_ O que é isso que você vai xerocar?
[Curiosidade aleatória na fila do xerox: adoro! E é triste porque é batata que quase todo mundo leu isso ironicamente, se achando o - ou antes, me achando a - espertona, como se não fosse possível, de fato, apreciar a curiosidade sem contexto nem porquê, a curiosidade direta e não-disfarçada, espontânea e oposta à que aprendemos a cultivar na internet.]
_ Isso? É, hmm, literatura.
_ Literatura? Eu adoro literatura. Meu livro preferido é de literatura. É um livro com umas palavras rebuscadas que, sabe, só literatura mesmo pra falar as coisas com tanta frescura. Umas palavras cheias de lhe e te no meio, beijar-lhe, amar-te.
[Pobre Manuel Bandeira; pobres de nós que evitamos próclises, ênclises e mesóclises; pobres, tão pobres todos aqueles que buscam a simplicidade no texto e na vida, enquanto o mundo faz pouco de nosso neo-fake-budismo e continua cada vez mais complicado.]
_ Mas não eram bem essas as palavras, amar e beijar, porque eram umas palavras de outra época. Tão outra, a época, que eu nem lembro direito do que o livro falava. Um pouco eu lembro sim: era uma história de amor de uma mulher casada.
[Bô-varri?]
_ Mas antigamente. Deve ser por isso, por ser de antigamente, que a história tinha tanto amor e beijo. Vai ver em outra época mulher casada ainda amava e beijava. Hoje em dia, com os maridos que a gente vê por aí – por exemplo, queria ver alguém fazer literatura de beijar-lhe e amar-te com o meu marido.
[Perguntar da vida soaria deselegante, perguntar do livro soaria falso. Ficar em dúvida pra quê: já atingi minha cota de deselegância por hoje com essa bolsa e esses sapatos.]
_ É estrangeiro, esse livro da história de amor da mulher casada?
[Eu já imaginava um título como Borbulhas da Paixão, repleto de gente que franze o cenho e revira os olhos daquele jeito que só os americanos fazem.]
_ Não, é brasileiro mesmo. Literatura pura. Chama Sem Hora.
[Que título curioso. Vai ver a mulher casada não tinha hora para beijar(-lhe). Perdia a hora quando começava a amar(-te). Ou Vênus, que as mulheres são de lá.]
_ Ahn. Bem, boa sorte com o seu marido!
_ Boa sorte com seu xerox de literatura, minha filha.
Caminhando pela rua, derrubo todo o xerox no chão enquanto dou com a mão na testa e grito:
Mas a senhora, não a do Alencar mas a do marido que não tinha pinta de Fernando Seixas, já se fora – de volta a uma vida sem lhes nem tes, sem amores nem beijos.
Tudo o que pude fazer por ela foi dar-lhe um pouquinho de [insossa, com uma ênclise apenas] literatura.


on Aug 7th, 2012 at 7:29 am
Aqui devia tem um smile ou carácter de bater palmas.
Só consegui fazer esse \o/ , acho que deu pra entender rs.
on Aug 7th, 2012 at 9:19 pm
*\o/*
on Aug 13th, 2012 at 3:07 am
Hahahaha….
1. Li “Senhora” para a escola (e nunca mais depois) – gostei muito;
2. Li “Lucíola” com algo como dez ou onze anos, e fiquei bem impactada… um livro cuja personagem principal (e heroína) é uma prostituta? o próprio livro, inclusive, faz um paralelo com “A Dama das Camélias”, que eu não tinha lido e depois li lembrando da crítica (de Lúcia “lucíola” a Marguerite Gautier, que dava ao amado o mesmo que dava aos amantes que a mantinham). O Fabiano não me entende (ele odeia Lucíola), mas tudo faz sentido.
Beijo! :-)
on Aug 15th, 2012 at 1:29 pm
Rê – eu também, eu também!! Quer dizer, para o número 2 – também lia muito Alencar quando criança, porque tinha uma coleção dele na casa da minha avó. Alencar, Jorge Amado e o Tesouro da Juventude, li de montão. <3 Lucíola e O Tronco do Ipê são meus Alencares preferidos, super te entendo – foi imensa minha empatia para com Lucíola e nem liguei quando minha avó disse "mas ela é uma moça da vida!", hahaha. Beijos pra vc e humpf pro Fabi. :-P
on Aug 18th, 2012 at 6:58 am
mto bom!!! confesso q demorei pra entender o “Sem Hora” kkk no momento lendo Bô- varri… putz, to com o Troco do Ipê a alguns anos em casa, agora fiquei mais estimulada a lê-lo. =D
on Aug 22nd, 2012 at 11:52 am
Bô-varri é o máximo. Quanto ao Tronco do Ipê, lembre-se de que a recomendação não é minha, hoje, mas da Camila de vinte e tantos anos atrás. Se for em frente com o livro, me conte depois. :-)