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Revelações

Dia desses, realmente não importa quando, fez 20 anos que minha mãe morreu e lembrei que acumulei algumas, não lições, que não aprendi nada, mas revelações. E noutro dia desses, qual dia foi importa menos ainda, basta dizer que foi um dia sem relação alguma com o dia dos 20 anos, abri uma pasta e encontrei o B.O. da batida de carro que matou minha mãe. Não, eu nunca tinha visto. Não, não sei se vou querer ver de novo. A ideia é escrever este texto sem checar muito porque, francamente, não tem como ficar bonito e não tem como ser um texto de ganhar dedinhos no Feissy – ou talvez tenha, sei lá, cês são tudo doido. Agora vamos ver se cês são doido mesmo e acompanham minhas revelações como se elas significassem alguma coisa. Recentemente eu – pera, assim não; começando a frase com eueu viro o sujeito da frase, e sujeita-soberana das minhas ideias e ações é tudo o que não sou nessa história e neste texto, então vamos começar de novo. Recentemente, me foi revelado que:

- não, o moço responsável pelo acidente que matou minha mãe não teve sua carta de motorista apreendida para sempre. Veja (suspendam a descrença e botem uma fé no que eu digo pelo espaço de uma frase, por favor), eu sou uma pessoa inteligente, juro, e mesmo que não fosse, dane-se, eu tenho 30 anos e, aos 30 anos, reparem bem, aos 30 e não aos 13, eu acreditava absoluta e inteiramente que o moço que dirigia um carro que acabou por matar minha mãe, carro este que vinha em alta velocidade e na contramão (coisas que também sempre me contaram e também sempre acreditei, acho que acredito ainda), eu acreditava de forma absolutamente corporal, sem nunca nem precisar formular essa crença em palavras, acreditava que esse moço nunca mais tinha sentado atrás dum volante na vida. Acreditava, bem, porque sim. Porque decidi. Esse sempre foi um fato objetivo para mim. E aos 30 anos, uma noite, sem quê nem por quê, em casa, sozinha, a indagação me veio pronta, PUFF, rapaz, mas donde foi mesmo que eu tirei que o moço nunca mais dirigiu? Nunca, nunca, nunca em 20 anos me havia ocorrido que essa história fui eu que inventei, meu conto da carochinha todo particular, um conto do meu desejo não de justiça, que não sou altruísta (“essa pessoa não tem condições de dirigir, logo não deve ter permissão para dirigir para não matar mais ninguém”), mas apenas um conto do meu desejo de que alguma coisa, pelo menos alguma, alguma coisa, fizesse algum, pelo menos algum, algum sentido naquela história, meu desejo de que os atos, e não apenas o acaso, tivessem alguma consequência no mundo.

- a gente lê livros e vê filmes e sempre tem violência e CSI ER polícia bandido ação sangue e argh e é tudo sempre ficção, e de repente, minha mãe podia ter sido personagem do plantão médico. Como escrever isso dum jeito não-idiota, calma. Assim. Minha mãe teve o corpo dilacerado. Por fora. Ela não teve uma doença. Ela (mãe. minha.) tava lá e de repente seu corpo lhe foi subtraído. Isso aconteceu. Que nem, assim. Eu tô aqui, você taí. E de repente, zapt, cabou o corpo. O seu, o meu. Não de um jeito rapidinho e asséptico. Acabou dum jeito nojento. Tripas para fora e cérebro para fora e tudo aquilo que quando aparece em CSI a gente fala ai, que mau gosto, que apelação. Todas essas coisas de mau gosto e apelativas aconteceram. Com a minha mãe.

- no bê ó, consta que nenhum dos carros (que no bê ó não são carros, são partesveículos automotores, enfim, qualquer coisa para não dizer que eram simplesmente essa glória da indústria nacional, o carro), mas então, nenhum dos carros estava com o licenciamento em dia, que coisa sensacional. E aí eu vejo o quanto desconheço quem foi minha mãe. Minha mãe era o tipo de pessoa que não pagou (não pagou daquela vez? não pagava nunca?) o licenciamento do carro. Eis aí uma diferença entre nós. Eu sou daquelas que paga obedientemente o licenciamento e morre de medo não sei nem do quê. Ela não pagou e acho que não teve que pagar depois que morreu. Era um Kadet verde e nele ouvíamos Paralamas, Cazuza, Caetano, Gil, João Gilberto, David Bowie e Beatles. Tinha também o que não ouvíamos. Minha mãe não gostava de Frank Sinatra e ela morreu sem que eu pudesse convencê-la de que, né, Frank Sinatra, porra.

