Gentileza

- Tá descendo ou tá subindo?

- Descendo.

- G1.

A moça entra no elevador, deveras espaçosa.

- Ei, você me empurrou – reclama outra moça, tão ciosa quanto a primeira de seu espaço.

- Hã.

A primeira moça continua a entrar no elevador, ainda espaçosa.

- Ei, você me empurrou de novo!

- Queria o quê, você não deu passagem!

- Nem por isso você precisava me empurrar duas vezes!

- E custava deixar eu passar?

***

Um minuto se passa. O elevador parado no mesmo andar.

***

- Mal-educada!

- Você é que é uma sem-educação e sem-respeito!

- Respeito é o que você devia ter – respeito e vergonha nessa tua cara!

- Vem cá que eu vou te mostrar o que é respeito!

***

Neste ponto julgo importante descrever as moças e situar o elevador. Este transporta os clientes de um dos shoppings mais chiques de São Paulo, clientes estes que se consideram e estão acostumados a serem considerados “gente de bem” – cidadãos honestos, sérios, trabalhadores -, que nas horas vagas apreciam flanar por shoppings chiquérrimos acompanhados de seus cãozinhos fofos. As moças em questão, cidadãs de bem paradigmáticas, usavam vestidos coloridos não menos fofos que seus cãozinhos, e alguns milhares de reais sob a forma de joias, bolsas e sapatos.

Outro minuto se passa.

***

_ PALHAAAAÇAAAAA

_ VAAACAAAAAAA

Quando começam os tapas, saio do elevador.

***

Jon Lee Anderson diz ter se sentido profundamente humilhado e envergonhado como cidadão americano ao ver de perto a pobreza de um dos bairros de Nova Orleans mais atingidos pelo Katrina.

É mais ou menos o que sinto ao olhar no espelho. Não, não é o que sinto ao olhar para “a nossa elite”, porque a elite, sendo uma série de coisas, também sou eu. Não pensem que não tenho vontade de encontrar uma centena de pequenas diferenças entre as moças estapeadoiras e eu, diferenças que até seriam verdadeiras – por exemplo, todas as ˜joias˜ que eu usava ontem, i.e. um par de brincos, totalizavam o impressionante valor de seis reais -, tão verdadeiras quanto irrelevantes desde um ponto de vista apenas um pouco mais abrangente que meu desejo de diferenciação de gente que se estapeia no shopping.

Pois não importa o que eu diga: as moças estapeadoiras não vieram de uma distante tribo esquimó cuja cultura desconheço. As moças estapeadoiras e eu somos da mesma classe social, moramos nos mesmos bairros, estudamos nas mesmas escolas e – voilà – frequentamos o mesmo shopping. Não adianta tergiversar, não adianta o meu brinco custar seis reais – foram seis reais pagos em dólar a um camelô de Nova York. As moças estapeadoiras são meu povo, minha gente, minhas amigas no Feissy e minhas colegas de pós-graduação. E é profundamente humilhante e constrangedor que a minha classe não seja capaz de compartilhar por dois minutos o espaço de um elevador.

Porque na minha classe, antes e acima de tudo, o importante é ser um vencedor – nem que seja de uma discussão com um completo desconhecido. Cem gestos conciliadores não valem uma discussão ganha – errei, desculpa & o que posso fazer para reparar meu erro são artigos que não estão à venda nos nossos shoppings.

Na minha classe, somos todos gente de bem unida contra os bandidos inimigos – nem tento disfarçar meu medo de ser assaltada de novo, do qual morro um pouquinho a cada dia -, até o exato instante em que o significante inimigo começa a se alastrar como uma gosma para pessoas como o imbecil que parou torto na vaga, o idiota que não desligou o celular no concerto, o filho da puta que furou a fila do mercado. Porque eu, quando faço todas essas coisas, nunca é por mal, mas apenas porque estava distraída. Já os outros, não: os outros comportam-se de forma incivilizada porque são intrinsicamente bárbaros.

Na minha classe, a delicadeza é para os fracos – onde já se viu sorrir para uma pessoa que estava errada quando eu é que estava certa? Eu, claro, estou sempre certa.

***

Então, depois de sair do elevador de fininho, à margem do caixa do estacionamento sentei e chorei.

