Sorvete e Joguinhos

A melhor coisa que você pode fazer quando estiver se sentindo meio pobre é conversar com uma criança e dizer a ela o quanto você ganha. Porque não importa o quanto você ganha: sendo o valor superior a mil reais – e realmente não faz muita diferença você dizer que ganha um, dois ou cem mil reais -, e a criança não sendo estapafurdiamente rica (até porque, se você tem amizade com uma criança estapafurdiamente rica e não trabalha para ela, pobre-pobre é que você não é), a única reação possível da criança será: olhos arregaladíssimos e a certeza de ter diante de si uma daquelas pessoas que, na novela, tomam café da manhã com jarras de laranjada sobre a mesa.

Foi o que me aconteceu hoje. Conversando com Caio, 6 anos, que há semanas vem juntando dinheiro para comprar um minigame por cem reais, ele me perguntou quanto eu ganhava por mês. Ao ouvir a resposta, a frase que acompanhou o arregalamento de seu olhar foi:

_ Mas… Mas então… Você pode comprar todo o sorvete e todos os joguinhos que quiser!

Então eu soube que Caio é uma criança feliz. Assim como eu fui.

***

Minha avó se divorciou de meu avô nos anos 70, e passou a trabalhar como vendedora para sustentar a família. Esta não é uma daquelas histórias familiares repetidas milhares de vezes, por motivos que talvez (talvez não) ficarão claros. Ouvi-a uma ou duas vezes apenas. Escolhi não esquecê-la.

Naqueles meses que se seguiram ao divórcio, vovó sempre chamava minha mãe para ajudá-la a guardar as compras do mês na despensa de casa. Ou, pelo menos, era esse o pretexto do chamado: minha mãe era convocada para ajudar. Mas a real intenção de minha avó era outra: mostrar à filha que tudo corria bem. Que ela, divorciada, estava dando conta. Que, entre as compras do supermercado, ali figuravam, sem falta, todo mês, o iogurte e o requeijão.

Esta não é uma história sobre pobreza, nem perto disso. É apenas uma história sobre a Possibilidade Concreta da Falta de Iogurte e Requeijão. Minha mãe sempre comeu todo o requeijão e todo o iogurte de que teve vontade. Mas, em algum momento de sua história, os laticínios não foram um dado óbvio, imediato e não-questionado na geladeira de casa.

Eu não. A mim, jamais sequer me sobreveio o pensamento de que, algum dia, não haveria dinheiro para comprar o danone do mês. Os laticínios sempre foram uma presença tão natural – no sentido de a-histórica, isto é, de algo que existe desde sempre, pronto e acabado – na minha geladeira quanto a água na torneira de casa. E é por isso que, quando eu tinha a idade do Caio, não imaginava que os laticínios pudessem faltar. Nem os laticínios nem, obviamente, todo o resto – água, torneira, geladeira, casa. Tudo isso sempre esteve lá, portanto não dependia de dinheiro. Dinheiro era para outro tipo de coisa: pega-peixe, pequeno pônei, gibi da Mônica e disco do Tom Jobim – estas sim eram coisas que custavam dinheiro, para as quais era preciso economizar.

O problema de lembrar disso aos 30 anos não é constatar que eu estava errada. É constatar que eu estava certa. De fato, o certo seria precisarmos juntar dinheiro apenas para comprar sorvete e joguinhos. Casa e água (e, vá lá, laticínios) – nada disso deveria custar dinheiro para ninguém; ou melhor, nada disso deveria constar entre os itens que podem faltar caso não se tenha suficiente dinheiro para adquiri-los.

***

Foi assim que descobri que, na geladeira do Caio, há requeijão e iogurte de sobra. O dinheiro, para ele, ainda é apenas o que se usa para comprar sorvete e joguinhos. Todo o resto, ele tem de graça.

Caio é uma criança privilegiada – o que é uma pena. O que eu tive e Caio também tem não deveria ser um privilégio. Deveria ser apenas um direito.

9 Comentários on “Sorvete e Joguinhos”

  1. #1 Felipe
    on Aug 29th, 2012 at 10:53 pm

    Ai Camila, um soco no estomago não teria doido tanto como parar pra pensar sobre esse texto. Deveria ser direito mesmo, pra todos.
    Bjs

  2. #2 camilalpav
    on Aug 30th, 2012 at 7:37 am

    Eu escrevo textinho que me parece todo bonitinho (esse e outros) e vocês vêm e me falam que foi a maior porrada. Não entenderei jamais. :-)

  3. #3 Luciana
    on Aug 30th, 2012 at 1:33 pm

    Quando eu era pequena, meu pai já não era pobre. Não tínhamos laticínios assim tão fartos e o iogurte era luxo de domingo, mas se eu tinha dúvidas, eu não lembro de nenhuma. Quando eu queria alguma coisa, iogurte às terças, por exemplo, meu pai dizia: não dá, bacorinha, nós não temos dinheiro agora. E eu, com minha lógica irrefutável (que era sempre refutada pela materialidade do ato: não comprar): ora, pai, passa um cheque.