- talvez eu já tenha ido mais vezes a Nova York do que minha mãe foi a Paris.

- mas não importa, porque daqui a pouco vou ser mais velha do que minha mãe foi e vou ter lido mais livros, visto mais filmes, tomado mais leite, feito mais depilações, pego mais trânsito, vestido mais roupas, feito mais sexo, falado mais ao telefone, escrito mais cartas, do que ela. Talvez já a tenha ultrapassado em várias destas. Como é ser mais velha do que a própria mãe? Mais experiente? Como é ter mais moral pra saber que é pra se agasalhar no frio e pegar guarda-chuva na chuva? Daqui a pouco vou ser obrigada a saber, se bem que não. Deus me livre. Mamãe estará sempre olhando por mim do ladinho de papai do céu. Nesses termos. Tem nem como.

- uma mãe para amar até faz falta, mas na boa, amar eu já amo bastante gente e bastante coisa, então isso é o de menos. Falta mesmo faz uma mãe para eu odiar, para reclamar ridiculamente pro analista aos quarenta anos de idade que, cara, olha como minha mãe atravancou minha vida, e eu acho mesmo que ela teria vetado algumas coisas que me aconteceram e que isso seguramente teria me parecido, na época, um grande atravancamento da vida, e aos quarenta anos, na análise que nunca farei, eu perceberia que não, que minha mãe agiu certo e, se não agiu, fez o melhor que pôde, eu perceberia essas verdades sempre tão comuns que as pessoas percebem na análise depois de velhas, a um custo emocional enorme e financeiro maior ainda, mas eu, bem, eu hoje e sempre só posso odiar minha mãe porque ela morreu – e, acreditem, eu odeio, sempre achei que foi culpa dela, que ela se mandou pro ladinho do papai do céu para ficar flanando por Paris e me deixar aqui em São Paulo mesmo, não pensem que não acho isso não. Mas é pouco, é um odiozinho muito fajuta esse, eu precisava ter alguém, ter por onde, sentir raiva, eu invejo quem sente, vejo essas pessoas espumando de ódio porque o Serra, porque o Kassab, e eu nunca, eu tenho sempre, muita, vontade de chorar, e raiva e ódio de vez em quando devem fazer bem, em vez de choro.

- algum dia as mães que estão aí, dos meus amigos, irão morrer, e já posso imaginar as gafes que cometerei, “nossa, sua mãe morreu aos 80 anos, que bom pra ela, que sorte a sua”, vou criar inimigos, provocar tsc-tscs de vergonha alheia, serei bloqueada em redes sociais, os amigos dos meus amigos dirão a seus filhos “tá vendo, amorzinho, é assim que a gente não deve se comportar em sociedade”.

- segurei as mãos do meu marido e disse, você entende, entende, que estou chorando hoje, mas daqui a dez anos será exatamente igual, e talvez daqui a um mês também, e para sempre, você entende que para você a vida vai ser sempre isso, eu sempre vou escrever esse tipo de texto e chorar esse tipo de coisa?

- ele entende, ele só pode baixar a cabeça e entender, ele, todos, baixam a cabeça e entendem, e é isso mesmo, me entendam, por favor, eu sempre precisarei que me entendam, porque eu é que não entenderei jamais como é que as mesmas coisas, o mesmo acontecimento, a mesma gosma na garganta voltam, e não é só que voltam, mas voltam cada vez um pouquinho diferente, só para dar aquela ilusão de que agora sim, você entendeu alguma coisa nova, agora sim, tô elaborando o luto loucamente, e toda vez, depois dos múltiplos agora-sim, Freud ri de mim.

