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Fellini, Jobim e Xuxa

No último semestre da graduação, quando não víamos a hora e morríamos de medo de nos formarmos psicólogos, cursávamos a disciplina Orientação Profissional. Como deveríamos obrigatoriamente atender adolescentes de classe média desesperados por não saber em qual quadradinho marcar um X na Fuvest – e isso não em Física ou Matemática, mas em Humanas, Exatas ou Biológicas -, a professora da disciplina instituiu que os alunos também participaríamos de um grupo terapêutico, orientacional, educativo, sei lá. Com a diferença de que, como já marcáramos suficientes xizinhos na Fuvest cinco anos atrás, o foco do nosso grupo seria aquele novo momento da vida em que um xis no quadradinho certo não costuma ser suficiente para resolver o que realmente importa.

Então teve um momento Marina W. no grupo em que deveríamos recortar e colar imagens de revistas e jornais numa folha em branco, tudo para expressar como imaginávamos nossa vida dali a (10? 15?) anos. Pilhas de folhas e caras nos aguardavam e quase todos começaram a recortar obedientemente figuras de homens e mulheres e casas e casas de praia e crianças e cachorros. Algum gato.

Todos – menos uma menina.

Na hora de apresentarmos nossos trabalhos, ela leu um texto. Quem estava cochilando acordou. Quem estava cochichando calou. Alguns choraram.

Ela foi a única punk do grupo que disse, sem precisar dizer, um sonoro “foda-se essa porra de recorte e cola” ao usar apenas um lápis para contar seus sonhos de ser uma pessoa feliz e livre aos trinta e três anos.

Já eu recortei e colei como todo mundo, só que de um jeito que eu pretendia diferente. Mas antes – os outros e suas vidas, sempre eles.

As pessoas recortavam quase sempre atores, mas não os célebres e sim os que ganham 1 ou 2 barão para aparecer em propaganda de empreendimento imobiliário ou tratamento para impotência. As pessoas de fora da revista recortavam as pessoas de dentro da revista e depois diziam assim: esse aqui sou eu, ó, aos trinta e poucos anos. E era tudo perfeitamente plausível, era impossível não olhar para as pessoas de dentro e de fora da revista e não considerá-las espelho umas das outras, assim como era inevitável acreditar na concretude de seus futuros cachorros e filhos e casas no campo do tamanho ideal.

Era tudo perfeito e eu só tinha cabeça para saber o que eu faria, não dali a dez anos, mas naquele dia mesmo, a respeito do meu Relacionamento Amoroso Complicado que existia, pasmem, antes mesmo de o Facebook inventar esta bonita definição para ele.

Porque eu, oras, eu era diferente. Eu não me deixaria representar por (ou reduzir a) uma família de propaganda de margarina – e, aliás, pelo menos um dos trabalhos efetivamente extraíra sua família de uma verdadeira propaganda de margarina. Afinal, o que pode ser mais triste do que uma pessoa que realmente acredita que é possível ser feliz na margarina? Essas pessoas, pensava eu, viviam dentro de uma caverna, passando margarina em seu pãozinho light, e jamais veriam a luz dos croissants e ciabattas banhados em manteiga aviação.

Eu pensava e, claro, ainda penso. Assim como todos vocês. Somos seres únicos e brilhantes e diferentes e especiais. É ou não é? Ou você não pensou, nem por um segundinho, ao ler meu texto da maletuxa“sim, sim, mas eu era uma criança diferente, eu quase que nem assistia à Xuxa direito, eu não era a típica criança assistidora da Xuxa”. Pensou ou não pensou? Bem, eu pensei. Eu pensava, até ver o vídeo. Afinal, meus pais (logo, eu) éramos diferentes. Meus pais eram ateus – e o que isso tem a ver com a Xuxa pouco importa; importa que eles eram diferentes -; meus pais me mostravam música erudita e MPB; meus pais eram “demais, como eles não tem” (Ourfali, Nissim).

Só que aí assisti ao vídeo da menina negra que quer ser paquita e tive de me haver com o fato de que fui uma criança como ela. Sim, eu preferia o vídeo do Tom Jobim ao Xou da Xuxa. Mas – sim, eu tinha e amava minha maletuxa.

