46 pm

    Mas como a pessoa consegue juntar o Serra no skate e o protesto dos conservadores num texto só, minha gente? :-)

  2. #2 camilalpav
    on Jul 25th, 2012 at 2:56 pm

    Hahahaha! Mas não fez sentido? :-)

  3. #3 Jieli
    on Jul 25th, 2012 at 8:10 pm

    Adoooorei o post. Muito booom, adoro seu jeito de escrever.

  4. #4 camilalpav
    on Jul 26th, 2012 at 3:00 pm

    Obrigada, Jieli! :*

  5. #5 Luciana
    on Jul 30th, 2012 at 5:39 am

    Chegando um pouquinho atrasada (é que há muitas cervejas pra se beber no Rio), mas rindo aceleradamente pra acompanhar quem teve o prazer de ver logo. Mas aquele risinho feito inquietação, fiquei aqui me perguntando do meu skate (mas acho que no meu caso é mais uma prancha de surf, porque como engulo água!) e se ando com cara beatífica, resmungona ou de geléia…e daí já viu, o dia hoje vai ser daqueles (ops)

  6. #6 camilalpav
    on Jul 31st, 2012 at 9:53 am

    Tão contente que a gente vai se “conhecer” na 5a. :-) Quanto ao dilema skate x prancha, sou mais esta última – cair n’agua >>> cair na chón. :-P

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