- eu acredito sinceramente que nunca nada de mau vai acontecer comigo de novo. É o mais difícil de escrever e de admitir. Porque mostra que continuo acreditando numa entidade onipotente – Deus, o Universo, a Linguagem, Tom Jobim – que regula e dá sentido a tudo. Já estou quite com – Deus, o Universo, a Linguagem, Tom Jobim – e não devo mais nenhum sofrimento ao mundo. É uma crença poderosa e perniciosa de um jeito que apenas agora estou começando a descobrir.

40 Comentários on “Revelações”

  1. #1 bete_davis
    on Sep 21st, 2012 at 7:49 pm

    minha mãe morreu ano passado-= eu ia escrever faleceu- é mais elegante, mais distante- mas morreu mesmo, acabou, se foi- ano passado. 69. acho 69 hj ainda muito jovem pra ir, eu nào esperava. enfim. me vi em umas partes aqui. e tenho invejade quem tem màe, mesmo que eu volta e meia brigasse com a minha. bj

  2. #2 camilalpav
    on Sep 21st, 2012 at 7:52 pm

    Um beijo, Iara. Eu também acho jovem.

  3. #3 maycon
    on Sep 21st, 2012 at 8:09 pm

    Camila, vários dedinhos levantados e to compartilhando.

    ps: meu pai morreu com 46 anos. Eu tinha 17. E eu choro. não sempre, não todo o tempo. Ás vezes sonho com ele e acordo chorando. outras vezes ouvindo uma música, andando na rua. é sempre um acontecimento.

    bjeijonhos.

  4. #4 Honorato
    on Sep 21st, 2012 at 8:11 pm

    Sem muitas palavras, até por que não as tenho !

    Apenas

    um

    Abraço !

  5. #5 Robson
    on Sep 21st, 2012 at 8:15 pm

    Sempre leio seus textos, mas nunca comentei porque nunca tive nada inteligente pra comentar.
    Mas esse texto de hoje me deu um nó na garganta.
    Textos sobre mãe me dão nó na garganta e esse em especial porque me coloquei no seu lugar.
    Beijos, um ótimo fim de semana.
    Você escreve absurdamente bem.
    Sou seu fã.

    Robson / SJCampos

  6. #6 Veronica
    on Sep 21st, 2012 at 9:56 pm

    acho que nunca comentei aqui, embora leia rotineiramente seus textos, mas esse post me acertou em cheio. sempre fico com um nó na garganta quando leio sobre mães que morreram, porque ainda não estou preparada para perder a minha e nem estarei um dia. quando olho para ela e vejo seu ar de cansaço, suas dores e suas reclamações, uma pontada me acerta, porque sempre penso que ela poderia já não estar aqui e eu não sei o que faria, como continuaria, como me adaptaria. acho que isso seria próximo à “como arrumar o quarto do filho que já morreu”.
    um abraço.

  7. #7 André Alvarez
    on Sep 21st, 2012 at 10:14 pm

    Putz, que merda.

    Admiro como vc se expõe Camila. É por isso que sempre volto pra te ler. Só te conheço pelos textos, mas mesmo assim é sempre de uma verdade que, hoje por exemplo, dá vontade de te oferecer colo.

    Apesar de nunca ter passado por uma dor como a sua, essa última sensação que você cita eu também conheço. Essa última fagulha irracional é misteriosa e mágica mesmo. Me fez lembrar disso aqui:

    http://www.sul21.com.br/blogs/miltonribeiro/2008/10/03/ingmar-bergman-j-s-bach-e-minha-separacao/

  8. #8 camilalpav
    on Sep 21st, 2012 at 10:47 pm

    Maycon, exatamente. _Um acontecimento_. Um beijo pra você.

    Honorato, obrigada pelo abraço e pelo carinho cotidiano.

    Robson, mas não precisa mesmo ter nada de inteligente pra comentar – blog é pra isso que estamos fazendo aqui, trocar palavras e afetos. Obrigada por se colocar no meu lugar.

    Veronica, que bom te ver por aqui. Eu diria que para algumas experiências não há preparação possível, e tudo bem. Um abraço pra você também.

    André, obrigada por ter percebido alguma verdade no texto. E obrigada também pelo link, que coisa linda. Bach dizendo tudo bem antes e bem melhor do que nós.

  9. #9 fal
    on Sep 21st, 2012 at 11:07 pm

    embora odiada pelo seu sistema de comentários, tento de novo e de novo, só pra beijar suas mãos.

