Saladas e Polainas

Comecei a escrever um post sobre música, mas de repente mudei de ideia e quis falar sobre minha outra paixão.

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Eu estava quase dizendo que “se pudesse, me alimentaria apenas de saladas e massas”, quando me dei conta de que, na verdade, não apenas posso como é exatamente isso o que faço. Aqui em casa, quase todo o dia come-se alguma salada e alguma massa. E não só por motivos passionais, mas também de praticidade: saladas e massas são os únicos pratos que consigo preparar, improvisadamente e sem qualquer tipo de preparação prévia, em menos de 30 minutos, fazendo deles refeições completas.

Salada, para mim, é cor, frescor, criatividade; é fazer experiências com diferentes combinações. É como escrever um poema ou escolher uma roupa: os elementos precisam conversar uns com os outros. Com isso ninguém está propondo rimar paixão com emoção ou usar bolsa, cinto e sapato com estampa de oncinha combinando. (A menos que você de fato adore uma paixão melosa ou um glamour de perua, em cujo caso ninguém tem nada a ver com isso.) O maior equivalente a rima-pobre e estampa-de-onça no universo das saladas é (sim, você adivinhou certo) o duo-combo alface-tomate. Veja: se você gosta, então se joga, bebê. Só não vale achar que salada é (ou só pode ser) isso.

A seguir, um pouquinho da minha estratégia de preparação de saladas:

- Folhas….. Só vale usar folha em uma salada se ela estiver linda, fresquíssima, perfumada (se for rúcula), com aquela carinha de crocante (se for alface). Se a folha que você encontrar no mercado estiver qualquer coisa menos do que sensacional, desista. Não é hoje que você vai comer salada – ou melhor, não é hoje que você vai comer uma salada de folhas. Insistir em um ingrediente meia-boca é uma péssima escolha: sua salada não vai ficar boa (aliás, isso vale para qualquer coisa: a qualidade da sua comida nunca será superior à qualidade dos ingredientes que você estiver utilizando), e você vai acabar me xingando e resmungando que “humpf, salada é coisa de magro”. Deixa eu te falar: né não. É verdade que como salada quase todos os dias agora que estou magra. Assim como é verdade que comia salada quase todos os dias quando estava gordinha. (Aliás, quando estava gordinha comia até mais salada do que hoje, porque comia mais de tudo.) Salada é uma explosão de cores e formas no prato e de sabores e contrastes na boca. Salada é uma coisa linda, desde que você não se esqueça desta primeira e fundamental regra: vinagre balsâmico nenhum há de salvar aquela rúcula de antenontem.

- Alternativa às folhas, se você quiser um verdinho na salada….. Muita gente acha que salsa não tem gosto. É porque não têm nenhum registro dela crua. Se não houver nenhuma salada decente no mercado, vá de cheiro verde. Dificilmente não haverá pelo menos um maço de cheiro verde fresquinho; coloque as folhinhas de uns dois ramos de salsinha na sua salada e depois vem aqui me dizer se elas não dão aquele toque verde tão amigo e necessário. Outra possibilidade é: use infinitas e finíssimas rodelinhas de alho-poró. Não, é claro que isso não vai substituir nenhum algrião ou alface. Mas vai sim dar aquela sensação-verdinha tão refrescante.

- Quantidade de ingredientes….. Tem aquela salada que você põe no cantinho do prato, espremida entre o arroz, o feijão e o bife. E tem a salada de que estamos falando agora. Com esta, é favor esquecer aquela regrinha do less is more. Menos, aqui, é só menos mesmo. Escolha pelo menos uns cinco ingredientes para combinar. Desses cinco, uns dois têm que ser dominantes: eles devem constar em maior quantidade no prato. Até aí, tudo simples e fácil. A graça começa agora:

- O elemento de interessância da salada…. Toda salada deve ter um, ou no máximo dois, elemento(s) de interessância. Não é o ingrediente principal do prato; não é o que está presente em maior quantidade, mas é o que se destaca como o mais diferente, o mais destoante de todo o resto. O elemento de interessância de uma salada é como o punctum de uma fotografia – segundo Barthes, aquele detalhe “perfurante” que confere singularidade e especificidade à imagem. Os elementos de interessância podem ser de dois tipos:

a) elementos divertidos – abacaxi, manga, brócolis cozido, cebola grelhada… São interessantes quando a salada não é o prato principal da refeição. Hoje, por exemplo, havia (o que mais) macarrão para o jantar, mas eu estava extremamente desejosa de uma salada. O elemento divertido escolhido, então, foi uma fatia de abacaxi.

b) elementos-ogro – recomendados para dar um mínimo de sustância à salada quando ela constitui o prato principal da refeição e você sabe que provavelmente não comerá mais nada de significativo pelas próximas três ou quatro horas. Dentre as ogrices, destacam-se: alguma fritura (batata, batata doce, cenoura, sempre fatiadas bem fininho e salteadas na frigideira); algum queijo; castanhas ou nozes; pão (gosto de fazer ˜crutons˜, isto é, botar o pão que tenho em casa picadinho no forno com azeite, sal e orégano por uns 15 minutos); azeitonas pretas; bacon. Enfim, qualquer coisa de sabor marcante e/ou gorduroso, que complemente bem os outros ingredientes em cena.