Não falta nem inexiste amor em São Paulo. As pessoas da minha classe com certeza amam seus cãozinhos incondicionalmente, quem há de negar?

Anda faltando, me parece – ao menos na minha classe -, um pouco de gentileza. A começar por mim – e quem sabe por você também.

15 Comentários on “Gentileza”

  1. #1 Renata L
    on Oct 31st, 2012 at 7:45 pm

    Não sei, Cam. Curiosamente, pensava sobre algo parecido com isso hoje. E o caminho do que eu pensava ia mais ou menos na seguinte linha: os grandes agregados (classe, gênero, faixa etária etc.) dizem um tanto. E no entanto. Muita coisa não dizem. Há que se olhar, pensava eu – e isso é tão mais verdade quanto na nossa sociedade brasilis tudo é incompleto: o que é público, o que é republicano, o que é bem comum – para o que eu, na falta de palavra melhor, chamo de “portais”.
    Em que portal você se situa? Você, com seus seis reais de brinco e sua educação de princesa descalça, certamente não está no mesmo portal que as moças estapeadoiras. E o olhar bruto para o fato de que para o IBGE (ou Marx) vocês pertencem à mesma classe social não explica. Embora eu entenda o que você quis dizer.

  2. #2 maycon
    on Oct 31st, 2012 at 9:01 pm

    o sujeito é coletivo, né? nunca somos só, somos juntos. e não to falando de grupalidade. quando apontamos para outras pessoas e dizemos “você é isso” ou “você é aquilo” não deixamos de revelar algo sobre nós mesmos.

    adorei o texto.
    seu olhar é atento e delicado, Camila.

  3. #3 googala
    on Oct 31st, 2012 at 9:01 pm

    putz!

  4. #4 bete_davis
    on Oct 31st, 2012 at 10:24 pm

    me faço as mesmas perguntas. todo dia. com infinitas coisinhas do dia dia. choro no travesseiro. coisinhas do tipo os colegas que falam mal de índio, que nandido bom é bandido morto, que reclamam das cotas, reclamo de quem estaciona mal, de quem é mal educado, tudo isso, internamente. mas venho do mesmo lugar que eles. do mesmíssimo lugar. mesma classe social. de noite choro. bj.

  5. #5 Suzi
    on Nov 1st, 2012 at 3:07 am

    Camila,
    eu tenho andado assustada com a intolerância das pessoas.
    Qualquer coisa é motivo para a agressão física! Um esbarrão. No
    elevador, uma fechada no trânsito, uma bicicleta que insiste em
    ocupar o espaço dos carros, um pedestre que acredita e
    faixa de segurança…
    É de chorar mesmo, pelo menos enquanto ainda temos
    essa capacidade :-(
    Bjs
    Suzi

  6. #6 Luciana
    on Nov 1st, 2012 at 3:12 am

    Eu li e reli e divulguei ontem, mas não comentei. Não achava palavras novas, não queria usar as anteriores já que o fato era novo. Ou, pelo menos, o post. Decidi que eu sou o que já pensei, também, então vamos lá: Uma vez fiquei pensando na frase “nós, o humanos, fracassamos como espécie”. E o meu lado Pollyanna logo me levou por um caminho que é o de achar que a própria existência desse pensamento relativiza a ideia que ele apresenta. Quando se julga que fracassamos como espécie (ou quando é tão dolorido fazer parte dela) é, um pouco, porque temos expectativas, porque queremos ser melhores. Porque achamos que podemos ser. E expectativas são constituídas de fantasia e imaginação mas também de memória, leitura da realidade e vivências. Ao apontarmos que podemos ser melhores, indicamos que, por vezes, somos. Você é. Melhor. Não em uma balança ou com uma régua pra medir pessoas, mas pela complexidade que abarca: as moças que se estapeiam, a dor, a reflexão, a escrita, a convocação das nossas posições. Você é melhor, não em uma escala, não melhor do que elas – é isso que quero dizer e não sei bem como – melhor que você mesma, entende? E me faz ter vontade de ser melhor. Melhor do que eu era ontem, reconhecendo que ser melhor não é – apenas – um ser boa, mas ser mais complexa, menos linear, mais inclusiva. Ser, também, a que sabe/sente moças phynas se estapeando em elevadores. Que sabe/sente mulher Guarani e Kaiowá estuprada por 8 pistoleiros. Que sabe/sente a senhorinha que pega eléctrico comigo, nos seus 92 anos agora tão sozinhos.
    Não sei direito por onde esse comentário foi, podia só ter dito que embora meu bilhete de bingo seja outro, lembrei de Caio:
    “eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus mas como você me dói de vez em quando”