  10. #10 camilalpav
    on Sep 21st, 2012 at 11:30 pm

    Eita. Sistema de comentário de blog = tô pra ver um que não dá pau. :-/ Obrigada por tentar de novo e de novo e beijinho na mão pra você também.

  11. #11 Renata L
    on Sep 22nd, 2012 at 1:22 am

    puta que pariu, Cam. Puta que pariu.
    E ó: escreve. Escreve sempre.
    Porque é isso: escrever dá.
    Tanta coisa não dá.
    Escrever dá.

  12. #12 bete_davis
    on Sep 22nd, 2012 at 2:49 am

    camila, seu texto acabou fazendo um carinho em todo mundo , acho eu. se sentir compreendida de alguma forma faz isso. espero ter feito algum carinho nesse seu coração , no coração da gente que sempre vai faltar um pedaço. bj.

  13. #13 Mary W.
    on Sep 22nd, 2012 at 3:40 am

    :*

  14. #14 Luciana
    on Sep 22nd, 2012 at 4:28 am

    Esse é um comentário que eu não sei escrever. Minha mãe saberia, se ela lesse blogs. E não é porque ela é minha mãe e os pais sabem tudo (isso também) mas porque ela sabe de perdas. Sabe tanto que eu que sei bem pouco sinto doer em mim. Como senti ao ler seu texto. Geralmente sinto assim, tangencialmente, “como seria se fosse eu” ou “como será quando for o meu vazio”. Hoje e agora não. Só queria poder estar aí, suco de laranja pra você, uma cerveja pra mim.

    [----o----]

  15. #15 camilalpav
    on Sep 22nd, 2012 at 8:19 am

    Rê: ultimamente você tem escrito tantas coisas que têm me feito sorrir. Como essa. É bom ser lembrada de que, tudo o mais faltando e falhando, com a escrita a gente sempre pode contar.

    Iara, o texto não sei, mas você fez carinho sim. :-)

    Mary – :***

    Lu: … ou vinho pra nós duas, né? Na próxima acho que pode ser assim. :-) Você mal atravessou o oceano e eu já tô aqui me perguntando quando é que você dá um pulinho em SP de novo. Não presto mesmo.

  16. #16 Bel
    on Sep 22nd, 2012 at 8:32 am

    Putz, Cami. Que dor, que lindo, que triste, que bom que vc pôde escrever esse texto. Sorte nossa. Talvez tenha sido bom pra vc tbm, não sei. Repito a Renata: escreve, sempre. Mesmo que não entenda. Ninguém entende na verdade, eu acho. Baixo a cabeça, mas não sei se te entendo. Sei que te amo, isso sim. Muito. :*

  17. #17 Lu Botter
    on Sep 22nd, 2012 at 10:06 am

    Oi Cami,
    Queria ter algo excepcional para te dizer. Algo que te ajudasse a entender e diminuísse a sua dor.
    Mas não tenho.
    Só posso te garantir que aqui vc é mais do que querida e poderá encontrar sempre, ou quase sempre, abrigo, companhia, carinho e bolo com leite.
    Beijo grande

  18. #18 Gui Losilla
    on Sep 22nd, 2012 at 12:18 pm

    Clap, clap, clap!
    Tá de parabéns, como sempre!

  19. #19 priscila
    on Sep 22nd, 2012 at 4:59 pm

    comecei a chorar na hora q tava pensando no que escrever, melhor então deixar um beijo imenso e um abraço apertado. te amo.

  20. #20 Luciana
    on Sep 23rd, 2012 at 4:59 am

    Baby, não há nada, nadinha pra você fazer do lado de cá? Olha que tem até pouso, viu. E vinho a larga.

  21. #21 Angelica
    on Sep 23rd, 2012 at 8:36 am

    “eu acredito sinceramente que nunca nada de mau vai acontecer comigo de novo. (…) mostra que continuo acreditando numa entidade onipotente.”

    Eu tambem sinto isso, nao por acreditar numa entidade onipotente, mas sim por achar que o que passei foi tao, mas tao ruim, que me deu uma referencia.
    Tudo o que acontecer: perder meu cachorro, perder meu emprego, perder meu marido… tudo vai ser menos do que perder a mae aos 13 anos de idade.
    Entretanto, ha mais, ha dores que podem colocar a cerca da dor mais alem, para quem ja tem filho ha essa perda, que dizem, realmente coloca a cerca nos confins do inferno.