Tendemos a privilegiar um aspecto ou outro da nossa biografia de acordo com a conveniência do momento. Gostar de Tom Jobim é um dado biográfico muito mais condizente com minha personalidade de hoje do que a posse de uma maletuxa. Mas, se eu for honesta comigo mesma, terei de reconhecer que Tom Jobim não era mais significativo para mim, na época, do que minha maletuxa, que estava sempre recheada de maquiagens, lantejoulas, brilhinhos, adesivos de letrinhas e lápis de cor.

Você, que assim como eu “também não teve a típica experiência da Xuxa” (e, aliás, aposto que sua família nem era preconceituosa – assim como a minha! Meus parentes falavam “hoje é dia de branco” e “fulana tem o cabelo ruim, coitadinha” só porque isso é modo de dizer, mas não que eles fossem racistas – racismo não é isso, gente! Er, só que é) – acredite, você teve. Não importa que você não ficava todos os dias esperando que ela subisse na nave ao final do programa: a Xuxa, assim como a inflação, a seleção de 82, o Chaves, o Atari, o Sarney, o racismo e tantos outros, é um dos elementos que faz de nós _brasileiros(as), de classe média urbana e crescidos na década de 80_ – e nem os mais bem-intencionados, lindos e intelectualizados pais seriam capazes de nos proteger de tudo o que é nocivo nessa experiência. Você (e seus pais) lutavam contra a Xuxa com carrinhos, bolas e brinquedinhos de madeira; eu (e meus pais) lutávamos contra a Xuxa com Tom Jobim. De qualquer forma – fosse qual fosse a nossa arma – é contra a Xuxa que lutávamos. Isso é o que nos une, para além da antropofagia (ou, vai ver, a antropofagia é bem isso, Xuxa + Tom Jobim + carrinho de madeira – nunca entendi Oswald direito).

Mas eu, no grupo de OP (lembram?), eu era diferente. Especial. Eu é que não ia ser a menina que quer ser paquita, ops, que quer ter casa, marido e filho aos trinta e três anos. Então, muito esperta, o que eu fiz?

Em uma das revistas, havia uma lista da filmografia completa de Fellini. Recortei-a, colei na folha de papel e disse: aos trinta e três anos, espero já ter visto todos os filmes do Fellini, e é só isso o que posso planejar para os meus trinta e três anos. (Implicitamente ou nem tanto: sou melhor do que todos vocês, seus paquitos e paquitas.)

Não tenho trinta e três anos ainda, mas posso lhes garantir duas coisas: 1) sim, vi quase todos os filmes do Fellini; 2) sim, sou casada, estou procurando uma nova casa e considerando, de leve e de longe, a possibilidade de ter filhos.

O que me obriga a constatar que: não é porque eu era diferente que eu não era igual a todos os meus colegas.

Engana-se quem pensa que eu era diferente por gostar de Fellini (até porque – Fellini, quem é que não gosta?). Eu era e sou diferente e especial porque todo mundo é. E era e sou igual a todo mundo porque simplesmente não tenho como não ser.

Fellini ou Tom Jobim, pouco importa. Importa a Xuxa, e o que somos capazes de fazer com ela.

15 Comentários on “Fellini, Jobim e Xuxa”

  1. #1 maycon
    on Aug 22nd, 2012 at 9:52 am

    adoro quando você resolve dar um soco na gente ( com a esquerda…rs): Nocaute.

  2. #2 aiaiai
    on Aug 22nd, 2012 at 11:20 am

    Eu concordo com você que nós sempre nos achamos diferentes e editamos nossas biografias para passar a exata imagem que queremos.

    Concordo tb q quem cresceu nos anos 80 está relacionado a Xuxa de algum jeito (até eu que já era grande estou, né?)

    Mas, não concordo que todo mundo goste de Fellini. Eu conheço pouquíssimas pessoas que dizem gostar de Fellini e, dentre estas, ainda acho q algumas não são sinceras.

    E, o que tinha escrito na carta da menina punk?