  7. #7 Renata L
    on Nov 1st, 2012 at 4:55 am

    E acho que o que nos dói – aproveitando o gancho da Lu e complementando meu coment anterior – é talvez reconhecermos que pelo fato de que a gente vive nessa sociedade “incompleta” (incompleta de cidadania, de república, de pensar/saber coletivo organizado, de Estado), a dor que a gente sente seja nossa, do nosso portal. A dor pelo comportamento das moças “chiques”, a dor pelo estupro da guarani kaiowá (e de tantas outras).
    Falta base, falta apoio. Falta uma estrutura coletiva, nessa terra em que estar no poder é ter direito a seu quinhão de privilégios.
    Mas não só. E aí está meu lado Pollyanna. Mas não só.
    Beijos!

  8. #8 renato
    on Nov 1st, 2012 at 5:21 am

    Não entendi a relevância da classe social das moças do elevador. Seria algo do tipo “elas, tão ricas, que poderiam ter tido educação de primeira não tem”?

    Mas fora esse pormenor da classe social, concordo que a intolerância é a tônica dos tempos atuais…

  9. #9 Lu Botter
    on Nov 1st, 2012 at 6:33 am

    Ontem eu li o post, Cami e fiquei pensando…e lembrei desse texto do Renato Janine Ribeiro, publicado no Valor Econômico (http://www.substantivoplural.com.br/a-guerra-de-todos-no-transito/).
    O seu texto e esse artigo se conectaram aqui; e + a ideia da Luciana (acima) de como podemos ser melhores, o melhor de nós mesmos. E daí eu lembrei daquele livro que vimos uma vez em NY, “How to be a better you” (provavelmente um grande manual de auto-ajuda, mas enfim..) e agora pelo visto eu já não estou conectando bem as ideias, numa “vibe” associação livre.. e melhor parar o comentário por aqui..
    Bjos!

  10. #10 Elza Suely Anderson
    on Nov 1st, 2012 at 4:48 pm

    Penso muito sobre e pratico sempre a gentileza. Esta tem sido uma escolha consciente que fiz há uns 12 anos, quando aprendi que valia a pena escolher uma qualidade e focar nela. Meus dias são feitos de pequenos gestos, imperceptíveis para a maioria, de gentileza. Tenho 60 anos, e durante uma boa parte dessa jornada eu mesma não entendia que essa é uma herança de meus antepassados. Já fui e continuo sendo julgada como “boazinha”, “meiga”, e outros adjetivos menos desabonadores. Refleti profundamente sobre isso, sofri com os julgamentos alheios, até fazer as pazes comigo mesma. Sou como sou. Não consigo ser indelicada, nem com quem me trata mal. Tenho a maior facilidade em reconhecer meus erros e me retratar. A única coisa que me tira do sério, e me transforma em uma leoa faminta, é ver alguém judiar de animais e crianças. Não tenho problemas em engolir sapos, abrir espaço, e segurar o espaço para que outros brilhem. Observo, porém, que nos ambientes onde trabalho e convivo, o/a(s) aplaudio/a(s) são o/a(s) que se expressam com agressividade, assertividade, sem muita preocupação com a gentileza. A astúcia, a sagacidade, a rapidez, o tom de voz assertivo, o saber se impor, são qualidades bem mais respeitadas. Ninguém está aí para a gentileza que, por estranho que pareça, é frequentemente associada à fraqueza e à falta de inteligência. Fico extremamente feliz quando encontro pessoas genuinamente gentis, porque é como encontrar uma alma gêmea. Alguém que me entende sem eu ter que me explicar ou justificar. Aos 60, o bom é que a gente já percorreu uma certa quilometragem, e pode se dar ao luxo de devaneios como esse agora, em véspera de feriadão…

  11. #11 Bel
    on Nov 2nd, 2012 at 7:36 am

    “Porque eu, quando faço todas essas coisas, nunca é por mal, mas apenas porque estava distraída. Já os outros, não: os outros comportam-se de forma incivilizada porque são intrinsicamente bárbaros.”