  22. #22 camilalpav
    on Sep 23rd, 2012 at 9:12 am

    Bel, a gente se conhece desde quando eu mal sabia que minha mãe tinha morrido. Você entende das coisas sim. :*

    Lu Botter, querida – eu vejo o quão bem vc me conhece pela parte do bolo com leite. :-) Obrigada pelo carinho.

    Gui: obrigada :*

    Priscila: ei. :*******

    Lu Nepomuceno, mas é claro que tenho o que fazer por aí: ver você. Eu quero muito, ano que vem.

    Angelica: tem um personagem em O Filho da Noiva que diz algo parecido. Ele perdera mulher e filhos e dizia que, depois daquilo, era como se ele tivesse se tornado uma espécie de Super Homem, porque nada mais o atingia. Mas eu concordo com a parte do “entretanto” que você citou – sou fiel adepta da teoria segundo a qual tudo sempre pode piorar. Agora, o mais importante é lembrar que, só porque _pode_, não significa que _vai_.

  23. #23 Deborah Leão
    on Sep 24th, 2012 at 8:20 am

    E aí na sexta eu não li meus feeds, e não vi esse texto, e perdi a chance, no sábado, de te dar um abraço bem apertado, ao invés de ficar falando das minhas besteiras. E de novo a tentação é de ficar aqui falando de mim, mas eu não consigo nem imaginar o que é essa dor da perda devastadora que vem sem aviso.

    “Perda devastadora” é quase um pleonasmo, mas não dá pra cair na tentação de achar que todas as perdas devastam na mesma medida. Você (provavelmente, pra não dizer certamente) foi definida pela perda da sua mãe com um impacto que a perda do meu avô jamais terá sobre mim. Embora essa perda também tenha tido sua cota de devastação.

    E olha, isso de achar que a gente já esgotou a cota do sofrimento é uma sensação inevitável. Inclusive por procuração: “Ah, esse avião não vai cair agora, não seria justo minha mãe sofrer desse tanto, logo depois da perda do meu avô”. Não se reprima, até o mais ferrenho dos marxistas acredita n’O Povo. Nas forças da história. Em alguma coisa maior do que todos nós, porque não é possível que a gente se sinta tão especial e seja tão desimportante.

    (Aliás, uma tese: os povos nórdicos são mais ateus porque eles acreditam no Estado provedor e justo. Quem precisa de deus?)

  24. #24 camilalpav
    on Sep 24th, 2012 at 10:43 am

    Mas Deborah, você me deu abraço apertado sim. E não faz sentido comparar tamanho de dor, que isso de dizer “o meu é maior que o seu” é coisa que se verifica com muito maior frequência e propriedade entre homens, seus carros e algumas partes do corpo. Agora, é claro que algumas experiências são muito mais formativas do que outras. É como você disse, uma coisa é atravessar uma experiência devastadora sendo uma ser-humaninha que mal sabe amarrar os cadarços do tênis e bem outra é atravessá-la sendo uma mulher (com todas as inseguranças e medos e pobremas de praxe, mas – uma mulher) feita. Os jeito de se virar-nos-30 nas duas situações só podem ser completamente distintos.

    Super obrigada pela parte final do seu comentário também. Talvez você tenha razão e de fato façamos sempre como o alcoólatra que se livra do vício na bebida substituindo-a por chocolate ou por Deus – e substituamos Deus por, senão chocolate e bebida, O Povo ou O Estado (no meu caso, Tom Jobim, mas eu não sou parâmetro pra ninguém). Adorei sua tese-de-bar dos povos nórdicos. Vou divulgar. Beijos e vamos conversando, sempre.

  25. #25 Flá
    on Sep 24th, 2012 at 12:14 pm

    Chorei lendo o seu texto, mesmo não chegando NEM PERTO de saber como você se sente… Queria te dar um abraço mesmo não te conhecendo, e dizer que eu entendo, mesmo não sabendo de verdade porque embora já tenha sofrido perdas que me tiraram o chão- até hoje choro pela minha avó, que morreu 3 anos atrás…-, sei que jamais vou estar preparada se (ai meu deus, “quando”?!) a minha mãe morrer…

    Mesmo sabendo que não existem garantias para nada, estarei aqui pedindo- pra Deus, o Universo, a Linguagem, Tom Jobim- para que nada de mal te aconteça, não mais.