    Eu tenho memória de geléia, lembro de poucos eventos, momentos, whatever da minha vida. Mas tenho uma nítida sensação de conforto comigo mesma, de ter sido amada e me sentir segura. De não ter medos (a não ser uma história ótima, edípica até fazer lama, que te conto quando você sobre minha mãe e salões de beleza). Poder, com naturalidade, dizer: ah, faz um cheque, já diz tanto sobre a infância que tive que me comove.

    Lindo, lindo texto… o direito à casa e água e iogurtes é, ali, discreto e profundo, o direito a se sentir cuidado, seguro, né?

  4. #4 Nanda Gama
    on Sep 11th, 2012 at 4:38 pm

    Camila,

    lindo texto, entendo perfeitamente o gesto de sua avó…repito todo mês e também deixo as contas com os comprovantes de pagamento grampeados para que os corações deles fiquem calmos…
    Beijos

  5. #5 Maria Tereza
    on Sep 11th, 2012 at 6:22 pm

    Lindo texto, muito mais esclarecedor que quando falam sobre desigualdade social e apresentam um monte de números que não dizem nada sobre a barriga e a consciência de ninguém. O seu disse e muito bem dito. Adorei, vim aqui através da Fal.

  6. #6 Carla
    on Sep 12th, 2012 at 9:33 am

    Realmente, da um calorzinho no coracao saber que nao tive essas insegurancas. Nao havia iogurte assim, com tanta fartura, mas havia montanhas de mangas carlotinha, que eu achava lusho e rhyqueza porque elas tinham meu nome, e eu podia comer quantas quisesse, ate dar dor de barriga. Afinal, dor de barriga era doenca de quem tinha o que comer.

    Meus olhos encheram de lagrimas mesmo foi com o comentario da Nanda Gama ai em cima. Depois do divorcio, eu nao via os comprovantes, nao sabia a quantas andava a casa em si. Mas meu pai colocava na minha conta pessoal o dinheiro da escola particular. O ato de eu mesminha, aos 15 anos, assinar um cheque pra pagar a minha escola, me deu uma seguranca de que a qualquer tempo na vida, tendo qualquer salario, eu vou poder viver, porque eu sei administrar dinheiro. E eu descobri, assim, cedinho, que sou responsavel e tenho juizo, mesmo sendo rebelde. Nunca fiquei sem pagar a escola.

    Quantas memorias o seu texto me trouxe. Obrigada, Camila.

  7. #7 Simone
    on Sep 12th, 2012 at 11:00 am

    Muito bom! Lindo e triste.

  8. #8 Andrea
    on Sep 12th, 2012 at 11:16 am

    Camila,
    Amei o texto. Para mim não sei se foi soco de estômago, ou alerta, ou uma risada cúmplice. Foi lindo.
    Beijos.

  9. #9 camilalpav
    on Sep 12th, 2012 at 3:35 pm

    Coisa boa que é chegar de viagem e ver tantos comentários lindos me esperando. Vamos lá:

    Lu – “o direito à casa e água e iogurtes é, ali, discreto e profundo, o direito a se sentir cuidado, seguro”, com isso você resumiu tudo. Belos e precisos os adjetivos que você escolheu para qualificar o direito à casa e aos iogurtes. Ah, e eu também já passei altos cheques pro meu pai, de um milhão pra cima \o/

    Nanda – tão emocionante descobrir que minha história familiar encontrou ressonância na sua. Um beijo.

    Maria Tereza – obrigada! Só sei escrever sobre coisas sérias assim, falando antes e acima de tudo sobre aquilo que parece desimportante. Um beijo.

    Carla – “sou responsável e tenho juízo, mesmo sendo rebelde” – lindo demais isso aí, porque nada mais fácil que ser rebelde com o dinheiro dos outros. E o comentário da Nanda também me emocionou, você não foi a única. :-)

    Simone – obrigada!

    Andrea – obrigada! Das três opções, prefiro a risada cúmplice, mas se o texto produziu algum efeito, qualquer que seja ele, já tá valendo. :o)

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