  3. #3 camilalpav
    on Aug 22nd, 2012 at 11:51 am

    Ô Maycon, deixa eu assoprar: pffffit, pfffffit.

    aiaiai, eu falei que todo mundo gosta de Fellini porque ele é um clichê da alta-cultura. É como você disse – se as pessoas gostam mesmo não sei, só sei que dizer “eu gosto de Fellini” na situação específica de um grupo de Orientação Profissional é bastante sugestivo de certa imagem que se pretende passar. Tô lembrando aqui da besta polêmica Joyce x Coelho, quando teve gente que saiu “em defesa” – como se este precisasse ser defendido! – de Joyce sem ter lido nem um nem outro. É o tema do post anterior, né, só que em vez de _ter_ uma porra de plástico rosa o lance aqui é ter determinada experiência cultural – “se li Joyce / se vi Fellini, sou uma pessoa mais culta e, portanto, melhor”. Vixe. Preciso escrever outro post falando disso. Continuação daquele.

    (P.S. Cabiria é meu filme preferido da vida, seguido de perto por Julieta. Mas, para não fugir ao espírito do post, devo acrescentar que achei Satyricon tão horrendo quanto Xuxa e os Duendes.)

  4. #4 Julius
    on Aug 22nd, 2012 at 1:02 pm

    Que texto lindo. Eu estou a um ano dos proverbiais 33. Há uns cinco, depois de conquistar alguma independência financeira, penso em de fato tentar ser “diferente”, em chutar o trabalho e ir, como disse o Contardo Calligaris em outro texto ótimo (https://docs.google.com/open?id=0B8yOsNFcxSV5YUJmOVA5bkM0cUE), explorar as fontes do Nilo, ler um livro por dia ou ver todos os filmes da Criterion Collection – enfim, seguir os “sonhos” da aborrescência. Por covardia, algum efeito social ou instinto, continuo trabalhando das 8 às 18, casado e indo à terapia uma vez por semana para reclamar da vida. Quando me perguntam se sou feliz, não sei responder, e acho que isso vale para uma parte grande das pessoas do meu convívio. Que geração estranha essa nossa…

  5. #5 Honorato
    on Aug 22nd, 2012 at 2:42 pm

    A Xuxa realmente te fez um estrago rsrsrs.

  6. #6 Honorato
    on Aug 22nd, 2012 at 2:42 pm

    A Xuxa realmente te fez um estrago hein rsrsrs.

    Relação amor e ódio ?

  7. #7 Luciana
    on Aug 23rd, 2012 at 5:21 pm

    Uma sequência de textos instigantes (já tô caracterizando assim até o que já vem). Sou geração Balão Mágico (ouiés, sei cantar até hoje, inteirinhas, várias canções, especialmente: “qdo vc chega na classe, nem sabe, tanta diferença que faz…”) mas minhas duas irmãs são geração Xuxa e eu entendo/vivi/lembro tanto quando leio seu post…

    acho que somos um tanto do que gostamos, um tanto que resistimos, um tanto que narramos…editar é um treco que o ego vai treinando fazer desde sempre,né?

  8. #8 aiaiai
    on Aug 23rd, 2012 at 6:09 pm

    e o que estava escrito no texto da punk?

  9. #9 camilalpav
    on Aug 23rd, 2012 at 10:30 pm

    Julius: eu também adoro esse texto do Contardo. Quanto ao dilema (e pensando no que Contardo escreve), acho que o verdadeiro impasse não é nem o should I stay or should I go. É a falsa ideia de que, fazendo uma coisa ou outra, você será _superior_ ou aos losers que ficaram ou aos ingênuos que partiram. Não acha?

    Honorato: sim, ela fez! E não só em mim, aí é que está…

    Lu, eu sou um pouquinho Balão Mágico também. Ursinho pimpão, né? Pois sim. :**

    aiaiai, foi mais ou menos assim: a punk disse que a vida são as relações com as pessoas, e que não dava para tentar adivinhar relações com pessoas que ainda não existiam em sua vida. Então, ela ia tentar descrever como gostaria que fossem as relações com as pessoas presentes na vida dela de então.