    Um beijo grande.

  26. #26 Junior
    on Sep 25th, 2012 at 12:47 pm

    Oi, Camila. Há um tempinho não lia o seu blog por falta de tempo, etc. E esse texto que tu escreveste toca fundo em quem lê, não sei qual o adjetivo certo para defini-lo, talvez seja pungente, talvez seja tocante, sinceramente não tenho a mínima idéia. Mas o certo é que qualquer um que seja capaz de sentir uma mínima emoção com uma manifestação artística fica emocionado ao ler o que tu escreveste. Faço minhas as palavras do André:
    “Admiro como vc se expõe Camila. É por isso que sempre volto pra te ler. Só te conheço pelos textos, mas mesmo assim é sempre de uma verdade que, hoje por exemplo, dá vontade de te oferecer colo.”
    O meu avô faleceu com 64 anos, quando eu tinha 18. Foi a primeira perda que eu tive na vida e doeu pra caramba. Eu sempre achava que não iria chorar (o velho clichê de que “homem não chora”). Mas – felizmente – percebi que isso de querer ser “forte” é uma bobagem. Eu tive a ajuda dos meus pais para superar a morte do meu avô. Não dá para imaginar como deve ter sido difícil para uma menina de 13 anos perder a mãe, justamente porque não há a mãe para te ajudar nesse momento complicado que é a primeira grande perda da vida. A morte de quem nós amamos é sempre prematura, não importa a idade que essa pessoa tenha ao falecer. Isso vale também para aqueles que nós admiramos. Já que tu falaste em Tom Jobim, o L. F. Verissimo disse certa vez em uma entrevista: “pessoas como o Tom Jobim, mesmo que morram com 100 anos, sempre vão morrer cedo demais”.
    Treze anos depois da morte do meu avô, não importa o que o Houaiss ou o “Aurelião” digam, mas eu subverti o significado de nostalgia. Para mim, nostalgia são as lembranças do meu avô e que sempre me causam um leve sorriso.
    Esse teu texto, mesmo que possa ser considerado triste, faz um bem enorme para quem o lê, é um texto impregnado de verdade e amor. Não é aquele amor meloso ou fake, é um amor visceral e belo. Se existe alma, tenho certeza que escreveste do fundo da alma. Nós, leitores, percebemos facilmente o amor e carinho pela tua mãe em cada linha escrita.

  27. #27 camilalpav
    on Sep 25th, 2012 at 9:31 pm

    Flá, tenha a certeza de que, mesmo não me conhecendo, você me abraçou. Obrigada por escrever e um beijo grande pra você também.

  28. #28 camilalpav
    on Sep 25th, 2012 at 9:40 pm

    Junior, que bom te ver por aqui de novo. Muito obrigada por sua bela carta. Você escreveu uma coisa que minha analista uma vez me disse: que minha mãe era (seria) a única pessoa capaz de me ajudar a conter a dor de perder… ela mesma.

    Obrigada por me contar do seu avô. E obrigada também por perceber o amor.

    Um abraço enorme pra você, Junior. Acho difícil que meu texto tenha tocado você mais do que seu comentário tocou a mim.

  29. #29 Cintia Ruiz
    on Sep 26th, 2012 at 9:51 am

    Como a mulher de “40 anos” (vamos fechar em 41… ok, são 42, admito vai) que nunca perdeu ninguém na vida e hoje faz sessões ridículas de análise tentando culpar a mãe, seu texto me deu outra perspectiva. Como, aliás, costuma acontecer quando falo/escuto você.
    Saudades pra sempre.
    Beijos

  30. #30 Jeferson
    on Sep 27th, 2012 at 9:35 pm

    Parabéns aí. Forte e bonito.

  31. #31 camilalpav
    on Sep 27th, 2012 at 10:10 pm

    Cintia, foram as minhas ridículas sessões de análise que me permitiram escrever este texto e tantas outras coisas. Aproveite bem as suas! Beijos, sempre.

