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Ouvindo Tarantella de Lars Danielsson

Na viagem de volta de Nova York, vim alternando a audi√ß√£o de Tarantella com a leitura de The Making of Kind of Blue. O livro, claro, √© uma del√≠cia, tudo o que mais adoro nesta vida etc. – e, ao final de uma avalanche de informa√ß√Ķes e detalhes sobre a grava√ß√£o do disco, o autor n√£o foge √† quest√£o de por que raios foi que este disco, justo este, fez o sucesso que fez tendo Miles pelo menos outros 20 (alguns diriam 30) discos t√£o bons/revolucion√°rios/importantes/tchu-tcha-tcha-tchu quanto. Essa √© uma quest√£o que me fascina demais: por que determinadas coisas atingem um p√ļblico mais amplo e outras, em v√°rios aspectos muito parecidas aos greatest hits, permanecem no limbo, do ponto de vista da recep√ß√£o. Por que √© que KoB atingiu tanta gente sem nenhum interesse por jazz enquanto que My Funny Valentine, por exemplo, n√£o? √Č realmente incr√≠vel e inexplic√°vel – ou melhor, explic√°vel √©, o problema √© que as mil explica√ß√Ķes poss√≠veis jamais poder√£o ser testadas e confirmadas ou refutadas – e, enquanto eu lia essa parte, ia pensando no Tarantella. Que √© absolutamente t√£o lindo – e j√° t√£o importante para mim – quanto KoB. E, no entanto, n√£o √© um disco que marcar√° √©poca, que vender√° aquela quantidade constante de c√≥pias pelo resto de sua exist√™ncia, que ter√° um livro escrito em sua homenagem. √Č um disco como My Funny Valentine. Isto, repare bem, do ponto de vista da recep√ß√£o. Musicalmente, n√£o tem nada a ver nem com um nem com outro.

O grupo de Tarantella √© formado por aquilo que estamos acostumados a considerar “europeus da ECM” (apesar de que o selo aqui √© ACT), s√≥ que com Eric Harland na bateria. Lars Danielsson, o l√≠der, √© baixista, cellista e o compositor da maior parte do que se ouve ali. Em suma: jazz europeu-n√≥rdico-suave-sens√≠vel, voc√™ j√° viu esses adjetiva√ß√£o toda. “M√ļsica de mulherzinha” tamb√©m, se quiserem. Cheguei at√© a ler por a√≠ que √© m√ļsica para se ouvir num domingo √† tarde, tomando ch√° e comendo bolinhos. N√£o tenho nada contra, desde que voc√™ se lembre tamb√©m de que este √© um disco para se ouvir de quarta √† tarde tra√ßando uma feijoada ou de quinta de manh√£ lavando lou√ßa, ou seja, eu n√£o acredito em m√ļsica com hora certa para ser ouvida – nem, ali√°s, em ouvinte com g√™nero certo para poder apreci√°-la. Mas voltando, o disco √© aquilo ali que voc√™ j√° sabe sobre jazz-rom√Ęntico-l√≠rico-harmonioso, s√≥ que o top-do-top daquilo que voc√™ j√° sabe, ou melhor, pensa que sabe, porque garanto que ele √© tamb√©m um pouquinho diferente do que voc√™ imagina. O grupo tem cinco m√ļsicos, mas n√£o se trata de um quinteto regular e constante; as forma√ß√Ķes e a instrumenta√ß√£o variam muito de faixa a faixa. H√° um trompete (aquele trompete cheio de ar √† la Kenny Wheeler, doce como uma flauta), piano (um pianista que √© tudo o que voc√™ poderia pedir de um pianista n√≥rdico, l√≠rico e belo e tamb√©m desesperadamente suingante quando preciso), viol√£o/guitarra, bateria/percuss√£o. E o Lars Danielsson, naturalmente, no cello e no baixo. E a√≠, bem, as m√ļsicas.