    Isso cala fundo. Porque o mais difícil, tô pensando aqui, é reconhecer e lidar com isso: que posso ser extremamente gentil e, minutos depois, intrinsecamente bárbara.

  12. #12 camilalpav
    on Nov 4th, 2012 at 9:53 pm

    Rê e Lu, a gente já falou um pouquinho sobre isso pelo tuíto, mas reitero aqui – fiquei impressionada como, coletivamente, vocês foram se aproximando mais e mais do que eu queria (e não consegui / não pude) dizer. Porque a classe social não está aí como elemento explicativo de coisa alguma. Está apenas como o paradoxo do pertencimento e não-pertencimento. Porque, se é inegável que elas são a minha tribo, é tão inegável quanto que minha dor é apenas minha – e não precisaria ser. Não neste caso. Poderia ser uma dor de todos nós, mas ficamos isolados neste meu-deus-que-mundo-é-esse-em-que-vivemos. Falta base, falta apoio (Lins, R.), coisas dificílimas de construir. Mas sabe? Com vocês eu sinto que construí, sim – alguma ponte, alguma coisa. // Lu, adorei isso de ˜ser melhor do que a si mesma˜. De ser mais e mais inclusiva. É um esforço diário e, no limite, inatingível – o que não quer dizer que não se deva tentar atingi-lo mesmo assim. Beijo pras duas :**

    Maycon: você participou desse ˜conhecimento coletivo˜ a que me referi aí em cima. Este é o ponto, acho: somos sempre juntos, claro, e tão claro quanto isso é que vivemos nos esquecendo disso.

    Iara: nesse dia não aguentei nem esperar a noite pra chorar, chorei foi na hora mesmo. Beijo.

    Googa – :*

    Suzi – tem isso também. Qualquer coisa vira motivo. Um esbarrão. Um mero esbarrão e de repente temos a terceira guerra mundial. Um beijo.

    renato, veja minha respostinha pra Rê e pra Lu, por favor.

    Lu Botter – sabe que, pelo que entendi, sua xará disse bem o contrário dessa ideia de “be a better you”. A ideia seria ser better THAN you, ou seja, não tem nada a ver com “desenvolver ao máximo as próprias potencialidades” (que é o que esse tipo de livro com o Oprah seal of approval apregoa), mas se educar para saber/sentir o outro, para além do que se é. Porque, para saber e sentir moças estapeadoiras ou senhorinhas no ônibus, pouco importa se eu estou sendo meu worst ou meu best you. O importante é ser melhor do que eu mesma. Simplesmente porque eu não sou tão importante assim. As relações que estabelecemos com os outros é o que importa. Bão, pelo menos foi assim que interpretei a outra Lu. :*

    Elza, acho tão engraçada essa associação que existe entre gentileza e tontice. Como se agir de forma gentil não fosse, no mais das vezes, a coisa mais inteligente a se fazer. Um beijo.

    Bel, e tem mais essa: é muito fácil ser super gentil na esfera privada e no minuto seguinte ser uma besta na esfera pública. Vivo fazendo.

  13. #13 olivio
    on Nov 8th, 2012 at 5:21 am

    Li e adorei tudo isso. Se educar para sentir o outro, um sentimento altruísta, né Camila? Não adianta escraver mais nada, você já disse tudo, no post e nos comentários. Parabéns, melhor escritora dos mundos inteiros…

  14. #14 Gentileza gera gente ilesa - Uma Malla Pelo Mundo
    on Nov 24th, 2012 at 6:04 pm

    [...] botão de start desse post veio da Camila, que escreveu um post incrível sobre a falta de gentileza da zélite moderna, magnanimamente simbolizada por uma briga no elevador. O post escancara como o comportamento da [...]

  15. #15 Rê Cabral
    on Nov 29th, 2012 at 8:02 am

    Se eu estivesse lá e te visse chorando, juro, me sentava ao seu lado, pegava na sua mão e chorava com você. Lindo texto, linda reflexão! E viva a gentileza, a começar de mim…

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