  32. #32 olivio
    on Sep 28th, 2012 at 1:54 pm

    Filhota, eu sou um idiota! Um beijo, meu bem.

  33. #33 camilalpav
    on Oct 1st, 2012 at 8:57 am

    Jeferson, obrigada.

    olivio, né não! Mas confesso que achei muito bonitinha a rima de filhota com idiota, ficou fofo. :-)

  34. #34 Renata L
    on Oct 1st, 2012 at 11:26 pm

    Camilita, fiquei com saudade, vim ver se você tinha postado algo novo. Deixo outro beijo. Você é sábia. E doce. E engraçada. Admiração infinita.

  35. #35 camilalpav
    on Oct 2nd, 2012 at 9:57 am

    Que linda você. Amanhã tem mais – mas post divertido de musga, acho. :-P Essa admiração sua deve ser espelho da minha por você, viu? Só pode. :-)

  36. #36 Daniel Nascimento
    on Oct 3rd, 2012 at 7:38 am

    Devo confessar que desde aquele nosso almoço com a Lu no Pirajá fiquei intrigado com um comentário,não lembro qual, que você fez mas deu a deixa de que algo terrível havia acontecido em tua vida. E ficava pensando no quanto esse mundo é cruel por fazer isso com pessoas que você sente serem boas, legais, doces. Mas ao mesmo tempo a maravilha é ver como algumas pessoas podem lidar com isso de forma tão leve (porque são palavras tristes, mas leves) e sábia como fazes agora.

    Enfim, todo um blá-blá-blá só pra te deixar um forte abraço.

    E pedindo licença no teu espaço: Menina Deborah, aquele abraço, forte, que ainda não consegui te dar mas que, acho, não conseguirei. Não por distância, mas por incapacidade de transmitir o que gostaria.

    Beijos. ;)

  37. #37 Ângela F.
    on Oct 4th, 2012 at 12:36 pm

    eu li uma entrevista c o marcelo rubens paiva q ele começava: meu pai já tinah morrido daquele jeito, tinha certeza q nada mais me aconteceria. até pular da cachoeira. e escrever o sensacional feliz ano velho. enfim. q babaca eu sou. mas há anos escrevi no bloggete q nunca soube q se ao começar um dia de um mal jeito fosse presságio q ele todo seria uma merda ou se depois ele iria se redimir. pq já houve dos dois tipos. e olha q tenho amostragem. nossa, to me sentindo mais babaca ainda. menina, abraços apertados. mães n deviam morrer nunca. nunca. a minha n morreu, vai durar e dar trabalho. ainda diz q quer um velório à lá falecida (ainda por cima é prof de literatura e gosta do nelson).

  38. #38 camilalpav
    on Oct 5th, 2012 at 11:11 am

    Daniel, você não sabe como fiquei tocada ao ver que você, no meio da mudança, da zona e do caos, arrumou um tempinho pra vir aqui e deixar um abraço pra mim e outro pra Deborah. Obrigada por ver a leveza no texto. Um beijo enorme.

    Ângela, de arrepiar esse comentário do Marcelo. É bem por aí, não adianta ficar interpretando as coisas como “sinais” porque quem atribui o sentido aos sinais somos sempre nós, não tem jeito. A tragédia pode ser sinal de que tudo vai ficar bem assim como pode ser sinal de que vem ainda mais desgraça ainda pela frente. É natural, é humano atribuir esse tipo de sentido, de lógica às coisas. Difícil mesmo é lembrar que a gente (nem a gente nem ninguém, aliás) controla nada. Só posso receber seus abraços e torcer para que sua mãe ainda te dê muito trabalho. :**

  39. #39 Ligia
    on Oct 29th, 2012 at 8:25 am

    Camila, sou uma mae cujo filho, apesar (ou ainda mais, ou ainda mais depois) da analise pessoal ainda me detesta! seu texto me consolou, afinal, foi a primeira vez na vida em que acreditei q, finalmente, fiz alguma coisa certa: ele tem a quem culpar por tudo de mal q lhe acontece! obrigada!

  40. #40 camilalpav
    on Nov 4th, 2012 at 9:18 pm

    Um beijo pra você e pro seu filho, Ligia.

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