- Tempero…. Aqui, três coisas para lembrar para todo o sempre:

a) Proporção 1:2 – uma porção de limão/vinagre/balsâmico para duas de azeite, sempre. Um para dois. Precisamente. Se você não é bom de olhômetro, não tenha vergonha e meça.

b) Molho – é impressionante e ridícula a diferença que faz você colocar uma colher de limão e duas de azeite num pote bem fechado e sacudir bem. O fenômeno químico que acontece chama-se emulsão, mas dane-se ele: o que importa é que, pela simples ação de sujar uma louça a mais e fazer um esforcinho com o braço para sacudir o potinho, você obtém um efeito muito mais interessante do que se tivesse regado a salada com azeite e limão separadamente.

c) Sal e pimenta – nunca consegui calcular direito a quantidade de sal e pimenta para o molho. Talvez seja só uma dificuldade minha, mas me parece muito mais fácil, em vez de pôr aquela meia colherinha de sal no molho e depois ter que prová-lo cinco vezes até acertar o ponto, temperar a salada com sal e pimenta antes, e deixar para misturar apenas os líquidos no potinho.

***

É bem provável – para não dizer desejável – que daqui a dez anos eu dê risada de várias dessas dicas, como fazem as mulheres de hoje ao se verem de polainas nas fotos tiradas na década de 80. Entendo que minha estratégia de hoje bem pode vir a ser minha polaina de amanhã – mas, hoje, ela é o que tenho. É o que pude e o que posso fazer com as verduras, legumes, frutas que tenho em casa.

E também com as palavras, sempre elas.

9 Comentários on “Saladas e Polainas”

  1. #1 Luciana
    on Oct 3rd, 2012 at 3:55 am

    Existiu uma época da minha vida (porque, aqui, sempre ando a confessar?) em que eu dizia: salada? eca. É que, por aqui por cima (vulgo Nordeste), por muito tempo salada foi sinônimo de alface e tomate. Aí, um dia, ah, um dia…as saladas criativas, divertidas, inesperadas. O manjericão. A manga. O queijo. O bacon, ah, o bacon, ali, de mãos dadas com o tomate cereja e a rúcula. As cenouras raladas. Os cogumelos. Mudou tudo por aqui. Não me emagreceu em nada e nem é por isso ou pra isso que como, mas diversificou, enriqueceu e alegrou cada refeição.

    E eu também acabo comendo massa e salada por causa do tempo (mas não só). Não por acaso a primeira refeição no cantinho novo foi….rufem os tambores…salada! Pois.

  2. #2 Deborah Leão
    on Oct 3rd, 2012 at 7:25 am

    É receita de salada, mas podia ser, sei lá, receita de relacionamento feliz. Tudo tem que ter uma boa mistura de ingredientes nessa vida. E a proporção adequada. E, mais que tudo, principalmente, fundamentalmente, um elemento de interessância. Gosto do meu casamento, do meu trabalho e das minhas viagens de férias assim.

    (Mas discordo da tese das folhas frescas. Sou daquelas que prefere folhas meio murchas a folha nenhuma. Agrião, nham-nham.)

  3. #3 Daniel Nascimento
    on Oct 3rd, 2012 at 9:00 am

    “Salada, para mim, é cor, frescor, criatividade; é fazer experiências com diferentes combinações. É como escrever um poema ou escolher uma roupa: os elementos precisam conversar uns com os outros.”

    O que dizer de saladas depois dessa?

    O que eu digo é que sempre gostei muito de salada. E sou das poucas pessoas que conheço que curte almeirão. Acho que as pessoas não curtem almeirão devido a algum trauma de bandejão de escola, facul ou empresa ;)

    Agora, se antes eu gostava muito de salada, hoje sou fã e em especial a da minha sogra. A mulher sabe fazer uma salada com um sabor, frescor, que olho, olho, vejo ali tudo que uso, e não consigo reproduzir.