A primeira come√ßa com arpeggios no viol√£o e aquele trompete doce e aerado de que j√° falei (trompete-suflair?), ent√£o entram violoncello e pratos e s√≥ quando aparece o piano voc√™ tem um princ√≠pio de defini√ß√£o do tema, mas s√≥ um princ√≠pio, porque o mist√©rio continua, a m√ļsica toda nada mais √© do que a pintura, o desenho de um clima misterios√≠ssimo, refor√ßado tamb√©m por uma guitarrinha-malandra que est√° ali s√≥ para te deixar mais curioso e aflito ainda (sim, h√° um elemento de afli√ß√£o a√≠, uma necessidade de descobrir onde-√©-que-esse-neg√≥cio-vai-dar), e a m√ļsica vai se desdobrando lentamente de um jeito que, desculpa, vai ficar brega mas n√£o posso evitar,¬†a m√ļsica √© o desabrochar de uma flor. O desabrochar tem a ver com um elemento bem caracter√≠stico deste disco que √© a forma muito fluida como os instrumentos v√£o entrando e saindo de cena – o que √© um outro jeito de dizer que os contrastes aus√™ncia/presen√ßa, sil√™ncio/m√ļsica s√£o especialmente impactantes aqui. Em suma, n√£o √© um disco em que todo mundo come√ßa a (e termina de) tocar junto ao mesmo tempo. Os instrumentos v√£o e vem e voc√™ nunca sabe o que pode acontecer; estou na en√©sima audi√ß√£o e j√° sei muita coisa de cor, mas continuo sem saber explicar o disco e continuo sendo absolutamente surpreendida toda vez, porque acabo esquecendo que determinadas coisas aconteceram. Parece que, toda vez que termino de ouvi-lo, sofro uma formata√ß√£o completa e dela emerjo prontinha para ouvir tudo de novo desde o come√ßo como se fosse pela primeira vez. Porque de fato sinto que ainda estou bem no comecinho de um longo relacionamento com a hist√≥ria que Tarantella est√° tentando me contar, e que ainda mal consigo vislumbrar qual √©.

Voltando √†s m√ļsicas. H√° uma pe√ßa de violoncello solo que nossos tolinhos ouvidos rapidamente encaixam (de en-caixar, isto √©, botar dentro da caixinha) na m√ļsica erudita. Outra m√ļsica vai pra caixinha da “m√ļsica de inspira√ß√£o indiana”. Outra, ainda, pra caixa ECM-anos-80 – caixa esta que √© uma lindeza s√≥, por sinal. Mas √© estranho. Porque as m√ļsicas s√£o todas extremamente diferentes uma da outra (apesar de que, algumas vezes, as m√ļsicas se repetem, s√≥ que com diferentes arranjos e em diferentes forma√ß√Ķes), a primeira n√£o tem nada a ver com a segunda que n√£o tem a ver com a terceira e assim por diante, ent√£o n√£o √© um disco com um “tema”, com uma unidade f√°cil, e ainda assim – ainda assim – ele √© todo um universo. Tudo faz sentido demais. N√£o √© um disco de decorar os solos. √Č um disco de se deixar penetrar pelas composi√ß√Ķes e pelos sons. Pela combina√ß√£o dos sons. Outro dia escrevi sobre saladas e acho que falei um pouquinho da alegria que √© quando de repente voc√™ percebe que combinou todos os ingredientes direitinho. Pois aqui a combina√ß√£o dos sons √© mais do que direitinha, e tamb√©m n√£o vou dizer que √© m√°gica porque seria muito f√°cil. Folheei o dicion√°rio e n√£o adiantou nada, ou melhor, adiantou, porque enquanto folheava me veio o t√≠tulo do poema: “O que tinha de ser”. Mas ainda n√£o √© exatamente isso, porque “o que tinha de ser” remete ao destino, ao que desde sempre estava escrito e premeditado, e aqui n√£o √© nada disso. Aqui voc√™ observa (voc√™ ouve) diacronicamente as coisas virando o que sempre tiveram de ser; voc√™ v√™ tudo se encaixando e se desencaixando de forma org√Ęnica e viva, voc√™ observa (voc√™ ouve) o nascimento e o desenvolvimento do som – a sensa√ß√£o, portanto, √© de estar diante daquilo que tinha de ser, sendo.