    Quer dizer, sei lá o que a punk disse. Isso tudo sou eu é que tô inventando, ou quase. :-P

  10. #10 Julius
    on Aug 24th, 2012 at 4:16 am

    Não sei se é só uma questão relativa, de suposta superioridade. Há aquela coisa de achar que a felicidade está sempre em outro lugar, sempre distante; ou de conseguir definir o que você quer, o que com pouca dúvida te fará feliz. Pra citar um autor suspeito, “Success is getting what you want. Happiness is wanting what you get.” É por aí… mas vamos parar com o mimimi :)

  11. #11 aiaiai
    on Aug 24th, 2012 at 4:39 am

    pois eu acho mais ou menos o mesmo que a punk. eu não sei nem o que vai acontecer amanhã comigo, que dirá daqui a 10 anos…

  12. #12 Cris
    on Aug 24th, 2012 at 9:38 am

    Achei o texto foda – claro! – mas não pude deixar de pensar naquela conversa que tive com você, ali, subindo a Vila Madalena. Nós falamos de filhos e da influência de toda uma geração na criação deles. Sinto isso porque você cita que seus pais te criaram ouvindo Tom Jobim, mas a Xuxa estava ali, bem presente – e tinha a sua importância [desculpa, não li o texto da maletuxa e posso estar viajando, rs]. Esse é um pensamento que me mobiliza. Porque eu já fiquei mocinha e sei que não dá pra sair escapar círculo [ou da linguagem, ou da episteme, seja lá qual for o nome que a gente queira dar], mas resta saber como vamos trabalhar esses elementos todos. Nem sei se o foco do texto era esse, mas ele me pegou por aí. E essa tua última frase, mais ainda. Beijo, sua linda ;**

  13. #13 Renata L
    on Aug 25th, 2012 at 7:37 am

    Baby, li tudo e adorei tudo, mas fiquei com foco no “eu ainda não tenho 33″… e pensando que astrologicamente 33 é importante paca. Eu, quando fiz 33, fiz o meu primeiro mapa astrológico (quer dizer, fui fazer como cliente). E mudou minha vida, né. Porque hoje eu trabalho com isso também. Viva os 33. Beijos astrais. De Renata, a mente viajandona de sábado.

  14. #14 camilalpav
    on Aug 25th, 2012 at 7:19 pm

    Julius, exatamente, a felicidade (a satisfação – o objeto a) é sempre o inalcançável, disso Lacan falou melhor que todo mundo. E o mimimi que a gente nunca deixa de fazer é, como você bem disse, “queria estar lendo um livro e vendo um filme por dia”, sendo que temos plenas condições de ler um livro e ver um filme, senão por dia, ao menos por semana, e frequentemente nem isso a gente faz. Eu sou campeã desse mimimi aí. Pode vir mimimizar aqui à vontade que minha empatia pra isso é infinita. :*

    aiaiai – eu também acho que boa parte da beleza do futuro está justamente no que é imprevisível e inimaginável. Aliás, do passado também. Outro dia minhas amigas estavam me contando das festinhas de aniversário de quando elas eram crianças. Poucas coisas me parecem mais assombrosas do que pensar que houve um dia em que elas existiam no mundo, e eu também, e estávamos relativamente perto umas das outras (mesma idade, mesma classe social – o que, num país desigual como o Brasil, já é proximidade suficiente), e sequer nos conhecíamos. Eu acho bastante libertador pensar que, um dia, pessoas que ainda não conhecemos farão parte da nossa vida.

    Cris: foi esse, exatamente esse o foco. A ingenuidade que é a gente achar que é possível escapar. Porque não é. E tudo bem. A única saída para o círculo (ou linguagem ou episteme ou biopolítica) está no próprio círculo, linguagem, etc e zzz. Beijos, querida. :*

    Renata: sério que você é do mapa astral? Mais um assunto pra gente conversar esta semana. Minha relação com horóscopo hoje em dia se limita aos anúncios do metrô (que geralmente dizem para se ter muito cuidado, no que estão certíssimos), mas minha mãe mandou fazer meu mapa quando eu era criança. A única coisa que me lembro é que ali dizia que eu nunca ia passar fome, você não imagina meu alívio ao saber disso, hahaha. Beijos :**

  15. #15 olivio
    on Aug 30th, 2012 at 6:51 am

    Parece que em breve serei vovô…! Eba!

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