    E vivas aos verdes: coentro, salsa, cebolinha, manjericão, Palmeiras (ops, mals aê: escapou ;))

  4. #4 Lu Botter
    on Oct 3rd, 2012 at 9:19 am

    Oi Cami,
    Adorei o post e suas dicas de saladas :-))
    Posso acrescentar duas dicas que acho que se integram perfeitamente bem às suas??
    1. Salada com sustância, mas não necessariamente com um elemento-ogro: saladas de grãos.
    Aqui vale tudo: cevadinha, trigo em grãos, soja integral, quinoa, painço, e até um arroz sete grãos que sobrou do almoço e vc transforma em uma salada no jantar, juntando o útil ao agradável.
    2. E lembrando que saladas de grãos merecem bons temperos (como vc ressaltou para as saladas em geral), não podemos nos esquecer de um ingrediente essencial para molhos: mostarda de dijon. Não precisa ser a mais cara do mercado, basta ser uma razoável. Mas não dá pra ser a hellmann’s, se a qualidade do prato e o sabor forem prioridades. E uma pequena quantidade da mostarda de dijon naquele seu “mixer” com o azeite, limão e cia já dá um toque especial.
    Custo/benefício (e sem propósito de propaganda, não ganho nada com essa dica), gosto muito da Grain D’Or.

    Beijo, querida!
    PS – nossa, me empolguei aqui.. desculpa o comentário longo.

  5. #5 Bel
    on Oct 5th, 2012 at 7:20 am

    Outro dia vi uma mulher de polainas na rua… será que elas estão voltando?! :-P

  6. #6 Mari Ferreira
    on Oct 5th, 2012 at 10:51 am

    Nossa, quero uma salada agora!!!!

    E como sou folgada fiquei querendo fotos e receitas com as combinações mágicas!

    Mas olha, como boua mineira que sou, salada sem queijo pra mim nao é salada. Nem acho ingrediente ogro! Principalmente se for uma ricotinha ou até mesmo, quem sabe, se o orçamento permitir, um queijinho de cabra!

    Nham Nham

  7. #7 camilalpav
    on Oct 5th, 2012 at 11:23 am

    Lu Nepomuceno – exatamente, você começa a fazer das saladas toda uma experiência de sonho e elas não te emagrecem em nada, graças a deus. :-) Essa história de publicidade que a gente vê no Feissy em que celebridades dizem “emagreci comendo salada” nunca há de funcionar aqui em casa, graças a deus ao quadrado.

    Deborah: isso, tem que ir combinando e ajustando e escolhendo e privilegiando algumas coisas. E é um conhecimento que só vem com a experiência. Beijos e folhas fresquinhas pra você (murchas não, vai, sério). :-P

    Daniel, putz, salada de sogra, nem me fale. Minha sogra faz o melhor tabule do mundo, porque ela substitui o trigo por quinua. É o tipo de coisa que nem me arrisco a tentar fazer igual, porque é como você disse, já sei de antemão que não vai ficar tão bom quanto. Beijos e parabéns pro seu time – fiquei sabendo que o Palmeiras ultrapassou até o Russomanno esses dias! \o/

    Lu Botter: 1- só não falei dos grãos aqui porque é algo mais complexo e que demanda uma preparação prévia… Mas nossa, adoro, claro. 2- Isso, pra não falar também na combinação mostarda-mel que sempre deixa qualquer alface americana mais feliz. Beijos e ó, aqui não tem restrição de caracteres, escreva sempre à vontade!

    Mari, queijo de cabra-castanhas-mel-damasco, mais uma folhinha qualquer e, deixa eu pensar, já sei, berinjelas grelhadas – é de fazer qualquer um feliz, né? Adorei sua teoria de que salada sem queijo não é salada. :-)

  8. #8 Rafael Reinehr
    on Oct 6th, 2012 at 11:49 am

    Puxa, você seria uma ótima cliente das nossas hortaliças orgânicas! E também dos ovos, já que eu iria te convencer a fazer sua própria massa fresca!

    Ah! E antes que digas que levaria muito tempo para fazer a própria massa, deixa eu te dizer que fazer massa fresca não leva mais do que 6 a 9 minutos, e ela cozinha em 2 a 3 minutos. Ou seja, o tempo de cozimento da massa comprada não é diferente do tempo de preparar a massa na hora + o seu cozimento!

    Um abraço!

  9. #9 camilalpav
    on Nov 4th, 2012 at 9:10 pm

    RR, deosmeo, tô vendo seu comentário só agora! /o\ Mas tudo bem, porque você nem precisaria me convencer a fazer minha própria massa, eu sou super pré-convencida de tudo quanto é DIY culinário. Beijo grande, tão legal te ver aqui.

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