√Č estranho, √© estranh√≠ssimo porque depois de uma certa idade me sinto razoavelmente bem versada na m√ļsica que me agrada e n√£o esperava conhecer nenhuma novidade assim t√£o arrebatadora quanto aquelas que marcaram seus 5, 10 e 15 anos. E aqui estou, depois de velha, conhecendo aquele que est√° se tornando meu disco preferido. N√£o o meu disco preferido deste ano ou da ECM ou de um baixista sueco ou qualquer outra caixinha que se queira inventar. A caixinha de que falo agora abriga outros quatro ou cinco discos s√≥. Elis & Tom. Clube da Esquina. My Song. Travels. E agora este.

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(1) Só para não passar em branco, a tal Tarantella que dá nome disco começa com uma introdução de piano e derbak. Aparentemente os suecos gostam de uma ironia.
(2) Deixo linkada a m√ļsica de que falei um pouquinho mais, Pegasus – quando a gente n√£o sabe muito bem por onde come√ßar alguma coisa (no caso, mostrar este disco para quem leu at√© aqui), conv√©m come√ßar pelo come√ßo.

8 Coment√°rios on “Ouvindo Tarantella de Lars Danielsson”

  1. #1 Renata L
    on Oct 6th, 2012 at 5:32 am

    Sobre Kind Of Blue e sucesso: artes de Netuno, baby, artes de Netuno… Though I say so myself…
    beijos!

  2. #2 Van.
    on Oct 6th, 2012 at 10:13 am

    Gosto muito dos seus posts sobre m√ļsica!
    N√£o pare, por favor =)
    Abraço,
    Van

  3. #3 Honorato
    on Oct 9th, 2012 at 7:03 am

    J√° ouvindo o Tarantella, em breve emito minha opini√£o !!!

    Valeu! Como sempre vc √© uma desbravadora da boa m√ļsica !

    Sonho em um dia desses te apresentar alguma coisa BOA que vc não conheça kkkkk.

    Agente chega l√° !

    Um Abraço !

  4. #4 olivio
    on Oct 9th, 2012 at 7:53 am

    Muito bom Camila! Que texto legal…

  5. #5 olivio
    on Oct 10th, 2012 at 5:09 am

    E a m√ļsica tamb√©m √© muito legal! O tio Osmar fica ouvindo aqui do lado e fazendo um trompete “t√≥√≥√≥√≥¬ī…t√≥√≥√≥√≥”, na maior goza√ß√£o… √© que os ouvidos dele n√£o est√£o acostumados com esse refinamento musical… Um beijo grande!

  6. #6 lays
    on Nov 2nd, 2012 at 8:14 am

    Sugest√£o de m√ļsica (essa garota √© incr√≠vel!)

    http://www.youtube.com/watch?v=LegV3iO2u6Q&feature=related

  7. #7 camilalpav
    on Nov 4th, 2012 at 9:15 pm

    Ei, brigada o6 q leram. ;-) Honorato Рvc se converteu, né? #EuJáSabia // olivio, exatamente: tóóóóó-tóóóóó, só alegria // lays, adorei! Super obrigada, não conhecia não Рe eles são de New Orleans, né? Googlá-los-ei, certamente.

  8. #8 Melhores Discos: Top 7 2012 + Top 3 Descobertas – Recordar, Repetir e Elaborar
    on Jan 13th, 2013 at 8:18 pm

    [...] 1. Lars Danielsson ‚Äď falei dele aqui (2) [...]

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